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Os pescadores artesanais utilizam os manzuás que são armadilhas feitas por eles para a captura da lagosta. Eles colocam as armadilhas no mar com as iscas e retornam um ou dois dias depois para conferir o resultado. Chegam a pegar dezenas de lagostas por manzuá no início da temporada. Este método de pesca é utilizado em todo o litoral cearense e é permitido por lei.
Já os pescadores de compressor usam equipamentos de mergulho rudimentares – os compressores de ar – instalados nos barcos para mergulhar até o fundo do mar respirando por mangueiras e capturarem as lagostas. Este método predatório de pesca tem gerado grandes conflitos em todo o litoral brasileiro. Além do risco extremo que os mergulhadores se submetem por não conhecerem as técnicas corretas de mergulho, é considerada uma forma desleal de pesca porque proporcionam a captura de colônias inteiras do crustáceo. Pesquisadores afirmam que a pesca com compressor é o motivo do “sumiço” da lagosta nas praias do litoral cearense. Várias colônias de pesca já se renderam às “facilidades” da utilização do compressor.
A Praia de Redonda em Icapuí é talvez um dos últimos redutos de resistência. Nesta última temporada de pesca o clima esquentou. Pescadores artesanais se revoltaram contra a pesca desleal. Fecharam as estradas de acesso à praia, atearam fogo em dois barcos a vela e um a motor e retiram seis outros barcos da água – inclusive o do vice-prefeito e o de um vereador sob a alegação de que todos eles estariam utilizando compressores para pescar lagosta. As embarcações estão "apreendidas" e podem ser vistas amontoadas e danificadas à beira mar. Estas ações foram noticiadas por vários jornais em outubro e novembro de 2009.
Sob pressão o Ibama realizou várias operações de combate à pesca ilegal na região. Além da logística em terra, uma lancha rápida equipada com dois motores de alta potência foi empregada para perseguir os infratores em alto mar. A bordo da lancha-rápida mergulhadores de resgate do Corpo de Bombeiros do Ceará para se certificar de que nenhuma “prova” fosse descartada no mar pelos infratores. Prisões foram realizadas em baixo d’água pelos mergulhadores do CBCE em um exemplo magnífico do correto emprego das ferramentas do Estado no combate a pesca predatória.
Apesar das inovações poucos barcos foram apreendidos. A “Revolta de Redonda” parece ter sido mais eficiente do que todo o aparato do Ibama. Talvez a solução seja educar em terra ao invés de perseguir no mar.
Além da tranqüilidade encontramos os mistérios. Dezenas de sítios arqueológicos existentes na região tornam o lugar ainda mais fascinante. Josué Crispim, arqueólogo amador e curador do acervo do futuro Museu de Ponta Grossa, disse que em breve será publicado um livro sobre os mistérios do lugar, projeto que só pôde ser realizado com financiamento privado. No acervo estão artefatos indígenas, pontas de flecha, porcelanas francesa, inglesa, holandesa e de outras nacionalidades, garrafas, âncoras, ossos de baleia, etc. Josué guarda tudo isso na garagem de sua casa. “Eu vou encontrando esses materiais e trago pra casa pra não se perder”, disse.
Foi inicialmente impedido pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) de coletar estes artefatos porque estaria descaracterizando os sítios arqueológicos. Atualmente Josué foi finalmente reconhecido como guardião do acervo que possui e recebe um salário pelo trabalho que desempenha. O trabalho deste nobre senhor nada mais é que um resgate da cultura pelo próprio povo.
Apesar de reconhecido Josué enfrenta várias dificuldades. O apoio financeiro é pouco e muitas vezes atrasa. É uma grande ironia visto que seu trabalho de resgate do nosso patrimônio histórico não tem preço.
Além da falta de apoio uma outra ameaça: os passeios de buggy, motocross e mais recentemente os quadricículos motorizados estão destruindo os sítios arqueológicos. Os buggys vêm de Canoa Quebrada repletos de turistas que almoçam em um dos três restaurantes da vila. O turismo estimula a economia local, mas o trajeto que os guias insistem em fazer passa justamente sobre locais que foram habitados por civilizações pré-contato a centenas de anos atrás e ainda guardam relíquias do patrimônio histórico da humanidade.
(Rastro dos veículos nos sítios arqueológicos: Patrimônio ameaçado!)
A solução parece simples, mas não é. Bastaria apenas mudar o trajeto, mas um dos sítios fica mesmo na subida de principal duna de Ponta Grossa e os guias tem que passar por ela quando fazem o passeio “com emoção” em que realizam manobras arriscadas nas dunas. Em países de primeiro mundo o trecho teria sido imediatamente interditado, sem conversa. No Brasil, existem leis de conservação de áreas costeiras que impede o tráfego de veículos motorizados não credenciados em dunas e falésias, mas em prol do turismo, a lei não é aplicada.
Para Josué essa é uma briga antiga e afirma que até já foi ameaçado de morte por tentar impedir a passagem dos buggys pelo local. “Uma cerca já foi colocada para parar a passagem dos veículos, mas foi logo arrancada pelos bugueiros. Tem guia aí que se me vê na praia, passa por cima”, afirma.
Em uma breve caminhada pelos sítios arqueológicos de Ponta Grossa observamos o estrago feitos pelos veículos. Marcas dos pneus sobre as dunas evidenciavam a destruição de nosso passado. Um pedaço de cerâmica produzida por nossos ancestrais possivelmente a centenas de anos, estraçalhada por um desses veículos.
Enquanto as autoridades não se manifestam nós é que saímos perdendo. É a nossa história que está sendo atropelada diariamente nas dunas de Ponta Grossa, no país do futebol.