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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Sobre Arqueologia Subaquática e o Estudo de Naufrágios no Ceará

Naufrágio do Aterrinho, Fortaleza, CE


por Paula Christiny


Assuntos relacionados a afundamentos chamam a atenção e mergulhos turísticos para a visitação de embarcações naufragadas são umas das maiores atrações de agências de turismo subaquático que oferecem esse tipo de serviço. Os naufrágios despertam interesse por causa de relatos sobre aventuras fantásticas, navios afundados e grandes tesouros. Tragédias envolvendo embarcações também causam sentimentos de tristeza e afeição em virtude de relatos sobre vidas perdidas no mar.

Por outro lado, também avançam pesquisas no campo da Arqueologia Subaquática, ramo da arqueologia que faz estudo científico do passado humano através sítios arqueológicos submersos, muito diferente da predatória caça ao tesouro. A atuação dos estudiosos tem uma abordagem interdisciplinar, combinando os métodos de diversas áreas de estudo, incluindo a Antropologia, Química, Geologia, História, Arquitetura Naval, Oceanografia, Biologia e entre muitas outras. Os pesquisadores desse meio são os principais defensores desse patrimônio. Suas ações têm permitido o conhecimento e preservação de bens submersos importantes.

O que o ser humano produz, faz parte de sua vida. Embarcações é produto da ação do homem e trazem informações sobre diferentes aspetos da sua história. Através do estudo da arqueologia de naufrágios é possível conhecer sobre a relação da humanidade com mares e oceanos. Tem muito a contar um navio afundado. É possível entender por meio dos projetos arquitetônicos das embarcações, as características da construção naval da época. Seu formato mostra seus usos e apresenta sua tripulação. A própria narrativa do afundamento de uma embarcação é contada pelos seus restos.

É preciso saber sobre nossa responsabilidade na preservação do patrimônio histórico subaquático. A maior interação entre os estudiosos do assunto e mergulhadores viria fortalecer os esforços que buscam implementar políticas preservacionistas. Ou será que somente o que está em terra firme merece ser chamado de patrimônio cultural? Artefatos submersos têm igual valor e podem contribuir tanto quanto outros. Eles permitem a visualização de outras perspectivas do que conhecemos e podem trazer novos conhecimentos.
Devido à falta de conhecimento da população acerca de seus patrimônios histórico e arqueológico, há o abandono e deterioração dos mesmos. Dessa forma, eles são tratados como menos relevantes, ou até irrelevantes, recebendo menos atenção do que aqueles já reconhecidos como patrimônios culturais mais tradicionais.

Arqueologia Subaquática no Ceará?
O território cearense, dono de uma vasta faixa litorânea, é conhecido pela ocorrência de vários afundamentos de embarcações. Possibilidades se abrem para estudiosos do Ceará quando, os mesmos olham com maior sensibilidade para a Arqueologia Subaquática no Estado.

Em entrevista ao jornal Diário do Nordeste o Professor Marcelo Soares do Instituto de Ciências do Mar (Labomar) informa que existem 76 naufrágios catalogados no Ceará, mas diz também que ainda existem mais a serem descobertos. Essa defasagem, segundo ele, se dá pelo fato de não haver especialistas em mergulho arqueológico e nem mesmo um curso de Arqueologia no Estado. A situação dos naufrágios no Ceará é grave diante da omissão do poder público na questão.
Curso realizado em 2012

Uma das poucas iniciativas relacionadas ao tema foi um curso de extensão em Arqueologia Subaquática promovido pelo INSTITUTO DE CIÊNCIAS DO MAR – Labomar da UFC, junto a Universidade Federal do Piauí (UFPI) e a operadora de mergulho Mar do Ceará. Infelizmente, tal evento ocorrido em 2012 não se repetiu.

Ainda, segundo informações do jornal Diário do Nordeste, não existe intenção de se criar na Universidade Federal do Ceará (UFC) um curso de graduação ou pós-graduação em Arqueologia, muito menos da Secretaria do Turismo (SETUR) em investir nesse setor, pois não existe demanda. Enquanto há essa falta de interesse e responsabilidade, casos de depredação vão acontecendo pelo Ceará.

Cabeços de Amarração
do Navio da Ponte
Um dos exemplos do total descaso do poder público foi o soterramento de uma embarcação conhecida como Navio da Ponte, que ficava próximo a Ponte Metálica, antigo porto de Fortaleza, durante a construção de um quebra mar que faz parte de um projeto de revitalização histórica da Praia de Iracema.
O reconhecimento de acadêmicos do Estado pelo tema levaria a uma maior compreensão sobre tais estudos e sua importância no entendimento do passado. Além disso, os resultados obtidos por estudiosos do campo, mostrados fora dos espaços das universidades, daria a oportunidade à sociedade de conhecê-los. E, principalmente promoveria a sensibilização da daquela acerca da causa.

Políticas Públicas
Felizmente, em outros lugares do Brasil já se encontram mais avançados projetos de pesquisa promissores. Foi criado em 2002 na UNICAMP, Campinas, o CENTRO DE ESTUDOS DE ARQUEOLOGIA NÁUTICA E SUBAQUÁTICA (CEANS), que busca o levantamento, estudo, divulgação, conscientização, gestão, proteção e preservação do patrimônio cultural náutico e subaquático brasileiro e internacional. O Centro lançou o Livro Amarelo, uma cartilha sobre arqueologia subaquática, um informativo feito em defesa do Patrimônio Cultural Subaquático brasileiro.

São urgentes políticas públicas de proteção para impedir maiores danos e que sejam apropriadas para garantir a preservação do mesmo. Além disso, é preciso dar oportunidade a população cearense de conhecê-lo. Tais medidas junto à interação da comunidade trariam o reconhecimento e preservação de artefatos submergidos, criaria também uma ética do turismo consciente, visto que ele depende diretamente da preservação do espaço.

Grandes resultados podem ser obtidos se houver interesse real dos estudiosos da História local. Os estudos do patrimônio subaquático vão além dos benefícios ligados a Universidade. A atenção dada a esses naufrágios e a posterior divulgação dada aos resultados obtidos, aliada a ações educativas poderão formar bases para que a população seja também uma defensora desse acervo.

domingo, 28 de julho de 2013

Audiência Pública sobre o "Naufrágio dos Ossos" Encontrado por Pescadores em Icapuí

Icapuí, município no litoral leste do Estado, onde foi encontrado o naufrágio.

 Aconteceu na última sexta-feira, 26 de julho em Icapuí a primeira audiência pública para tratar do Patrimônio Histórico e Arqueológico do Ceará. O tema foi levantado devido a descobertas recentes no litoral de Icapuí. 

Josué Crispim
A região de Icapuí é riquíssima em registros históricos de nossos antepassados fato este comprovado por publicações recentes sobre o trabalho de Josué Crispim, arqueólogo amador nativo da localidade de Ponta Grossa em Icapuí. Há anos Josué coleta e acondiciona diversos artefatos arqueológicos encontrado por ele em sua região. Apesar do não uso de uma metodologia sistemática o trabalho desde pesquisador de pouco estudo preserva relíquias que provavelmente seriam perdidas em construções recentes de casas, estradas e resorts. A partir deste trabalho foi idealizado um projeto para a criação de uma museu em Ponta Grossa chamado "Casa de Cultura Pindú" que reverteria a historia em ganhos para a comunidade e subsídios para o turismo sustentável.

O trabalho desde pesquisador amador esteve mais uma vez em evidência quando em maio deste ano pescadores de Barra Grande, outra localidade de Icapuí, trouxeram para a superfície fragmentos de ossos e peças de um suposto naufrágio ocorrido na barra do rio que há muitos anos fora perdido dos registros históricos e orais. O grande interesse da mídia tornou público o achado e muito se falou a respeito nos meios de comunicação locais e estaduais. 

As autoridades de Icapuí organizaram uma audiência pública para discutir e apresentar à população os passo e providências a serem seguidos. O evento contou com a presença de representantes da Marinha do Brasil, da Universidade Federal do Ceará, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN, da Procuradoria da Geral República, da Colônia de Pesca local, bem como de empresários, mergulhadores e cidadãos interessados no assunto.

Membros da mesa, representantes das Instituições convidadas

A Marinha apresentou os passos a serem seguidos e assegurou a guarda dos itens já encontrados. O IPHAN fez uma breve explicação sobre o tipo de pesquisa que pode ser realizada no naufrágio. Os governantes locais na presença do prefeito e de vereadores asseguraram as devidas providências para que o resultado dos estudos sobre o naufrágio seja revertido em conhecimento para população através da exposição das conclusões a cerca do achado e das peças na Casa de Cultura Pindú, em Ponta Grossa!


Parabéns a Josué, Ricardo, Augusto, pescadores... A cultura ainda pode ter chance em nosso Estado!



quarta-feira, 22 de maio de 2013

Pescadores Localizam Possível Navio Negreiro no Ceará


Nas últimas semanas pescadores da praia de Icapuí no litoral leste do Estado localizaram um possível navio negreiro naufragado a 3km da costa em cerca de 3 metros de profundidade. Aparentemente muito material arqueológico foi retirado do fundo e recolhido pela Marinha do Brasil.

Eu e o amigo Augusto fizemos uma expedição para este naufrágio no ano passado, mas a visibilidade inviabilizou o mergulho e, apesar da frustração de não ter mergulhado e participado dessa descoberta, fico extremamente feliz que nossa história esteja sendo revelada por aqueles que são uma das maiores fontes de conhecimento sobre nossos mares: os pescadores!

Com certeza o Ceará tem avançado bastante em dois campos que são extremamente necessários para esse tipo de pesquisa: Arqueológica Subaquática e Mergulho Autônomo. Essas serão as ferramentas para que possamos saber mais sobre essa interessante descoberta da História Marítima Cearense.

Agora precisamos analisar as peças removidas e colher todos os dados possíveis com o material no ainda fundo. Um estudo detalhado do posicionamento das artefatos no fundo pode revelar muitos mais informações do que podemos imaginar. Também se faz necessário lembrar que essas peças devem ser corretamente acondicionadas pois no estado em que se encontram a corrosão agirá mais rápido uma vez que foram retiradas da água!  Só assim obteremos informações mais completas sobre o tamanho, carga, e principalmente: quem foram aqueles que andaram em seus conveses. 

Saiba Mais:

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

O Primeiro Croqui do Naufrágio dos Remédios/Cypress

O primeiro croqui do Naufrágio dos Remédios feito em outubro de 2009 após expedição realizada por Marcus Davis, Augusto César e Luciano Andrade. O Naufrágio dos Remédios foi posteriormente identificado pela equipe, originalmente chamado Cypress pertencia ao US Army, evidencia que ainda hoje pode ser encontrada em seu costado.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Abertas inscrições para curso de Arqueologia Subaquática

Estudante de arqueologia da Universidade do Chipre pesquisa naufrágio em Mazotos, no mar Mediterrâneo.  (Foto: Escritório de Imprensa, Ministério do Interior, Chipre)
O Instituto de Ciências do Mar - Labomar/UFC, em parceria com a Universidade Federal do Piauí (UFPI) e a operadora de mergulho Mar do Ceará, promove no período de 23 a 28 de abril curso de extensão em Arqueologia Subaquática. O curso será ministrado pelo Prof. Dr. Flávio Rizzi Calippo; um dos representantes da UNESCO no Brasil, referente à Proteção do Patrimônio Cultural Submerso. O curso será ministrado nos moldes da Convenção da UNESCO sobre a Proteção do Patrimônio Cultural Subaquático de 2001.

A Arqueologia Subaquática é uma subdisciplina da ciência arqueológica que estuda os sítios, os objetos, os vestígios humanos e as paisagens submersas. Deve ser situada no contexto mais abrangente da arqueologia marítima, que estuda a relação do homem com os oceanos, os lagos e os rios e é completada pela arqueologia náutica, que estuda a construção e a utilização dos navios (UNESCO).

O intuito do curso é o de fomentar o surgimento de novos grupos de pesquisa em Arqueologia Subaquática, coordenados por arqueólogos mergulhadores. Estes grupos poderão atuar em prol da proteção e da gestão sustentável dos recursos arqueológicos submersos.

As atividades teóricas do curso serão realizadas no auditório do Labomar. As atividades práticas serão realizadas em piscina e através de mergulhos em naufrágios no litoral do Ceará.

Estudantes dos cursos de graduação, pós-graduação, pesquisadores e demais interessados, favor clicar aqui para realizar download do folder com detalhes sobre o curso e inscrições, que serão realizadas até 18 de abril. 

Mais informações pelo e-mail petoceanografiaufc@gmail.com ou pelo telefone (85) 3366-7019       (Secretaria do curso de graduação em Oceanografia).

Atualizações sobre o curso serão postadas nos sites do LABOMAR (www.labomar.ufc.br) e do PET Oceanografia (www.petoceanografia.ufc.br/portal).

Organização: Prof. Dr. Marcelo Soares Oliveira e PET/UFC Oceanografia


Fonte: 
Prof. Dr. Marcelo Soares Oliveira (Labomar) 
Thaysa Portela (PET Oceanografia)
Instituto de Ciências do Mar

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Curso de Arqueologia Subaquática

Labomar, Mar do Ceará e UFPI apresentam: Curso de Arqueologia Subaquática ministrado pelo Dr. Flávio Calippo. 

Curso de Arqueologia Subaquática
                                                                                                                                     
Período: 23 a 28 de abril de 2012
Módulo Básico – Carga horária: 24h – Mergulhadores e não–mergulhadores
Módulo Avançado – Carga horária: 16h – Mergulhadores


Programação: 23 de abril – 18h às 22h – Teórico
                         24 e 25 de abril – 14h às 18h e 18h às 22 h  – Teórico
                         26 de abril – 14h às 18h – Aula na praia – Teórico-Prático
                                              16h às 22h – Aula na piscina do Naútico Atlético Cearense
                         27 de abril – 08h às 12h e 14 às 18 h – Mergulho no Naufrágio Macau
                         28 de abril – 08h às 12h – Naufrágio do Titãzinho (Fortaleza)                                                                          


Taxa de material: Módulo Básico: R$ 30,00 (não–mergulhadores)
                              Módulo Avançado: R$ 220,00 (apenas para mergulhadores certificados)          


Formas de Pagamento:  50% na inscrição – 50% no início do curso


Locais de Inscrição: LABOMAR – Av. da Abolição, 3207 – sala do PET Oceanografia
                                   Mar do Ceará – Av. João Pessoa, 5834
                                   04 à 18 de Abril de 2012


Maiores informações:
www.petoceanografia.ufc.br
www.mardoceara.com.br
www.labomar.ufc.br

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Seminário de Arqueologia Subaquática - Algumas Considerações


Há cerca de três anos um grupo de diversos profissionais voluntários, vem trabalhando na produção de um livro sobre a arqueologia da praia da Ponta Grossa, no litoral sul do Estado do Ceará.

Ao longo de sua vida o pescador de nome Josué Crispim, veio coletando pedras, conchas, porcelanas, moedas, pedaços de faianças, etc... Encontrados nas dunas e falésias da praia, são centenas de fragmentos do tempo ali, que devido à exposição ao vento, ao sol e a chuva, estavam em um processo rápido de degradação.

A função do livro é de motivar e justificar a criação de um museu na comunidade de Ponta Grossa, e a partir daí, possibilitar à população local o acesso ao conhecimento arqueológico de sua terra e à sua história. Ao mesmo tempo ser uma referência para pesquisadores e turistas curiosos, que queiram conhecer esta parte do litoral, procurando então ser um polo gerador de cultura.

Muito embora como mergulhador meu conhecimento sobre o tema do seminário seja bastante modesto, pude observar a divisão de opiniões entre duas teses; da Academia de viés conservacionista, e a dos Caçadores de Tesouros, penso, de caráter exploratório.

O exemplo de como se formou o acervo do futuro museu da Ponta Grossa, me faz indagar se seria possível fazer um museu de acervos arqueológicos subaquáticos. Seria mais lógico permanecer com tudo submerso, pois assim se teria um prazo de vida bem mais longo do acervo. Ou se se poderia retirar e doar para museus, pois embora com um tempo de vida menor, seria vista por muitos, incentivando o desenvolvimento da arqueologia subaquática no nosso país, e quem sabe estimulasse a pesquisa em conservação de peças e naufrágios.

Os museus são fundamentais para história de um povo, pois guardam a sua memória. Devemos então como cidadãos encontrar um caminho para nova Lei sobre o Patrimônio Arqueológico Subaquático brasileiro, que nos permita contar nossa história.



Augusto Cesar Bastos Barbosa.
Advanced, Nitrox e Wreck Diver PADI

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Desenterrando o Naufrágio das Espoletas em Ponta Grossa - Icapuí, CE

Ponta Grossa, Icapuí, CE

Na costa leste do Estado do Ceará próximo a fronteira com o Rio Grande do Norte existe uma pequena vila de pescadores chamada Ponta Grossa. Esta localidade possui apenas cerca de 400 habitantes mas está cheia de mistérios e curiosidades.
Ponta Grossa é um pequeno paraíso cercado por mar e por falésias. Fontes de água mineral brotam na beira da praia, algumas são cobertas durante a maré cheia e procuradas por peixes-boi, para beber a água doce. Pequenos lagos servem como berçário para algumas espécies de peixes. As falésias compõem a paisagem predominante assim como as dunas de areia branca. Uma dessas dunas pode ser avistada a mais de 40 quilometros mar adentro.
Ponta Grossa, Icapuí, CE
Sustentados pela pesca da lagosta e, mais recentemente, pelo turismo, os moradores são cordiais e zelam pelo lugar. São todos descendentes de uma mesma família, os “Crispim”, o que torna todos parentes em algum grau. Logo que se chega ao lugar observamos os cabelos loiros e olhos claros em alguns moradores, influencia da colonização estrangeira que, segundo eles, seria holandesa. Além dessas particularidades Ponta Grossa se tornou conhecida por estudos recentes que a apontam como o local onde o espanhol Vicente Pinzón aportou dois meses antes de Cabral chegar ao Novo Mundo contradizendo a história oficial.
Foi nesse paraíso que Seu Jonas, um simpático senhor de olhos verdes e cabeça branca me contou sobre um naufrágio que teria ocorrido antes do seu nascimento, mas que ouvira a historia de seu pai diversas vezes. Seu Jonas me contou o seguinte:

“Na época do meu pai, encalhou aqui um navio que trazia munição para armas antigas. Mais precisamente espoletas para mostequetes. Esse navio vinha ‘fazendo água’ e encalhou próximo aos ‘Pilãos’. Os tripulantes que falavam uma língua estrangeira, retiraram a carga do navio – as espoletas – e a colocaram nas dunas em frente ao local do encalhe. Meu pai foi ao encontro desses náufragos que o presentearam com uma capa de chuva – ou um casaco [pode ter trocado por pescado com os náufragos]. Quando papai voltou pra casa com o presente, a polícia vinha chegando e o levou preso, acusando-o de ter roubado a capa! Resolvido o mal entendido, soltaram meu pai. Quando eu era criança eu ainda avistava os restos do navio, até que um dia o mar desmanchou tudo.”

No início a história de Seu Jonas me pareceu apenas uma história. Mas meses depois conheci Josué, um arqueólogo amador nativo de Ponta Grossa que desenvolve um trabalho independente e possui um verdadeiro museu em sua casa. No acervo estão moedas, inclusive uma de ouro, garrafas, um relógio russo comemorativo da segunda guerra mundial, artefatos indígenas e muito mais.
Sítio das Espoletas
Josué confirmou o relato de Seu Jonas e me mostrou diversos artefatos provenientes do sítio das espoletas, entre os artefatos estavam cacos de porcelana de diferentes épocas e origens, talheres, moedas, dobradiças, pregos, botões de roupa, pedaços de garrafas e as espoletas. Quando me levou ao local quase não acreditei. A medida que caminhávamos sobre a duna, pequenas peçinhas de metal esverdeado – espoletas – surgiam no chão assim como cacos de porcelana e farelos de ferrugem.
Josué me contou também que próximo ao local onde foi armazenada a carga do navio houveram habitações posteriores ao encalhe durante um breve período, o que provavelmente contaminou o local com objetos de diferentes épocas e dificultaria qualquer tentativa de identificação deste naufrágio.
Espoletas, munições antigas
Mesmo com essas dificuldades decidi estudar alguns dos objetos encontrados por Josué. Possivelmente muitas dessas peças não pertencem ao naufrágio mas indicam algumas peculiaridades. Um exemplo é que encontrei cacos de porcelana inglesa, holandesa, francesa, e potuguesa, países muito distantes de uma duna perdida em uma praia deserta no nordeste do Brasil.
De acordo com o relato de Seu Jonas seu pai era jovem quando aconteceu o episódio e ele mesmo nem era nascido, ele afirma que quando era criança restavam apenas algumas poucas partes do navio. Podemos sugerir então que o naufrágio pode ter ocorrido entre 1860 e 1910. Os artefatos encontrados por Josué situam o naufrágio entre 1830 e 1961. Fazendo uma interseção obtemos 1860 a 1910.
As espoletas são de origem inglesa assim como diversos objetos encontrados no sítio. Outros, como o botão e a colher, aparentemente são originários de uma colônia inglesa, a Austrália.
Objetos encontrados no sítio
por Josué
As partes de uma porta, como as dobradiças de aço e as peças da maçaneta e fechadura não se adequam ao estilo de moradia da região – principalmente da época em que a região foi habitada – casa simples, de taipa e pau a pique. Como foram encontrados somente as partes de metal, sem resquícios da madeira podemos sugerir que esta porta foi queimada. Queimada pelos náufragos? Eles necessitam de fogo.
Pesquisando os naufrágios ocorridos no período registrados pela Marinha Brasileira encontrei as seguintes possibilidades:

·         Express – Brigue – Suécia – Saindo de Aracatí e sendo rebocado, bateu em um banco – 1873
·         Hadlys – S/I – S/I – 1873 – Aracatí
·         Maria Luiza – Brigue – Itália – 1873 – Aracatí
·         Paraense – vapor – Brasil – Encalhe – 1867 – Recifes conhecidos como Banco do Meio.

Expedição "Maio"
Desses, podemos eliminar o Paraense, visto que procuramos uma embarcação estrangeira. Visto que não foi observado nenhum objeto de origem sueca entre os artefatos encontrados, também podemos eliminar o Express. O Hadlys foi abaldroado por um brigue italiano, provavelmente o brigue Maria Luiza.
Após intensa pesquisa histórica era necessário localizarmos e identificarmos a presença de destroços, caso contrário não teríamos um naufrágio. Colhemos informações com os pescadores e delimitamos uma área de busca próxima a linha da praia. A profundidade máxima esperada eram 5 metros e a visibilidade 0m devido a proximidade com a praia, não mais que 30 metros da linha de arrebentação das ondas.
Marcação de um dos pontos
Organizamos uma pequena expedição que batizamos de "Maio" e partimos no início de junho de 2009 para o local. Embarcamos o material logo cedo e navegamos para o local. Marcamos 4 pontos no GPS formando um quadrado e distantes 100m ou do outro. Planejávamos fazer quatro mergulhos e aplicar o método de busca circular com raio de 50m utilizando como centro os pontos marcados no GPS, assim cobriríamos uma área de 100m x 100m.
Uma das concreções
localizadas.
          Partimos as 6:30 da manhã em uma jangada a motor e logo chegamos ao primeiro ponto marcado. Após um rápido mergulho de reconhecimento constatei uma profundidade de 3m e visibilidade 0m. Equipamos-nos e iniciamos a busca utilizando o padrão circular com o auxilio de uma carretilha. Próximo ao fim do primeiro mergulho a carretilha laçou algo! Logo no primeiro mergulho! Uma ponta de ferro completamente coberta por concreções emergia do fundo arenoso. E logo encontramos outra, e outra e outra. Várias pontas de ferro emergiam da areia evidênciando que algo se escondia ali. Pelas várias camadas de concreção que recobriam as “pontas” metálicas podemos sugerir que tinhamos um naufrágio a muito tempo enterrado ali. Fizemos algumas medições e marcamos os pontos exatos. Alguns pontos identificados ficava a mais de 15m dos outros seguindo um padrão linear, sendo a distancia máxima de 17m. Agora tinhamos a certeza de estar estudando um naufrágio.

Josué Crispim e Marcus Davis.

RELAÇÃO DE ARTEFATOS ENCONTRADOS POR JOSUÉ

·         As Espoletas. As 4 pás indicam que são de fabricação inglesa destinadas para uso militar mas também utilizadas por civis. Seu uso se deu entre 1830 e 1870 e por diversos exércitos de vários países.
           
·         Pedaço de Metal com as seguintes letras legíveis: “...WILL...” “PATENT 22...” “...L...”. Pesquisando registros de patente norte-americanos relacionados a armas de fogo encontrei dois interessantes. O primeiro, 1855 – N° 2229. – HOWELL, JOSEPH BENNETT. — " Improvements in the manufacture of steel castings for ordnance, and other purposes." E o segundo, 1855 – N° 2239. – ROGERS, WILLIAM. — " Improvements in fire-arms." Several charges may be fired from the same barrel by employing as many locks and nipples as there are charges.

·         Porcelana Choisyle-Roi. Fina porcelana francesa fabricada entre 1860 e 1910.

·         Pedaço de porcelana com a inscriação “Ironstone China”. Originária da fábrica J&K Meakin, lacalizada em Hanley, Inglaterra. Este emblema foi utilizado durante a década de 1890, nesta época sua produção foi largamente exportada para a América do Norte e Sul.

·         Fundo de uma garrafa de porcelana escrito: “Price, Bristol”. Da marca Powell and Price's Stoneware, fábrica originária de Bristol, Inglaterra e funcionou de 1796 a 1961.

·         Fundo de garrafa com a inscrição: “Imperial Quart”. Trata-se de uma garrafa de cerveja da marca Powell and Rickets, fabricada entre 1800 e 1900 e originária de Bristol, Inglaterra.

·         Colher de metal com a inscrição “Jonn Moreton”. Pesquisando na web, encontrei informações sobre John Moreton (com H no lugar do N), que produziu peças e porcelana entre 1832 e 1847 em Sydnei, Australia.

·         Botão de roupa com as seguintes inscrições: “Light Foot”, “Melbourne”.
·         Colheres de metal diversas.
·         Pesadas dobradiças de ferro, peças de uma maçaneta e fechadura, estrutura do ferrolho. Provenientes de uma porta.
·         Cravos de ferro e pregos quadrados.
·         Selos de chumbo Portugueses.
·         Moedas falsificadas do Império Português.


Texto
Marcus Davis

Fotos
Thiago Magalhães
Marcus Davis

sábado, 16 de julho de 2011

Arqueólogos localizam submarino alemão U-513 na costa de Santa Catarina


A família Schurmann, que vive embarcada há 20 anos em aventuras pelos mares do mundo, anunciou ter encontrado os destroços de um submarino nazista que foi abatido pelas forças aliadas no litoral de Santa Catarina durante a 2ª Guerra Mundial.

Os restos do submarino alemão U513, afundado por um avião americano em águas territoriais brasileiras durante a Segunda Guerra Mundial, foram encontrados a 75 m de profundidade próximo ao litoral catarinense, informaram nesta sexta-feira cientistas.

O submarino nazista, que chegou a afundar um navio mercante brasileiro, foi encontrado em um local do Oceano Atlântico próximo às praias de São Francisco do Sul (SC). "Por enquanto, só podemos confirmar que o submarino foi encontrado na quinta-feira à noite. Foi o que nos informou por sinal via satélite do alto-mar Vilfredo Schurmann, que comanda a operação", disse o oceanógrafo Rafael Medeiros, pesquisador da Universidade do Vale do Itajaí (Univali).

terça-feira, 28 de junho de 2011

Naufrágio de 1583 é Localizado e Estudado por Arqueologistas em Santa Catarina

Mergulhadores do Projeto Barra Sul retiraram uma pedra com cerca de 800 quilos que estava há mais de 400 anos no fundo do mar da costa Sul da Ilha de Santa Catarina. Nas dimensões de 98 cm de altura por 76 cm de largura, a peça apresenta o desenho de dois leões e dois castelos em alto relevo e, no meio, um símbolo português, o que remete ao período da União Ibérica e ao reino de Leon e Castilla, entre os anos de 1580 a 1640. Pesquisas históricas indicam que a peça, possivelmente, estava na nau provedora de uma frota de 23 navios que saiu da Espanha em 1583 com a missão de construir duas fortalezas no Estreito de Magalhães, em terras chilenas, para conter o avanço de piratas ingleses que ameaçavam os domínios da coroa espanhola no novo continente.

Caso essa hipótese se confirme, trata-se do naufrágio mais antigo já localizado em águas brasileiras. Talvez, o mais antigo de toda a América. Uma outra pedra, na forma triangular, com inscrições em latim, e duas bolas ornamentais, não puderam ser retiradas ontem, quinta-feira (23), pois o peso de 800 quilos da peça retirada danificou o guindaste. A operação de resgate foi acompanhada pelo ministro interino da Cultura, Vitor Ortiz; pelo capitão-tenente Ricardo Guimarães, da Diretoria de Patrimônio Histórico Documentação da Marinha e por Dalmo Vieira, diretor do IPHAN/Brasília.

O presidente da Fapesc Sérgio Gargioni, financiadora do projeto, também estava presente, assim como arqueólogos da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul), pois a peça será encaminhada ao laboratório de Arqueologia da instituição para trabalhos de recuperação, e por equipes da Uniasselvi e Set Produções, responsáveis por pesquisas históricas e documentário.

Esses objetos serão retirados do fundo do mar do acesso sul da Ilha de Santa Catarina até agosto, assim como um canhão de bronze com mais de três metros de comprimento, com data de fundição e outras inscrições, além de objetos menores, como fragmentos de cerâmica, pedaços de madeira, pedras de lastro que eram utilizadas para as embarcações não balançarem e projéteis de vários calibres.

O Projeto Barra Sul faz pesquisas no acesso marítimo sul da Ilha de Santa Catarina desde 2005, região considerada um verdadeiro cemitério de navios, pois fazia parte da rota das navegações – era o último porto de abastecimento antes do Rio da Prata.

De acordo com documentos históricos, o local, na época denominado Porto dos Patos, abriga, nas profundezas de suas águas , no mínimo oito naufrágios. “Quando eles adentravam a baía Sul para se abastecerem de provisões, eram surpreendidos com a geografia acidentada do leito marinho, com bancos de areia móveis, e muitas vezes pegavam até mesmo um inesperado vento Sul. Era um ponto crítico, muitas não conseguiam entrar no estreito canal de acesso sul da Ilha de Santa Catarina, e naufragavam”, relata Gabriel Corrêa, diretor do Projeto Barra Sul.

Assista a notícia no Jornal Nacional!

terça-feira, 13 de julho de 2010

Vasa - Intacto após 333 anos no fundo do mar

(Museu do Vasa, Estocolmo, Suécia.)

Por Augusto Cesar

Vasamuseet é o local onde se encontra o navio mais caro e adornado da marinha de guerra sueca, o Vasa foi perdido no mar báltico em 1628, em sua primeira viagem. 

Era um dia de domingo quando o navio partiu, de repente adernou e afundou, permanecendo em pé próximo ao local que estava ancorado até ser encontrado em 1956 e retirado do fundo mar em 1959, 333 anos depois. Era uma embarcação de medidas grandiosas feito para dominar os mares, tinha 64 canhões, mastros de 50 metros de altura, comprimento de 69 metros e largura de 47,5, superfície de vela de 1275 m2, tripulação de 145 homens e 300 soldados, centenas de esculturas douradas e pintadas, que devido às condições de temperatura do mar Báltico, puderam ser recuperadas em 95% de sua construção original, com 13.500 de madeira de diversos tamanhos, 500 esculturas de figuras, 200 ornamentos e 12.000 objetos de menor tamanho de madeira, têxteis, couro e metais. Esse estado de conservação foi devido ao frio, que impede a existência do molusco bivalve (teredo navalis) que come a madeira, por isso os barcos afundados nesta região podem permanecer por séculos intactos.


Durante a segunda década do século XVII a Suécia perdeu 15 navios de guerra, sendo que somente 2 deles em combate, o resto devido as suas limitadas características de navegação. O que posteriormente se comprovou como a causa do naufrágio, pois devido ao pouco conhecimento sobre engenharia naval, o navio foi construído com falhas de projeto e com pouca estabilidade foi adernado pelo vento e foi ao fundo.

O museu se localiza no coração de Estocolmo capital de Suécia, com um pé direito enorme para comportar a embarcação restaurada em seu tamanho original, por onde já passaram mais de 20 milhões de visitantes há um custo médio de 12,50 euros. Pode se imaginar o retorno financeiro e culturaldesse equipamento para a cidade.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Cargueiro Naufragado em 1957 é Encontrado no Porto de Santos-SP

(Área aproximada do naufrágio, Porto de Santos, SP)

Os restos de um navio cargueiro foram encontrados durante inspeções no Porto de Santos, SP. As inspeções  tem como objetivo a localização de sítios arqueológicos subaquáticos e fazem parte de um conjunto de programas ambientais necessários para dar início a dragagem do fundo marinho. Após as obras a profundidade média do porto deve passar de 13 para 15 metros. 

O achado se deu na semana passada mas só ontem foram realizados mergulhos para detalhar o sítio. Além de mergulhadores foram utilizados nas inspeções robôs equipados com câmeras operados remotamente da superfície. O naufrágio está a 25m de profundidade no Canal do Estuário, entre os píeres da Marinha e da Praticagem, na Ponta da Praia. Especialistas acreditam tratar-se do cargueiro "Vernia" que fora fabricado em estaleiro sueco e pertencia a uma companhia gaúcha de cabotagem. Fazia a linha Santos, Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre e naufragou em apenas 10 minutos após chocar-se com o cargueiro norueguês Peter Jebsen no fim da tarde do dia 22 de outubro de 1957. O acidente se deu devido a má visibilidade e a manobras imprudentes do seu comandante que viria a falecer horas depois do sinistro.

Como o projeto prevê uma dragagem mais rasa do que a área onde encontra-se o naufrágio, as dragas deverão operar a uma distancia mínima de 150m do sítio.



Fontes:
Jornal Eletrônico Novo Milênio
Jornal A Tribuna 
Porto de Santos

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O Ceará e a II Guerra Mundial: O Afundamento do "SS Eugene V R Thayer" e o "Petroleiro do Acaraú" - Mais um navio identificado no Ceará?


Durante os primeiros anos da II Guerra Mundial os submarinos de Hitler aterrorizaram os mares. Essas embarcações deixavam os portos na Europa e singravam os mares à caça de navios militares ou mercantes para afundá-los e assim, minar o esforço de guerra Aliado.
            Mas não foram apenas submarinos alemães que patrulharam os mares durante o conflito. As três principais potências que integravam o “Eixo do Mal” – Alemanha, Itália e Japão – possuíam essas armas e as utilizaram durante a guerra. Destes apenas os Alemães e os Italianos tiveram participações significativas na Batalha do Atlântico Sul.

R.SMG. PIETRO CALVI
O submarino italiano R.SMG. Pietro Calvi – Regia Marina Italiana Sommergíbílí Pietro Calvi – é um nobre desconhecido. Em 1942, com dois anos de serviço já era um veterano de guerra. Entre outras missões, no ano anterior este mesmo submarino participou do resgate dos tripulantes do “Atlantis”, um navio corsário alemão que disfarçado de cargueiro aprisionou e afundou dezenas de navios.
No ínicio de março de 1942 deixou o porto de Le Verdon, na França para sua terceira patrulha. Seu destino era “Cabo Orange”, no Atlântico Sul e, no dia 25 de março, dezoito dias após sua partida, disparou torpedos contra o cargueiro britânico SS Tredinnick, não houve sobreviventes. Quatro dias depois, a tripulação comunicou o torpedeamento de um cargueiro da classe “Huntington”, entretanto o afundamento não foi confirmado pois todos os navios dessa classe já haviam sido afundados no início da guerra.
Eufórica com as vitórias, a tripulação interceptou e torpedeou mais um cargueiro, o T. C. McCob de 7,452 toneladas. Após cinco torpedos e disparos de canhão de 120mm, foi afundado o primeiro navio mercante norte-americano por um submarino italiano.
Após o combate os italianos seguiram rumo sul e alguns dias depois, ao largo da costa cearense, avistaram o navio tanque SS Eugene V. R. Thayer sob comando do Capitão B. S. Svendson, também de bandeira norte-americana, assim como sua vítima anterior.

(Submarino italiano R.SMG. Pietro Calvi e o alemão U-68. Provavelmente durante o transporte dos sobreviventes do corsário alemão Atlantis.) 


SS EUGENE V. R. THAYER
                O Steam Ship Eugene V. R. Thayer fora encomendado pela “US Shipping Board” em 1920 ao estaleiro Bethlehem Steel Co. localizado em WilmingtonDelaware, EUA. Possuía 7,138 toneladas brutas em 430 pés – cerca de 129m – de comprimento por 59 pés – 17,8m – de boca. Seus motores triple expansion lhe permitiam uma velocidade de 11 nós.
              Seu porto de origem era Nova Iorque, de onde pertencia sua tripulação. Estava em rota de Buenos Aires para Caripito, na Venezuela quando foi interceptado pelo submarino Pietro Calvi.


(Imagem disponível associada ao navio tanque SS Eugene V. R. Thayer.) 


O ATAQUE
O ataque aconteceu durante a noite na posição 02° 35’S, 39° 58’W. As 20:35 do dia 9 de abril, a tripulação do Pietro Calvi, sob comando do Capitão de Corveta Emilio Olivieri, lançou um torpedo e efetuou disparos de 120mm contra o petroleiro que navegava desarmado. O navio explodiu em chamas, mas não afundou de imediato. Passaria ainda dois dias queimando à deriva antes de tocar o leito do oceano. As coordenadas geográficas do local do naufrágio registradas na época são 02°36’S, 39°43’W.
Dos trinta e sete tripulantes do petroleiro, onze morreram no ataque. O restante se dividiu em dois pequenos barcos de emergência, treze foram resgatados no dia 11 de abril por um avião catalina, no mesmo dia em que veio a afundar de fato o navio tanque, e outros treze foram resgatados dois dias depois. Os sobreviventes só retornariam aos Estados Unidos no dia 21 de abril, quando chegaram ao aeroporto de Miami as 22:26, horário local.
Depois desta batalha o submarino continuou seguindo para o sul onde afundou dois outros mercantes ambos ao largo do Rio Grande do Norte. Retornou triunfante a Le Verdon em 29 de abril.
A saga deste lobo dos mares terminaria poucos meses depois, na sua quarta e ultima missão. Foi afundado no dia 14 de julho de 1942 nas Antilhas sob o comando do Capitão de Fragata Primo Longobardo.

O PETROLEIRO DO ACARAÚ
             Na região de Itarema, litoral norte do Ceará, existe um navio naufragado a 40km da costa. Segundo pescadores e autores locais trata-se de um navio petroleiro que foi afundado durante a Segunda Guerra Mundial. O naufrágio foi batizado de Petroleiro do Acaraú, por ser este o principal porto da região.
                O caçador submarino Luciano Moreira conta em seu livro que mergulhou várias vezes neste naufrágio. Em uma dessas investidas coletou diversos cacos de porcelana com a seguinte inscrição: “Iroquois – USA – China”.
Por se tratar de um petroleiro é improvável que o navio estivesse carregando uma carga de porcelanas de Nova Iorque, muito menos na rota em que estava.
                Após uma breve pesquisa na web encontrei referências sobre uma empresa que fabricou porcelanas entre 1905 e 1969, chamada Iroquois sediada em Syracuse, no estado de Nova Yorque, EUA. A palavra china significa louça ou porcelana na língua inglesa.
                Fazendo uma triangulação das diferentes coordenadas geográficas disponíveis em bibliografias relacionadas e na web, observamos que a localização conhecida do Petroleiro do Acaraú está no centro.



(Triangulação com as coordenadas geográficas disponíveis referentes ao ataque e afundamento do SS Eugene V. R. Thayer / Petroleiro do Acaraú)

CONCLUSÃO
                De acordo com dados disponíveis podemos supor que o Petroleiro do Acaraú e o SS Eugene V. R. Thayer navegaram na mesma região durante a Grande Guerra. Considerando os métodos rudimentares de estimar a posição geográfica na época, os erros de transcrição que são comuns quando referentes a coordenadas geográficas e o fato de nenhuma referencia geográfica estar a mais de 40km da localização conhecida do naufrágio – outras estão a menos de 10km – é um reforço para situarmos ambos os navios no mesmo lugar e no mesmo espaço de tempo.
                O artefato retirado do local é um indício de que tratar-se de um navio norte-americano, ou seja, da mesma nacionalidade do SS Eugene Thayer.
                Esses dois argumentos são tentadores o bastante para afirmarmos que o naufrágio de Acaraú é o navio tanque norte-americano SS Eugene V. R. Thayer. Entretanto, para termos absoluta certeza é necessária uma expedição para analises aprofundadas no local.  Só após feitas medições de comprimento e boca, após determinarmos o tipo de propulsão e analisarmos a estrutura do naufrágio poderemos comparar com as informações disponíveis do navio tanque norte-americano. 

CRONOLOGIA

7 de março de 1942 - Submarino Italiano Pietro Calvi saiu do porto de "Le Verdon" com destino ao "Cape Orange". Era sua 3a missão.
25 de março - Afundou o cargueiro britânico Tredinnick de 4,589 t. Não houve sobreviventes.
29 de março - Pietro Calvi interceptou e afundou um navio a vapor tipo "Huntington" que foi atacado com torpedos e visto afundar. No entanto o afundamento não foi confirmado. Todos os navios desse tipo haviam sido afundados nos anos anteriores.
31 de março - Interceptou e afundou o cargueiro norte-americano T. C. McCob de 7,452t. Foram disparados 5 torpedos e tiros de 120mm. Foi o primeiro cargueiro americano afundado por um submarino Italiano.
9 de abril – As 20:35 o submarino italiano intercepta o navio tanque Eugene Thayer que navegava desarmado. É iniciado o ataque. A tripulação abandona o navio em chamas na posição 02° 35’S, 39° 58’W. O petroleiro foi torpedeado e metralhado com canhões de 120mm.
11 de abril - Após dois dias queimando a deriva o petroleiro afundou na posição 02°36’S, 39°43’W. Foi o primeiro navio norte-americano afundado por um submarino italiano no Atlântico Sul. No mesmo dia um grupo de 13 membros é resgatado por um avião anfíbio.
13 de abril - Um segundo grupo de sobreviventes é resgatado.
21 de abril - Os sobreviventes do Eugene Thayer chegam a Maimi as 22:26.
29 de abril - O Pietro Calvi chegou ao porto de Le Verdon após afundar dois outros cargueiros ao largo da costa brasileira.
14 de julho de 1942 - O submarino italiano Peitro Calvi é afundado nas Antilhas.


ALGUNS MARINHEIROS QUE PERECERAM NO ATAQUE

NOME
POSTO
ORIGEM
John Edward Morrissey
-
-
Manuel Carneiro Rey
Pumpman
Brookyn, NY, EUA
Frank Vern Roberts
O.S.
San Francisco, CA, EUA
Albert Heis
Pumpman
Brookyn, NY, EUA
Alejandro Mendoza Magno
Messman
San Jose, Filipinas





Pesquisa e Texto:
Marcus Davis Andrade Braga (marcusdab@gmail.com)


Fontes:
GASTALDONE, Ivo; Memórias de Um Piloto de Patrulha.
MOREIRA, Luciano; As Aventuras de um Pescador Sub, Ed. ABC, 2002.
Regia Marina Italiana (fotos do Submarino Pietro Calvi)
Google Earth (mapas)