segunda-feira, 4 de maio de 2015

Parcel do Manoel Luís: um paraíso submerso no Maranhão

Mero no Naufrágio Ana Cristina. Foto Marcus Davis.

Costumo dizer que por ser instrutor de mergulho ganho pouco mais vivo bem. Vivo bem pois tenho a oportunidade de visitar lugares que as pessoas comuns nunca sonhariam. Assim aconteceu com o Parcel do Manoel Luís, uma grande formação de recifes submersos a 80 quilômetros da costa do Maranhão.
Servidores se preprando para mergulhar
em Fortaleza.

O Planejamento
A Expedição Parcel foi resultado de anos de planejamentos e capacitações por parte dos servidores públicos da Secretaria do Meio Ambiente do Maranhão (SEMA-MA). O planejamento iniciou-se em 2012 quando a coordenadora da secretária na época Naira Valle decidiu efetivar o domínio do Estado em uma de suas unidades de conservação mais remotas. Nunca um funcionário do órgão responsável pela fiscalização havia visto de fato o que há lá embaixo e o valor imensurável do que devem proteger.

Capacitação no Mar do Ceará.
Neste ano quatro fiscais e analistas da Secretaria vieram ao Ceará para capacitar-se para a expedição.  Ficaram duas semanas em Fortaleza, período em que concluíram com sucesso o curso Open Waters e Advanced Open Waters com o Escola e Clube de Mergulho Mar do Ceará. O treinamento foi um desafio para uns mas uma vitória para todos. Após os curso foi recomendado mais experiência: mergulhar mais para enfrentar as condições adversas do Parcel. Planejamos uma segunda fase de treinamentos onde seriam realizados cursos de mergulho profundo e primeiros socorros (Deep Diver e Emergency First Response). Em 2014 os servidores retornaram a Fortaleza e finalizaram a segunda etapa do treinamento. Ao final estavam prontos, mas apesar disso fui convidado para acompanha-los na expedição como fotografo e safety diver.

Após a conclusão da fase de capacitações agora precisávamos de condições de tempo favoráveis e verba para a viagem. Ao fecharmos esses detalhes fundamentais uma data foi definida: 30 de janeiro às 14:00 deveríamos partir de um porto localizado em São José do Ribamar, cidade localizada a uma hora  carro de São Luís.
O Robusto Aqua 2.

A viagem
Partimos com um atraso "programado" de duas horas à bordo do Aqua 2. Estávamos em um veleiro catamarã de bom tamanho que há mais de 20 anos faz viagens ao Parcel fretado pelo Governo ou em operações  jornalísticas ou de pesquisa mas não para a prática exclusiva de mergulho recreativo, explica o experiente Comandante William Thomas, um brasileiro filho de americanos que fez suas primeiras viagens ao Parcel bordo do Aqua 2 ainda em 1993 quando liderava um projeto de pesquisa sobre naufrágios.
Marina, Shirley, Luciano, Janaína e eu.

Estávamos no barco sete marinheiros, o comandante, Janaína Dantas coordenadora da SEMA, Luciano Lápis fiscal ambiental, Marina Barros analista ambiental, Shirley Leão analista, e eu para uma viagem longa. O mar estava favorável e relativamente calmo mas o nosso atraso nos obrigou a ancorar ao cair da noite. Não se navega à noite quando próximo do litoral do Maranhão devido a grande quantidade de bancos de areia que surgem abruptamente revelando o perigo de encalhe. A prudência nos obrigou a passarmos a noite parados mas com o raiar do dia retomamos a navegação incessante até o Parcel. Chegamos em suas proximidades mais uma vez ao cair da noite e também não se navega a noite próximo do Parcel devido às suas características propicias ao naufrágio: bater em um dos cabeços seria catastrófico. Ancoramos mais uma vez para esperar a segurança da luz solar para nos aproximarmos e fundear o barco em um local seguro.

O Parcel
O Parcel.
O Parcel do Manoel Luís não é uma formação coralínea. Na verdade os cabeços que o compõem são formados por algas-calcárias que ao longo de milhares de anos cresceram umas sobre as outras. "Há 20 mil anos o local onde hoje é o Parcel do Manoel Luís estava fora d'água. O mar avançou muito nesse período", explica William, o que torna o lugar ainda mais interessante, O Parcel está a 90 mn de São Luís e a 100 mn de São José do Ribamar, porto mais favorável para alcançar o lugar visto que na navegação marítima uma reta sem sempre representa a menor distância entre dois pontos. É um Parque Estadual Marinho desde 1991 sob a jurisdição da SEMA que realiza operações de fiscalização na região.

Planejamento dos Mergulhos.
A área de preservação em que se localiza é remota e imensa o que dificulta extremamente sua fiscalização e pesquisas. Na verdade a unidade de conservação é composta de duas áreas separadas: o Parcel e o Banco do Tarol que é ainda mais distante e menos estudado. No entanto o Parcel conserva além da riqueza biológica, uma riqueza histórica ainda não dimensionada: ali afundaram várias embarcações, pesquisadores divergem quanto ao números que varia de 15 a 200, que desavisadas ou enganadas quanto a sua rota chocaram-se contras os cabeços, em muitos casos, com muita perda de vidas.
Embarque nos infláveis.

Mas o patrimônio biológico é riquíssimo. Tanto que já fez o lugar parecer maior do que realmente é: anos atrás um renomado pesquisador uma vez o mencionou como local de desova de tartarugas e reprodução de aves marinhas, o que é impossível. Não há ilha, areia ou coqueiros no Parcel. Os recifes sobem até a linha d'água e ali terminam. Sobre a água não há muito, mas abaixo a riqueza é fantástica: cardumes diversos circulam os cabeços, peixinhos coloridos de várias espécie fixam residência nas áreas mais rasas e peixes de grande porte circulam por ali, fauna e flora quase intocadas. A água é claríssima que causa uma enganosa segurança. São muitas as histórias de mergulhadores pegos de surpresa pela correnteza permanente da região. A amplitude entre marés na costa do Maranhão é maior que cinco metros o que resulta em correntezas fortíssimas durante quase todo o tempo. Apenas no estorvo das marés que acontece duas vezes por dia a correnteza para completamente e é possível mergulhar sem ser levado por ela.
Equipe se prepara.

Os Mergulhos 
Dia 1 de fevereiro de 2015 chegamos ao Parcel do Manoel Luís e realizamos um primeiro mergulho.

Logo que chegamos já com o barco fundeado a tripulação baixou dois botes infláveis e nos preparamos para entrar na água. Embarcamos nos pequenos infláveis que são uma ferramenta essencial em operações de mergulho no lugar. Em um grupo com quatro mergulhadores descemos em um cabeço e lutamos contra a correnteza. Mal pudemos observar o lugar nos abrigando no lado protegido da coluna de calcário aos 15m de profundidade. Aconteceu um pequeno erro de cálculo: a maré começou a encher antes do previsto e a correnteza estava fortíssima. Missão abortada após meros quinze minutos de fundo. Segundo William devido à distância em relação a costa no Parcel a maré muda cerca de uma hora e meia antes do previsto nas tabelas publicadas pela Marinha o que complica um pouco os cálculos.
As cores do Ana Cristina.

De qualquer forma foi o dia em que pela primeira vez servidores públicos viram com os próprio olhos a riqueza do lugar que devem proteger. Simbolicamente foi tomada a posse da Unidade de Conservação pelo Poder Público.

Após o estresse do primeiro mergulho a lição estava clara: é um lugar hostil. Lindo mas hostil. Retornamos para a nave mãe enquanto esperávamos o próximo estorvo que só aconteceria em seis horas. Quando voltamos para o mar estávamos prontos e preparados para nadar. Mas incrivelmente não havia correnteza e descemos aliviados com destino ao navio naufragado Ana Cristina. O último grande navio a bater nos parcéis chocou-se violentamente contra um dos cabeços e partes de sua proa e sua âncora ainda estão a poucos metros da superfície, sobre o local onde ele bateu. A corrente da âncora liga-a ao restante do navio que repousa inteiro deitado sobre seu bombordo como se descansasse a 26 metros de onde estão os nossos botes. Um grande mero, incontáveis barracudas e um cardume de dentões agora dominam o lugar já bem adaptado ao fundo mas apesar disso é impossível deixar de notar a dramaticidade do lugar: o navio de lado com sua corrente subindo para superfície deixam clara a brutalidade do acidente.
O hélice reserva do Ana Cristina.

No dia seguinte café da manhã para estômagos já acostumados ao balanço e espera pelo horário da maré. Em horário cuidadosamente ajustado voltamos para os botes. Dessa vez em menor número, eramos apenas eu e o Luciano mergulhando mais uma vez no naufragado Ana Cristina. Lá estava o mero, as barracudas e os dentões mas pudemos notar alguns outros detalhes do navio em si como seu hélice reserva, a balaustrada, os vidros das vigias de comando tudo parece inesperadamente bem preservado. Emergimos 25 minutos depois e em uma manobra rápida, nos deslocamos para outro naufrágio enquanto trocávamos os cilindros. Agora acompanhado da Shirley visitaríamos o petroleiro Ilha Grande que está a não mais que uma milha navio anterior.  A proa do naufrágio está inteira mas seguindo para popa está tudo em destroços. Dois, talvez três, pequenos meros se escondiam meio curiosos enquanto um cardume de pirajicas rodeava o lugar. Fantástico.
Luciano próximo ao cabeço em que bateu
o Ana Cristina. Note a corrente da âncora
descendo do cabeço no canto
inferior direito.

Apesar da boa visibilidade constatamos uma alga verde e fina em excesso prejudicando um pouco a visibilidade, fenômeno incomum e que preocupa William que só o observou nos últimos anos.

À tarde e com a maré cheia visitamos o topo de um dos cabeços eramos um trio composto por Marina, Shirley e eu para mergulharmos em uma formação a não mais que oito metros da superfície. Era como um oásis submerso no meio daquele aparente deserto azul. Algas, corais e peixes dominavam o lugar dando a ele um ritmo próprio. Peixeis bentônicos como parus, batatas, cirurgiões nadavam entre algas verdes. Mesmo com a maré parada, devido a proximidade da superfície uma leve correnteza nos indicava a direção, indo e voltando conforme a ondulação.
Os naufrágio são completamente cobertos.
Exceto os curtos períodos de estofo da maré o tempo à bordo é monótono. Filmes em notebooks e livros são uma boa sugestão para passar o tempo.
A proa do Ilha Grande está inteira.

No terceiro dia ancorados sobre o Parcel o intuito era visitarmos o local conhecido como Fragata Portuguesa. Segundo William que localizou os destroços na década de 90, ali bateu um navio de madeira de grande porte e vários artefatos ingleses foram encontrados durante as pesquisas. Acontece que o local nunca foi propriamente estudado e a identidade do naufrágio permanece desconhecida. Uma das maiores referencias em história náutica dos últimos tempos, Almirante Max Guedes sugeriu baseado nos artefatos encontrados que ali poderia ter afundado uma fragata de origem portuguesa e essa sugestão deu nome ao lugar. O local pode parecer um pouco decepcionante em uma primeira vista. Isso porque a quinze metros de profundidade o que resta da fragata está agora totalmente enterrado ou adaptado ao fundo calcário e o pouco que que se vê são pedaços de madeira dispersos. No entanto segundo o William o navio está consideravelmente inteiro sob o cascalho. Para olhos um pouco mais treinados é possível perceber sobre o cabeço mais próximo pedras soltas de formato arredondado e também é possível notal que parte do cabeço provavelmente se partiu com o choque da embarcação.
Guara

Do ponto de vista histórico esse é talvez um dos mais naufrágios mais importantes do Parcel e merece estudos mais detalhados. Isto porque devido ao seu isolamento geográfico e proteção parcial do relevo submarino no local exato do naufrágio o lugar é como uma capsula do tempo do século XVIII que está ali para ser aberta.

Para o último mergulho do dia planejamos visitar outro navio afundado. Os naufrágios são grandes agregadores de vida marinha e no Parcel não é diferente. Grandes peixes pelágicos são observados nas proximidades do Basel a 28m de profundidade. Durante esse mergulho a visibilidade já não estava das melhores mas o mergulho não deixou a desejar. Avistamos um tubarão-lixa que viria a ser o único observado na expedição.
Esponjas e algas calcárias.

No dia seguinte levantamos âncora logo cedo. Dessa vez não iam só os infláveis, mas toda a caravana. Iniciamos uma batimetria ao redor de todo o Parcel. O objetivo era determinar "as bordas" da formação e documentar sua profundidade. Levamos o dia todo nessa manobra em que aproveitamos para coletar algumas amostras de fundo. Fundeamos ao final da tarde na borda sul do Parcel para um  mergulho de coleta. Acompanhando da Shirley descemos em um local repleto de algas calcárias a 28m da superfície que denominamos "Cabeço da Leão". Após o mergulho seguimos para o continente com destino a ilha de Santana. Mal terminamos o jantar e a chuva logo nos botou pra dormir. 
Cardumes diversos.
Colete de material biológico.
A chuva leve se transformou em uma tempestade e obrigou William a ficar acordado todo o tempo ao lado de mestre. O barco balançava freneticamente e o choque com as ondas produziam ruídos demolidores, principalmente para aquele alojados nos compartimentos da proa. Mas o Aqua 2 aguentou dignamente a viagem e a tempestade deixou um bom alerta das dificuldades que enfrentaram os grandes navegadores da antiguidade. Navegamos toda a noite e a manhã do dia seguinte até ancorarmos no estuário da Ilha de Santana onde baixamos os infláveis para inspecionarmos alguns locais de interesse do ponto de vista ambiental. Visitamos algumas comunidades e ilhotas que ainda parecem saudáveis. Importante notar o quão remotas são as ilhas do litoral do Maranhão ainda nos dias atuais e as dificuldades que teriam os náufragos de tempos passados.
Coleta durante a batimetria.

Pernoitamos abrigados para uma noite tranquila e logo cedo rumamos para São José do Ribamar. A sensação de dever cumprido nos dominava a medida que adentrávamos no Porto. Por mais conhecido que seja estar em um lugar onde poucos estiveram deixa um gostinho do que teriam sido as grandes expedições exploratórias do passado.





Sargentinho no Ilha Grande.

Pirajicas. Naufrágio Ilha Grande.

Formações dos cabeços são incríveis.

Esponja no "Cabeço da Leão". Intocado.

Os jantares à bordo: a ocasião.

Inspeção na Ilha de Santana.

O Farol da Ilha de Santana.

Povoado da Ilha de Santana. Ilha do Duarte ao fundo. 

Base da Marinha na Ilha de Santana.

A chegada em São José do RIbamar.

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