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quinta-feira, 9 de julho de 2015

Pesquisa de Doutorado sobre Mergulho Recreativo no Ceará: Participe!



Sou mergulhadora e faço doutorado em Ciências Marinhas Tropicais no LABOMAR -UFC cujo tema busca caracterizar a situação atual do Mergulho Recreativo em Fortaleza. 

O mergulho recreativo é uma atividade que tem cada dia mais praticantes no Brasil. Além de ser uma atividade de lazer e contemplação também pode ser uma ferramenta para o desenvolvimento socioeconômico sustentável e a educação ambiental.

Se você já mergulhou no Ceará e puder responder ao questionário (leva apenas 3 minutos) estará me ajudando a aprimorar meu trabalho de pesquisa e a apresentar sugestões para o desenvolvimento da atividade em Fortaleza. 
Muito obrigada por sua participação!

Link do questionário:
http://goo.gl/forms/G27r8sPIm6
(O questionário estará disponível até o fim de julho e as respostas são confidenciais e nem mesmo o pesquisador tem acesso a identidade dos participantes).

Ana Flavia Pantalena
Mestre e doutoranda em Ciências Marinhas Tropicais pelo Labomar -UFC.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Ipupiara: A Lenda Indígena do "Homem Marinho"

Baltasar Ferreira mata o Ipupiara em História da Província de Sãcta Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil, do cronista Pero de Magalhães Gândavo. (Fonte: Fantastipedia)

O homem sempre teve uma relação conflituosa com o mar: a mesma entidade que abençoava com o pescado poderia, sorrateiramente, tirar a vida de quem dela vive. Aqueles que vivem do mar criam uma relação muito intima com o fruto do seu sustento. O mar não é só aquele que abençoa, ele é lindo, vivo e um pouco temperamental. Sente-se as vezes uma perigosa confiança sobre ele, e é neste momento que pode-se baixar a guarda e cair nos braços do Ipupiara. 

Uma das lendas indígenas mais antigas diz respeito aos Ipupiaras ou "homens marinhos". Talvez a lenda fosse uma maneira encontrada para explicar o desaparecimento de pescadores e coletores na antiguidade. Ainda hoje admira-se quando um excelente nadador termina por afogar-se em alguma situação difícil e ditados populares como "Joelho, respeito. Umbigo, perigo." guiam nossas crianças contra os perigos das águas.

No passado não era diferente. Talvez uma das poucas lendas indígenas genuinamente brasileiras que diz respeito ao mar e as águas é a lenda o Ipupiara. Iara e Iemanjá são, possivelmente, derivações ou miscigenações de mitos da cultura negra e européia.

Segundo a lenda, os Ipupiaras eram monstros marinhos humanoides que podiam até sair da água para atacar aqueles que por perto estavam. Agarravam-os e os levavam para o fundo onde morriam afogados. Leia o trecho do Tratado Descritivo do Brasil por Gabriel Soares de Sousa em 1857:

"[...] não há dúvida senão que se encontram na Bahia e nos recôncavos dela, muitos homens marinhos, a que os índios chamam pela sua língua Ipupiara, os quais andam pelos rios d'água doce pelo tempo de verão, onde fazem muito dano aos índios pescadores e mariscadores que andam em jangadas, onde os tomam, e aos que andam pela borda d'água, metidos nela; a uns e outros apanham, e metem-nos debaixo d'água, onde os afogam; os quais saem a terra com maré vazia, afogados e mordidos na boca, nariz e na sua natura; e dizem outros índios pescadores que viram tomar a estes mortos, que viram sobre a água uma cabeça de homem lançar um braço fora dela e levar o morto; e os quais viram se recolheram fugindo à terra assombrados, do que ficaram tão atemorizados que não quiseram tornar a pescar daí a muitos dias; o que aconteceu também a alguns negros da Guiné; os quais fantasmas ou homens marinhos mataram por vezes cinco índios meus; e já aconteceu tomar um monstro destes dois índios pescadores de uma jangada e levarem um, e salvar-se outro tão assombrado que esteve para morrer; e alguns morrem disto (SOUSA, 1974)"
(retirado do livro Mar À Vista - Estudo da Maritimidade de Fortaleza de Eustógio Wanderley Correia Dantas, Editora Museu do Ceará)

Talvez a lenda do homem marinho fora criada para explicar por que excelentes nadadores podem inexplicavelmente desaparecerem nos rios e mares. O relato de Sousa poderia explicar também por que grupos de pessoas as vezes desaparecem de uma vez e o assombro daqueles que se salvam e a dificuldade que encontram em enfrentar seus medos.


Veja também
Ipupiara - Fantastipedia



Fontes
Folclore Brasileiro
Contos e Lendas: Iara
Mitologia - Brésil
Mar À Vista - Estudo da Maritimidade de Fortaleza de Eustógio Wanderley Correia Dantas, Editora Museu do Ceará

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Expedição Navio do Pecém

Mergulhadores no canhão defensivo do Baron Dechmont.

Temporada de mergulho animada nos mares cearenses. Visitamos vários pontos de mergulho ao longo do nosso litoral (e fora dele). Em maio realizamos uma expedição ao Baron Dechmont, o famoso Navio do Pecém, um navio inglês que foi torpedeado durante a II Guerra Mundial por um submarino alemão e que se transformou nuns dos melhores naufrágios para mergulhar no Ceará.
Tubarão lixa e esponja.

Poucos são aqueles que visitaram e visitarão o naufrágio, esta foi a nossa terceira expedição (2011, 2012 e 2015). Isto pela sua distância da costa e profundidade. O local está a 30km da Praia do Pecém e a 54km de Fortaleza e exige mergulhadores bem preparados para enfrentar a navegação e a profundidade.

Apesar de ser mais distante de Fortaleza escolhemos esta cidade como ponto de partida. No mar a menor distância entre dois pontos nem sempre é uma reta, ou a menor reta. Saindo do Mucuripe teríamos o mar e o vento a nosso favor nos ajudando a alcançar o naufrágio. Partimos as 5:30 da manhã. Um pouco de chuva para incomodar os ânimos, mas nada que que atrapalhasse a energia e a vontade de mergulhar no Navio do Pecém. Navegamos durante quatro horas e meia e por incrível que pareça ninguém enjoou (quatro horas de mar e ninguém enjoar é fantástico nos mares cearenses). 
Cardume de Pampos

Chegamos sobre o ponto com sol forte e vento fraco e logo que entramos na água tivemos uma excelente surpresa: 35m de visibilidade, ou seja, víamos o naufrágio da superfície. E ele estava lindo e cheio de vida. Cardumes diversos (galos, guarajubas, pampos e parús) circulavam o navio, pequenos peixes bentônicos encantavam o lugar, grandes beijupirás circulavam à vontade. Uma grande arraia esparramada sobre os destroços revelando o real motivo para tantos beijupirás: os filhotes de arraias são muito apreciados por esses peixes. E logo ele apareceu, um mero grande e curioso que posou para as fotos. Tubarões lixa repousavam abrigados e indiferentes aos mergulhadores. Por bombordo do navio um grande jardim de enguias se mantém por lá. As enguias são assustadas, ficam apenas com a cabeça fora da toca e quando nos aproximamos elas se escondem, dezenas delas em pequenos buracos na areia. Para completar o cenário, grandes esponjas dão um charme ao destruído navio. Tudo isso em apenas um mergulho.
As caldeiras do Navio do Pecém

Após o mergulho subimos para descansar e eliminar parte do nitrogênio acumulado durante o nosso tempo submerso. Enquanto a tripulação do barco pescava, um golfinho passou próximo a nossa embarcação animando a possibilidade de um encontro no fundo.

Depois de uma hora e meia de intervalo de superfície mergulhamos novamente. E lá estava o azul maravilhoso com um lindo naufrágio no fundo. Assim que imergi avistei uma arraia xita que circulava nosso cabo guia. O navio está parcialmente destruído devido a explosão que o afundou e a anos de depredação por parte de piratas submarinos que vandalizam os naufrágios cearenses dinamitando-os para extrair metais nobres (cobre, bronze, latão) que são vendidos no peso em sucatas. Mas ainda podemos ver diversas estruturas do navio em si. A popa está bem preservada é possível contornar o leme. O canhão defensivo ainda está lá, apontando para o fundo. Roda do leme, caldeiras, e outras grandes estruturas ainda estão lá, um pouco camufladas por anos de colonização dos novos habitantes.

Saímos da água e navegamos rumo a Praia do Pecém como o planejado. A fim de evitar a longa navegação até Fortaleza desembarcaríamos os mergulhadores nesta praia onde uma van nos aguardava para nos levar de volta a cidade. Ao chegarmos nossa equipe de terra nos aguardava e desembarcamos às 16:30. 

O sucesso da operação se deu ao perfeito planejamento e sincronia da equipe, a alta qualidade e capacitação dos mergulhadores envolvidos, a avaliação de condições de mar, fases a lua, condições climáticas e a Deus que permitiu que nossa viagem fosse em  paz.



Donald MacCullam, o capitão do Baron Dechmont em seu navio.

O Baron Dechmont antes de se transformar no Navio do Pecém.

Croqui do Naufrágio feito em 2005 por Maurício Carvalho.

Mergulhador e cardume de parús

Mergulhadores no naufrágio. Muita vida.

A âncora reserva ainda está no convés do Baron Dechmont.

Esponjas cobrem o navio.

Cardume de Peixes Galo.

Guarajubas circulam o costado do naufrágio.

Mero no naufrágio. Esperamos que sobreviva aos pescadores e caçadores submarinos. Foto: Rita Salgueiro.

Cansaço pós mergulho!

O staff dormindo em qualquer canto. Foto: Rita Salgueiro.

Todo mundo feliz!
E o mero?
Após os mergulhos uma dúvida surgiu. Divulgar ou não a existência de um mero no local. Isto porque mergulhadores mal intencionados podem ir ao local com o proposito de pescar esse peixe. É um perigo real, mas esperamos que esta informação ajude mais a conscientizar do que a predação. Salvemos nossos mares.




Leia Mais:
Logística e Informações sobre Saída de Mergulho para o Naufrágio do PecémNaufrágio do Pecém: o afundamento do navio inglês Baron Dechmont e do submarino alemão U-507
U-507: Um Relato sobre o Afundamento do Submarino que "empurrou" o Brasil para a II Guerra Mundial
Agosto de 1942: Memórias da Guerra Submarina na Costa de Sergipe


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Aqueles do Mar



Não sei quantos somos...
Em um mundo de sete bilhões devem existir muitos de nós... mas somos preciosos...
Somos aqueles de espirito inquieto inconformados com o dia a dia e a mediocridade.
Somos aqueles que tem que olhar com os próprios olhos e dizer eu vivi... eu senti... e assim ter a certeza de que estamos só no começo..
Somos aqueles que se sentem bem ao ar livre...sem tetos ou barreiras, mesmo na chuva...
Somos aqueles que tem medo, mas que isso não pode nos impedir...
Somos do limite, não do meio, do começo ou do fim...
Somos do mar... da terra e do vento
Somos de conchas... de calcário e de coral..
Somos feitos de um grão de areia que não quebra nem se desmancha...
E corre com o vento...
Nós somos aqueles que não se deixam carregar.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

A Pesca Artesanal e os Mergulhadores de Bitupitá no Extremo Norte do Litoral Cearense


Mergulhador de Nativo de Bitupitá.
Uma pequena e encantadora vila no extremo norte do litoral cearense. Assim pode ser descrita a última praia em nosso litoral antes da divisa com o Piauí. Bitupitá tem um povo simpático e que forma uma comunidade única de pescadores. O nome vem das línguas indígenas e faz referência ao vento que muda a paisagem composta pelo mar e dunas de areia branca.

Os currais em mar aberto não são
visíveis da praia.
Mas o que chama atenção aqui é a tradição pesqueira. Os tradicionais currais de pesca é que se destacam na Praia de Bitupitá. Alias, não se destacam pois não os vemos, eles estão distantes mar adentro. Os currais são armadilhas artesanais para a captura de peixes compostas por um cercado localizado normalmente na área entre marés, onde o peixe entra durante maré alta e fica aprisionado na baixa-mar. O que chama atenção em Bitupitá é a distância que esses currais ficam a partir da costa. Os mais distantes estão a cerca de 10 km e suas estacas estão fincadas entre 8 e 10m de profundidade.
Sua destreza na água é incrível.
O mergulho é o que torna essa pesca especial. Os pescadores tem que mergulhar para fazer a manutenção constante da estrutura e principalmente para recolher os peixes que ficam aprisionados como resultado da pesca. Durante o trabalho a tripulação do curral que pode conter até 12 homens se divide. Cada um parece saber exatamente a sua função: costurar a tela de aço que eventualmente se rompe, fincar e (incrivelmente) martelar as grande toras de madeira que compõem o cercado são partes da faina bem como capturar os peixes, é claro. 

Grandes cardumes entram no curral e são recolhidos com uma grande rede que é manuseada pelos pescadores-mergulhadores de dentro da água. Eles passam a rede para dentro do curral por uma abertura, em um dos compartimentos do curral desenrolam a rede e tangem os peixes para dentro. Repetem esse procedimento uma ou duas vezes e levam os peixeis que são soltos no chão do barco sem muito critério. Sardinhas, xaréu, serra e outros peixes de valor comercial renderam o bom trabalho. Todos os tripulantes mergulham e a maioria possui máscaras adequadas mas nenhum outro equipamento além disso. Outro fato curioso é que assim como Jacques Cousteau todos fumam e parecem não se importar com isso. O clima a bordo é amigável e reina o companheirismo.

Ao aproximar-se da praia a embarcação é tomada de assalto por atravessadores "selvagens" em busca do melhor negócio que é fechado com o Chefe do Curral. Todo o produto da pesca foi vendido para um só atravessador que fez o melhor lance.

Parte do trabalho é fixar as imensas estacas que compoem o cercado.

A tripulação avalia o rendimento do dia.
Um método de pesca único que vem passando de geração a geração mas que corre risco de extinção em virtude da falta de perspectiva da vida no mar. As dificuldades e o perigo são queixas constantes da categoria não só em Bitupitá, mas em todo o Estado. Preservar a pesca artesanal-sustentável é uma estratégia de preservação ambiental que deveria ser mais explorada. A lógica é simples: valorizando a pesca artesanal automaticamente combatemos a pesca predatória.


Pescador orgulhoso com o seu trabalho.
Texto e Fotos
Marcus Davis

sexta-feira, 6 de junho de 2014

A Luta e Resistência da Comunidade do Balbino

Paula Christiny

Praia do Balbino. Fonte: http://revistalitoralleste.blogspot.com.br/
A comunidade de Balbino possui cerca de 960 moradores, abrangendo uma área de 250 hectares no litoral Leste do município de Cascavel e ao distrito de Caponga, localizada a 60 km da capital cearense. Partindo de Fortaleza, os acessos são via BR 116 e CE 040.

O Balbino é formado por mangue, praia e lagoa, formando uma das mais belas paisagens do litoral cearense. É povoada por uma comunidade de pescadores que dependem da pesca artesanal de peixes e crustáceos para o seu sustento.Além do turismo que movimenta as barracas de praia e o comércio local, outra característica da comunidade são suas expressões culturais como a dança do coco, a renda de bilros.

Pescadores do Balbino
descendentes de guerreiros negros e índios.
Fonte: http://revistalitoralleste.blogspot.com.br/
A Origem da Comunidade
Não existem registros escritos sobre origem da comunidade de Balbino. O que se tem acerca do tema é a tradição oral existente na localidade. Segundo os moradores, o surgimento está ligado à existência de um quilombo. Nas lembranças e nas histórias contadas da descendência étnica, de negros e de índios se fala de bravura, luta e resistência. Segundo essas memórias a resistência do povo do Balbino, quando viria dos índios e negros que chegaram ao local fugidos da escravidão e da Guerra do Paraguai, ou seja, foram essas lutas que tornaram seus descendentes um povo guerreiro e forte.

Pode-se perceber, segundo moradores, que a Comunidade do Balbino foi construída partir de ideais pela unidade, identidade e solidariedade. Foi naquela praia que essas pessoas geraram e ciaram seus filhos, pescando, construíram lar e de onde tiram seu sustento.

O Início da Luta
A zona costeira cearense é atingida pela valorização e do desenvolvimento do turismo de alto padrão vindo dos interesses relacionados à especulação imobiliária. A partir dos anos de 1980 a zona costeira cearense é de vez incorporada à economia global. Sendo envolvidas no quadro as comunidades litorâneas cearenses como a Prainha do Canto Verde, Flecheiras, Canoa Quebrada, Balbino, entre outras. Essa fase de ocupação do litoral é caracterizada pelo interesse de especuladores imobiliários em ocupar as terras dos pescadores.

A especulação imobiliária na da zona costeira, nesse período, está ligada a processos de modernização da região Nordeste que estabeleceram o desenvolvimento turístico como perspectiva de geração de lucro. Nessa época surge o ideal do Ceará das grandes e paradisíacas áreas litorâneas com um modelo de turismo baseado no sol e no mar. Esse modelo foi uma das bandeiras levantadas pelos governos de Tasso Jereissati (1987-1990; 1995-1998; 1999-2002) e de Ciro Gomes (1991-1994), considerados como os governos das mudanças em contraposição aos governos dos coronéis do Ceará. Rui Caminha, proprietário da Imobiliária IWA, foi a principal figura do meio imobiliário interessado nas terras do Balbino.

Os conflito sem defesa da Comunidade do Balbino começaram em 1984, intensificando-se em 1986-87, levando à organização da Comunidade a iniciar uma luta pela posse de suas terras, tendo em vista que estavam ocorrendo invasões violentas de empreendimentos imobiliários na localidade.

As terras de Balbino, oficialmente, em parte pertenciam à Marinha do Brasil e outra parte estava sendo ocupada pelos moradores, com alguns processos para conseguir legalizar a sua posse. Assim, diante da ameaça, a Comunidade se organizou politicamente e socialmente junto a entidades governamentais e não governamentais para iniciar uma luta por suas terras. Esses elementos retomam as narrativas de sua origem caraterizada pela participação de um povo guerreiro e resistente em sua constituição.

Em 21 de fevereiro de 1987 os moradores criaram a Associação de Moradores do Povoado de Balbino com o intuito de defender a natureza local, o interesse dos nativos era lutar contra os "predadores e exploradores”, ou seja, contra a especulação imobiliária. Já em 1988, com a interferência da Superintendência Estadual do Meio Ambiente (SEMACE) e do Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (CONDEMA), foi criada em 21 de setembro de 1988, através da Lei N° 479, a Área de Proteção Ambiental de Balbino (APA). A APA de Balbino com 250 hectares compostos uma paisagem de dunas, lagos, praias, manguezal, além da fauna existente, sendo a primeira APA do Estado. A sua criação trouxe garantias de que pelo menos as terras próximas à praia não pudessem ser comercializadas, cabendo à Associação de Moradores do povoado a sua administração dessa terra, que seria dada às famílias ou aos indivíduos que necessitassem, tendo como condição para receber a terra ter nascido na localidade.

A associação de moradores.
Fonte: http://revistalitoralleste.blogspot.com.br/
Mesmo com a criação da APA, os moradores do Balbino não tiveram paz. Suas terras ainda permaneceram sofrendo com a especulação imobiliária, principalmente por parte de estrangeiros, que compram áreas do Balbino que haviam sido vendidas antes da criação da Associação de Moradores, impedindo que a mesma interferisse nessa comercialização.

Uma Nova Batalha
Em 2013, a Associação de Moradores recebeu a informação de que a Prefeitura de Cascavel, por meio de sua prefeita Francisca Ivonete Mateus Pereira, havia enviado a Câmara Municipal um Projeto de Lei (mensagem nº 099/2013 de 2 de dezembro de 2013) propondo alterações na Lei nº 1.014 de 28 de junho de 2000 que define o Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo do Município de Cascavel. O que era proposto era a redefinição das áreas e do uso da Zona Especial APA do Balbino – (ZE6), transformando a APA em uma área urbana do município de Cascavel-CE e dividindo-a em Área de Preservação Permanente (APP), Zona de Urbanização Consolidada do Balbino (ZUC01) e Zona de Interesse Turístico (ZIT). Nesta seria permitido o parcelamento do solo para implantação de Condomínio Urbanístico Sustentável.

Mesmo trazendo em seu texto aspectos como desenvolvimento socioeconômico sustentável e bem estar da população do município, o processo de criação do Projeto de Lei foi feito de maneira autoritária, sem consulta e sem diálogo com a Comunidade de Balbino.

Os moradores ficaram sabendo do projeto através de contatos, novamente se organizaram para não ser esquecido por aqueles que defendem interesses de quem visa lucrar através da exploração de homens e de mulheres, da natureza e de suas riquezas, ignorando culturas tradicionais, com propostas excludentes e segregadoras. Como seus antepassados a comunidade reuniu forças e conseguiu a retirada do Projeto de Lei. A Associação dos Moradores do Povoado de Balbino, em nome da população, produziu um documento que trazia história da comunidade e solicitando a não aprovação do projeto. Segundo o documento dos moradores não se quer evitar o turismo, mas sugerem uma proposta que vincule a conservação dos recursos naturais com o conhecimento da cultura local.

O Balbino ainda resiste aos grandes complexos turísticos.
Fonte: http://revistalitoralleste.blogspot.com.br/
A Comunidade Ensina um Novo Caminho
Como forma der não esquecer de celebrar as memórias do povo do Balbino, vem sendo realizado a “Regata Ambiental de Balbino”. Tais eventos trazem diversas atividades: lual na praia, apresentação de dança do coco, venda de culinária tradicional e adivinhações ao redor da fogueira, café da manhã coletivo, caminhada por uma trilha ecológica e brincadeiras na praia, além da regata e da sua premiação. Isso mostra que a comunidade do Balbino está em pleno processo de construção de um modelo de turismo comunitário, sustentável e responsável, que visa à inclusão direta das famílias de Balbino nas atividades turísticas.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Recifes Artificiais Ilegais são Localizados no Parque Estadual Marinho da Pedra da Risca do Meio

Marambáia (nome dado por pescadores a recifes artificiais feitos por eles mesmos)
feita com tambores de aço localizada no Cabeço do Arrastado


Apesar da baixa qualidade das imagens o que podemos observar é uma estrutura composta por dois tambores de aço achatados e amarrados a fim de formar uma espécie de abrigo para lagostas. A ideia é que ao posicionar esta estrutura em uma localização conhecida apenas pelo seu "proprietário" somente ele terá acesso às lagostas que povoam este recife artificial de pequeno porte. Cada pescador possui as suas marambáias, dezenas e às vezes centenas espalhados em locais marcados através de GPS.

Marambáia já está parcialmente povoada
O perigo é que estas estruturas são consideradas responsáveis por contaminar as lagostas com resíduos das substâncias químicas que eles antes continham e sua utilização é proibida pelo risco de contaminação do pescado e, consequentemente, do consumidor final. Isso fez com que o preço da lagosta brasileira caísse no mercado internacional.

É comum encontrarmos estas estruturas em todo o litoral cearense como relatado aqui em 2011. O que impressiona agora é a audácia de localizarmos essas marambáias dentro dos limites de uma suposta Unidade de Conversação.

Embarcação de Peixes Ornamentais
Pescando no Parque Marinho
A estrutura encontrada está dentro dos limites do Parque Estadual Marinho da Pedra da Risca do Meio, no ponto conhecido pelo nome "Cabeço do Arrastado" que é visitado por diversos mergulhadores recreacionais da região. O fato de terem posicionado esta estrutura tão próximo de um local que é visitado frequentemente por mergulhadores recreativos mostra que esses pescadores ilegais não possuem nenhum medo de uma possível fiscalização. Isso também é exemplificado pelo fato de ser comum encontrarmos embarcações realizando pesca de peixes ornamentais ou mesmo mergulhadores com compressor pescando lagostas à luz do dia de um sábado ou domingo.


O descaso com "uma das Unidades de Conservação agraciadas com a "verba da copa" é evidente. Em 2010 roubaram um avião do fundo do mar de dentro do mesmo Parque, fato que também foi denunciado aqui. Os nosso mares não tem lei... mas isso é apenas um reflexo da situação atual do país em que vivemos.


Saiba mais:

quarta-feira, 21 de maio de 2014

O Litoral e suas Diferentes Percepções ao Longo do Tempo

Por Paula Christiny

A visão que possuímos do litoral nem sempre foi a mesma. Nossa relação com o mar e a praia foi se transformando por conta de fatores sociais econômicos e culturais de acordo com a dinâmica da sociedade. Para que possamos entender um pouco sobre tais imagens, é preciso conhecer um pouco sobre mulheres e homens do passado tomando um pouco de seus olhares e emoções. Dessa forma, poderemos saber como convivíamos à beira do mar e oceanos ao longo dos séculos.

Construção Grega. Fonte: http://filoparanavai.blogspot.com.br/
A Antiguidade Clássica
Começou-se a se escrever sobre a relação dos homens com o mar durante a Antiguidade Clássica. Na Grécia Antiga, os contatos com o mar se deram por causa sua geografia composta pelo continente e várias ilhas. Seu terreno acidentado com poucas terras cultiváveis levava a formação de cidades próximas ao mar, onde se pudessem construir portos, que eram pontos de comércio e comunicação. Além da navegação, a natação também era prática comum entre os gregos, o nado estava ligado à higiene, limpeza e virilidade. Tais costumes simbólicos e sociais contribuíram para o desenvolvimento dessa civilização.

Pintura representa invasão bárbara em Roma, Heinrich Leutemann.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/
Na sociedade romana a natação no mar tinha ligação com as atividades físicas e o culto ao corpo, exemplificado no boxeador Tisander, que usava a natação nos seus treinamentos. Entretanto, a queda do Império Romano, em 476 d. C. causada pela invasão bárbara por via marítima, substituiu a visão positiva da praia, por uma de medo, assombro e proibição.

Idade Média
Pintura de um mapa medieval na 
National Library of Sweden. 
Fonte: www.seuhistory.com

A Idade Média trouxe mudanças nas mentalidades que passaram a reger seus atos pelas práticas religiosas. Com a influência católica sobre os costumes, o banho de mar passou a ser não considerado uma atitude de bom cristão. Esse período marca a rejeição do homem pelo mar.
Acreditava-se que o sal da água abriria poros onde penetrariam as impurezas dos pecados do mar, morada dos poderes do inferno. Os homens impuros eram castigados com o arremesso dos seus corpos nas águas e a presença dos pescadores era temida, pois eles portariam as mazelas dos oceanos.
A Bíblia trazia reforço a esses temores, segundo seus textos o mar seria cheio de monstros e tormentas, morada do tenebroso Leviatã, personificação do demônio. Aparece também, a figura do dilúvio, massa oceânica que seria um meio de punição de Deus. Em virtude de tais visões construídas, a ocupação do litoral foi temida, poucos se aventuraram a estar próximo da praia.

Renascimento
Tela Santa Maria at Anchor de 
Andries van Eertvelt 1492. 
Fonte: http://pt.wikipedia.org/

A necessidade de novos mercados consumidores, causada pela emergência do regime mercantilista, abre espaço para a expansão marítima e colonial. O aumento do consumo europeu empurrou o homem para o mar em busca de especiarias e novas rotas comerciais.
Nessa época, novos conhecimentos científicos foram adquiridos: a forma dos oceanos foi melhor conhecida, a Lei de Gravitação Universal permitiu a explicação de fenômenos marítimos. Popularizaram-se instrumentos como a bússola e astrolábio que facilitaram a navegação.

Séculos XVIII e XIV
No século XIII surge a Teologia Natural da França e com ela uma nova forma de se apreciar o mar. Deus deixa de ter uma imagem de punidor, para um que na sua imensa bondade dá aos mortais as praias e os oceanos. O que antes era inacessível se tornou objeto de contemplação da natureza.
Tela de P S Kroyer, 
A Praia ao Pôr-do-sol. 
Fonte: sociedadechesterton.com
Seguindo essa tendência, o discurso médico mostra os benefícios da água salgada para a saúde. A praia passa a ser frequentada pelas suas qualidades terapêuticas. São inauguradas estâncias balneares pelo litoral europeu, sendo a estada no litoral uma prática de distinção das elites higienizada e saudável, num momento em que o capitalismo muda o sistema de estratificação social. O que se pode ver é a praia era um ponto fuga das elites que queriam sair do meio urbano quer eram feio sujo e pobre.
Após a segunda metade do século XVIII, as classes sociais mais elevadas experimentaram novas sensações com a natureza marítima, que passa a ser mais próxima do homem. No século XIX, o banho de mar é tido pela medicina como forma de sanar males do corpo e da mente.

Século XX

O poder do biquini em 1950. Fonte: novomilenio.inf.br

Nas primeiras décadas do século XX surge a ideia de praia lúdica. O litoral passa a ser visto como um espaço de convívio, alegria e lazer, assumindo o caráter de espaço público.
A visita à beira do mar é feita para proporcionar prazer, ela valoriza os elementos quentes da natureza, o que faz se frequentar a praia nos horários mais quentes. Passa-se a despir mais os corpos e valorizar as sensações corporais, exigindo-se uma exposição direta ao sol. O que importa é olhar e ser olhado. O bronzeado passa a ser um símbolo de distinção social. O banho de sol passa a ser mais importante que o banho de mar.

Brasil
Nau de Pedro Álvares Cabral no Livro das Armadas, 
Biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa. Fonte: wikipedia.org

Os sambaquis no litoral brasileiro mostram que povos ocuparam o ambiente costeiro. Mas é a partir do período colonial que e efetiva a ocupação.
O litoral do Brasil foi ocupado de forma descontínua com núcleos pontuais de assentamentos: Zona da Mata Nordestina, Recôncavo Baiano, Litoral Fluminense e Paulista. Ela se deu em virtude de atividades portuárias que eram suporte ao modelo econômico primário exportador. Esse modelo de ocupação perdurou até o século XVIII quando o bandeirismo, a expansão pastoril do Nordeste e avanços militares no Sul levaram a urbanização Brasil adentro.
Basicamente na zona costeira, os brasileiros foram além da pesca rudimentar próxima ao litoral e a navegação de cabotagem. Na costa, as faixas de praia eram utilizadas para atividades pesqueiras, portuárias e despejo de lixo. Tal situação permaneceu até o início do século XX.


Os brasileiros vão a praia. Fonte: novomilenio.inf.br
A mudança desse pensamento começou quando se passou a associar o mar aos termos medicinais. Nas primeiras décadas do século XIX, a praia se transforma em uma espécie de hospital. Era um modelo nacional dos padrões e comportamentos europeus de medicina higienista e afastamento das camadas populares.
Posteriormente até se chegar ao século XX, obras urbanísticas e políticas sanitárias melhoraram bastante as condições de vida na cidade. Com o disciplinamento dos espaços urbanos a zona litorânea passa a ser área residencial e de lazer. A partir disso, o mar passa a ser local de esportes aquáticos, lazer, caminhadas e banhos de mar. Nessa época, aparecem as ainda hoje comuns casas de veraneio.

Fortaleza

Forte de São Sebastião.
Fonte: http://forttalleza.blogspot.com.br/
As visões acerca do litoral de Fortaleza mudaram ao longo de sua história. Desde sua posição como um dos primeiros pontos de ocupação até a conquista do status de uma das capitais mais visitadas por turistas do mundo.
O movimento expansionista de conquista de Portugal exigiu a ocupação do litoral brasileiro, o português Pero Coelho iniciou a construção de fortificações ao longo do litoral do que viria a ser Fortaleza, na barra do rio Ceará foi erguido o forte de São Thiago. Ao lado uma povoação conhecida como Nova Lisboa, Lusitânia sendo o primeiro povoado a se estabelecer no litoral fortalezense pós-descobrimento. Porém o povoamento não teve êxito esperado e ocorreu o abandono em 1605 por uma de série de fatores, tais como a falta de recursos, ataques dos indígenas, dificuldades de comunicação com a capitania da Paraíba.
Em 1612 é erguida outra fortificação, por Martim Soares Moreno, esta fortificação foi fundamental no estabelecimento do domínio português na região. Nesse período, Moreno protegeu a costa contra piratas, apaziguou também desacordos entre a população, estimulou a agricultura e a pecuária e ampliou o Forte São Thiago e o batizou de Forte de São Sebastião.
No ano de 1637, a região foi invadida pelos holandeses, que tomaram o Forte São Sebastião, a expedição foi dizimada pelos ataques indígenas. Os holandeses voltaram em 1649, numa expedição de Matias Beck, se instalaram nas proximidades do rio Pajeú, onde construíram o Forte Schoonenborch. Em 1654, o Schoonenborch foi tomado por portugueses, chefiados por Álvaro de Azevedo Barreto, e o forte foi renomeado de Forte de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção no espaço que corresponde atualmente à cidade de Fortaleza.
Após esses eventos não ocorreram mudanças significativas na utilização do litoral de Fortaleza por causa da supremacia econômica do sertão, produtor e detentor das riquezas no Ceará. A mudança desse cenário veio com a construção do porto para a exportação de algodão.
Ainda se associava mar à morte, via-se apenas pobreza e lixo nas praias, que era espaço de circulação de vadios e desocupados. Além disso, local propício às mazelas vindas do mar.
Com a construção do porto, a cidade passou a ser um dos pontos de litoral abertos para o mar. Os meados do século XIX trouxeram para zona litorânea de Fortaleza a valorização gerada pelo porto e das atividades portuárias como armazéns, escritórios e alfândega. Além da exportação de mercadoria, as classes abastadas absorveram ideias e modos ocidentais, através das notícias vindas em navios europeus. A praia passou a ser território de desfrute sendo utilizada para fins de lazer e banhos de mar (predominantemente masculinos), serenatas e passeios de famílias.
Como marcos importantes temos em 1963 a construção da Avenida Beira Mar, e entre 1979-82, a constituição do bairro do Meireles e a instalação de vários clubes sociais no litoral nos anos 50 e 60. Com as obras seguintes vieram as construções dos calçadões da Praia de Iracema, do Futuro e da Leste-Oeste, isso nos anos 80 o que contribuem para a imagem do litoral como zona de lazer.

Fortaleza dos turistas. Fonte: www.skyscrapercity.com


Hoje Fortaleza é conhecida pelo seu enorme potencial turístico, sendo uma das cidades mais visitadas do mundo, por aqueles que admiram seu litoral. Ela atrai milhares de turistas para as suas praias e movimenta de forma significativa a economia e a oferta de empregos na cidade.

domingo, 11 de maio de 2014

O Avanço do Mar no Litoral Cearense

Por Paula Christiny.

Parajuru. Fonte: Diário do Nordeste.

Um sonho comum à muitas pessoas é uma casa de frente para o mar. O que foi a realização de um antigo desejo, para muitos, atualmente, é motivo de temeridade no litoral cearense. Isso se deve à destruição causada pelo avanço do mar em alguns pontos do Estado. Diante dessa ameaça, que se apresenta cada vez persistente, levanta-se a questão sobre o que levou a constituição desse cenário. 

O avanço do mar não é um fenômeno exclusivo do litoral do Ceará, sendo registrado em 17 Estados brasileiros banhados pelo oceano Atlântico. Em alguns locais esse aumento acontece em velocidades e intensidades não naturais, diminuindo de maneira significativa a faixa de praia, causando mudanças na geografia do litoral. Com o quadro que se apresenta haverá alterações ainda maiores nos próximos anos. 

É importante entender que o processo de erosão no litoral é um complexo, resultado da junção de fatores naturais e intervenções humanas. Em períodos onde a incidência de ventos é mais forte, as marés estão mais altas e há mudanças de temperatura é que se têm as condições favoráveis para esses fenômenos. Une-se isso à erosão naturalmente provocada pela disputa por espaço entre o mar e as cidades do litoral e à ocupação urbana desordenada. 

O que se vê no Estado do Ceará, é que ao longo dos anos a ocupação do litoral foi feita sem o devido ordenamento, com intensa ocupação urbana da linha de praia por edificações privadas. Como resultado da especulação imobiliária e desrespeito às leis da natureza, se têm efeitos catastróficos. Construções à beira-mar, casas, hotéis e pousadas são atacadas ferozmente pela força do mar, que chega a consumir até calçamentos e pavimentos. Com isso, todo o turismo da orla marítima é prejudicado pela diminuição do número de frequentadores das praias. No geral o que se vê é um cenário de desolação e abandono. 
Mapa da erosão no litoral.  Fonte: Diário do Nordeste. 

O litoral precisa do uso moderado de seus componentes. Não se pode construir ao longo de uma faixa de 30m, é a definição do espaço de praia contados a partir da maré alta. A legislação existe, o que falta a ser respeitada. A Lei de Crimes Ambientais, Lei nº 9.605 de 12 de fevereiro de 1998, trata das sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente. No Art. 54 ela tipifica como crime punível com pena privativa de liberdade reclusional prática que dificulte ou impeça o uso público das praias.

Antigos moradores são saudosistas sobre o que eram as praias de antigamente. Pescadores estão desenganados, pois veem diariamente a alteração dos seus modos de viver, remoções e os prejuízos sofridos a cada alta da maré. O que se pode ver é que essa questão, além de um fenômeno natural, implica em questões econômicas e sociais. Outras consequências desse avanço, não muito comentada pela mídia, é a alteração dos ecossistemas costeiros. Os manguezais podem ser afogados durante uma elevação do mar, alterando a dinâmica desses ecossistemas e influindo negativamente no ciclo de vida marinha.

Como exemplos, no Ceará pode-se citar alguns locais. A praia do Icaraí é uma das que mais tem sofrido com a erosão. Muitas calçadas, condomínios e outras construções na faixa de praia estão sendo levadas pelas águas, até a proteção contra ondas foi em parte destruída pela força das ondas. Na praia de Parajuru, em Beberibe, é das mais ameaçadas de todo do Estado. Barraqueiros já desistem de suas atividades e procuram outros locais. Já em Icapuí a situação é catastrófica, o mar levou colégios, casas, barracas, isso sem falar nos prejuízos pela interrupção do turismo. Em Iparana, apenas 12 anos, sumiram 300 metros de praia, a deixando em avançado estado degradação. Antes ela eram umas mais frequentadas, hoje não se muitos locais próprios para banho.

Praias afetadas pelo avanço do mar.  Fonte: O povo.

Em Fortaleza, na última de ressaca do mar a força da maré levou água e areia à Avenida Beira Mar, gerando congestionamento de veículo na região e dificultando o passeio de pedestres. O avanço inicial do mar se deu a partir da construção Porto do Mucuripe, que desviou sedimentos para áreas como a Praia de Iracema e o Pirambu. Depois da construção de espigões na Capital, mas a erosão foi transferida para praias de Caucaia.

Depois de toda essa situação ter sido agravada pela intensa urbanização, o que se vê é uma verdadeira batalha de moradores e empresários tentando amenizar esse processo. Tentando reverter o cenário, moradores e empresários se juntam para fazer barreiras com pedras e sacos de areia visando reverter o avanço do mar. Mesmo assim, na alta da maré, as águas chegam tão fortemente que arrastam tudo que há pela frente.

Por outro, o poder público, sob pressão de empresários e da comunidade, faz investimentos milionários para impedir a erosão. São exemplos destas ações, a construção do bag wal, uma espécie de dominó de pedras que funcionam como barreia, também de espigões e quebra-mares. Essas obras, segundo estudiosos do Instituto de Ciências do Mar LABOMAR, podem não surtir o efeito desejado. Projetos sem o conhecimento técnico necessário e agindo de forma pontual, sem pensar em perspectivas futuras não trarão resultados positivos, como já vem acontecendo, afirmam os pesquisadores.

Bag Wall no Icaraí. Fonte: Diário do Nordeste.

É importante entender que o processo de erosão no litoral é complexo, resultado de fatores naturais e humanos. Para se reverter esse quadro, devem ser feitas ações planejadas que aprendam a lhe dar com os aspectos da natureza, como a dinâmica costeira e vegetação litorânea. Mais do que barreiras contra as águas são fundamentais obras de requalificação do litoral e o uso consciente da faixa de praia. Além disso, é fundamental, uma constante fiscalização do cumprimento das leis. Assim, poderá se ter uma convivência saudável entre natureza e homem.


Para saber mais:
Site do LABOMAR: 

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Mara Hope há 30 anos

O Mara Hope era um navio cargueiro que encalhou em mares cearenses no início da década de 80 e até hoje permanece um marco paisagístico na orla cearense. Nesta foto de 1985 ainda é possível observar a Ponte Metálica. Foto gentilmente cedida por Rogério Nobrega.

1985. Foto gentilmente cedida por Rogério Nobrega.
Molecada que teve a oportunidade de brincar em seu convés! Foto cedida por Rogério Nobrega.

O hélice reserva.  Foto cedida por Rogério Nobrega.

A superestrutura já bastante danificada em 1988.  Foto cedida por Rogério Nobrega.
Nesta foto vemos um rebocador ancorado ao lado do Mara Hope.  Foto cedida por Rogério Nobrega.

Saltos do Mara Hope! Até hoje!  Foto cedida por Rogério Nobrega.

O incêndio em 1985.  Foto cedida por Rogério Nobrega.

A fotos contidas no site são propriedade de Rogério Nobrega e não devem ser reproduzidas sem autorização prévia do mesmo (rogerionobrega@hotmail.com)!