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segunda-feira, 4 de maio de 2015

Parcel do Manoel Luís: um paraíso submerso no Maranhão

Mero no Naufrágio Ana Cristina. Foto Marcus Davis.

Costumo dizer que por ser instrutor de mergulho ganho pouco mais vivo bem. Vivo bem pois tenho a oportunidade de visitar lugares que as pessoas comuns nunca sonhariam. Assim aconteceu com o Parcel do Manoel Luís, uma grande formação de recifes submersos a 80 quilômetros da costa do Maranhão.
Servidores se preprando para mergulhar
em Fortaleza.

O Planejamento
A Expedição Parcel foi resultado de anos de planejamentos e capacitações por parte dos servidores públicos da Secretaria do Meio Ambiente do Maranhão (SEMA-MA). O planejamento iniciou-se em 2012 quando a coordenadora da secretária na época Naira Valle decidiu efetivar o domínio do Estado em uma de suas unidades de conservação mais remotas. Nunca um funcionário do órgão responsável pela fiscalização havia visto de fato o que há lá embaixo e o valor imensurável do que devem proteger.

Capacitação no Mar do Ceará.
Neste ano quatro fiscais e analistas da Secretaria vieram ao Ceará para capacitar-se para a expedição.  Ficaram duas semanas em Fortaleza, período em que concluíram com sucesso o curso Open Waters e Advanced Open Waters com o Escola e Clube de Mergulho Mar do Ceará. O treinamento foi um desafio para uns mas uma vitória para todos. Após os curso foi recomendado mais experiência: mergulhar mais para enfrentar as condições adversas do Parcel. Planejamos uma segunda fase de treinamentos onde seriam realizados cursos de mergulho profundo e primeiros socorros (Deep Diver e Emergency First Response). Em 2014 os servidores retornaram a Fortaleza e finalizaram a segunda etapa do treinamento. Ao final estavam prontos, mas apesar disso fui convidado para acompanha-los na expedição como fotografo e safety diver.

Após a conclusão da fase de capacitações agora precisávamos de condições de tempo favoráveis e verba para a viagem. Ao fecharmos esses detalhes fundamentais uma data foi definida: 30 de janeiro às 14:00 deveríamos partir de um porto localizado em São José do Ribamar, cidade localizada a uma hora  carro de São Luís.
O Robusto Aqua 2.

A viagem
Partimos com um atraso "programado" de duas horas à bordo do Aqua 2. Estávamos em um veleiro catamarã de bom tamanho que há mais de 20 anos faz viagens ao Parcel fretado pelo Governo ou em operações  jornalísticas ou de pesquisa mas não para a prática exclusiva de mergulho recreativo, explica o experiente Comandante William Thomas, um brasileiro filho de americanos que fez suas primeiras viagens ao Parcel bordo do Aqua 2 ainda em 1993 quando liderava um projeto de pesquisa sobre naufrágios.
Marina, Shirley, Luciano, Janaína e eu.

Estávamos no barco sete marinheiros, o comandante, Janaína Dantas coordenadora da SEMA, Luciano Lápis fiscal ambiental, Marina Barros analista ambiental, Shirley Leão analista, e eu para uma viagem longa. O mar estava favorável e relativamente calmo mas o nosso atraso nos obrigou a ancorar ao cair da noite. Não se navega à noite quando próximo do litoral do Maranhão devido a grande quantidade de bancos de areia que surgem abruptamente revelando o perigo de encalhe. A prudência nos obrigou a passarmos a noite parados mas com o raiar do dia retomamos a navegação incessante até o Parcel. Chegamos em suas proximidades mais uma vez ao cair da noite e também não se navega a noite próximo do Parcel devido às suas características propicias ao naufrágio: bater em um dos cabeços seria catastrófico. Ancoramos mais uma vez para esperar a segurança da luz solar para nos aproximarmos e fundear o barco em um local seguro.

O Parcel
O Parcel.
O Parcel do Manoel Luís não é uma formação coralínea. Na verdade os cabeços que o compõem são formados por algas-calcárias que ao longo de milhares de anos cresceram umas sobre as outras. "Há 20 mil anos o local onde hoje é o Parcel do Manoel Luís estava fora d'água. O mar avançou muito nesse período", explica William, o que torna o lugar ainda mais interessante, O Parcel está a 90 mn de São Luís e a 100 mn de São José do Ribamar, porto mais favorável para alcançar o lugar visto que na navegação marítima uma reta sem sempre representa a menor distância entre dois pontos. É um Parque Estadual Marinho desde 1991 sob a jurisdição da SEMA que realiza operações de fiscalização na região.

Planejamento dos Mergulhos.
A área de preservação em que se localiza é remota e imensa o que dificulta extremamente sua fiscalização e pesquisas. Na verdade a unidade de conservação é composta de duas áreas separadas: o Parcel e o Banco do Tarol que é ainda mais distante e menos estudado. No entanto o Parcel conserva além da riqueza biológica, uma riqueza histórica ainda não dimensionada: ali afundaram várias embarcações, pesquisadores divergem quanto ao números que varia de 15 a 200, que desavisadas ou enganadas quanto a sua rota chocaram-se contras os cabeços, em muitos casos, com muita perda de vidas.
Embarque nos infláveis.

Mas o patrimônio biológico é riquíssimo. Tanto que já fez o lugar parecer maior do que realmente é: anos atrás um renomado pesquisador uma vez o mencionou como local de desova de tartarugas e reprodução de aves marinhas, o que é impossível. Não há ilha, areia ou coqueiros no Parcel. Os recifes sobem até a linha d'água e ali terminam. Sobre a água não há muito, mas abaixo a riqueza é fantástica: cardumes diversos circulam os cabeços, peixinhos coloridos de várias espécie fixam residência nas áreas mais rasas e peixes de grande porte circulam por ali, fauna e flora quase intocadas. A água é claríssima que causa uma enganosa segurança. São muitas as histórias de mergulhadores pegos de surpresa pela correnteza permanente da região. A amplitude entre marés na costa do Maranhão é maior que cinco metros o que resulta em correntezas fortíssimas durante quase todo o tempo. Apenas no estorvo das marés que acontece duas vezes por dia a correnteza para completamente e é possível mergulhar sem ser levado por ela.
Equipe se prepara.

Os Mergulhos 
Dia 1 de fevereiro de 2015 chegamos ao Parcel do Manoel Luís e realizamos um primeiro mergulho.

Logo que chegamos já com o barco fundeado a tripulação baixou dois botes infláveis e nos preparamos para entrar na água. Embarcamos nos pequenos infláveis que são uma ferramenta essencial em operações de mergulho no lugar. Em um grupo com quatro mergulhadores descemos em um cabeço e lutamos contra a correnteza. Mal pudemos observar o lugar nos abrigando no lado protegido da coluna de calcário aos 15m de profundidade. Aconteceu um pequeno erro de cálculo: a maré começou a encher antes do previsto e a correnteza estava fortíssima. Missão abortada após meros quinze minutos de fundo. Segundo William devido à distância em relação a costa no Parcel a maré muda cerca de uma hora e meia antes do previsto nas tabelas publicadas pela Marinha o que complica um pouco os cálculos.
As cores do Ana Cristina.

De qualquer forma foi o dia em que pela primeira vez servidores públicos viram com os próprio olhos a riqueza do lugar que devem proteger. Simbolicamente foi tomada a posse da Unidade de Conservação pelo Poder Público.

Após o estresse do primeiro mergulho a lição estava clara: é um lugar hostil. Lindo mas hostil. Retornamos para a nave mãe enquanto esperávamos o próximo estorvo que só aconteceria em seis horas. Quando voltamos para o mar estávamos prontos e preparados para nadar. Mas incrivelmente não havia correnteza e descemos aliviados com destino ao navio naufragado Ana Cristina. O último grande navio a bater nos parcéis chocou-se violentamente contra um dos cabeços e partes de sua proa e sua âncora ainda estão a poucos metros da superfície, sobre o local onde ele bateu. A corrente da âncora liga-a ao restante do navio que repousa inteiro deitado sobre seu bombordo como se descansasse a 26 metros de onde estão os nossos botes. Um grande mero, incontáveis barracudas e um cardume de dentões agora dominam o lugar já bem adaptado ao fundo mas apesar disso é impossível deixar de notar a dramaticidade do lugar: o navio de lado com sua corrente subindo para superfície deixam clara a brutalidade do acidente.
O hélice reserva do Ana Cristina.

No dia seguinte café da manhã para estômagos já acostumados ao balanço e espera pelo horário da maré. Em horário cuidadosamente ajustado voltamos para os botes. Dessa vez em menor número, eramos apenas eu e o Luciano mergulhando mais uma vez no naufragado Ana Cristina. Lá estava o mero, as barracudas e os dentões mas pudemos notar alguns outros detalhes do navio em si como seu hélice reserva, a balaustrada, os vidros das vigias de comando tudo parece inesperadamente bem preservado. Emergimos 25 minutos depois e em uma manobra rápida, nos deslocamos para outro naufrágio enquanto trocávamos os cilindros. Agora acompanhado da Shirley visitaríamos o petroleiro Ilha Grande que está a não mais que uma milha navio anterior.  A proa do naufrágio está inteira mas seguindo para popa está tudo em destroços. Dois, talvez três, pequenos meros se escondiam meio curiosos enquanto um cardume de pirajicas rodeava o lugar. Fantástico.
Luciano próximo ao cabeço em que bateu
o Ana Cristina. Note a corrente da âncora
descendo do cabeço no canto
inferior direito.

Apesar da boa visibilidade constatamos uma alga verde e fina em excesso prejudicando um pouco a visibilidade, fenômeno incomum e que preocupa William que só o observou nos últimos anos.

À tarde e com a maré cheia visitamos o topo de um dos cabeços eramos um trio composto por Marina, Shirley e eu para mergulharmos em uma formação a não mais que oito metros da superfície. Era como um oásis submerso no meio daquele aparente deserto azul. Algas, corais e peixes dominavam o lugar dando a ele um ritmo próprio. Peixeis bentônicos como parus, batatas, cirurgiões nadavam entre algas verdes. Mesmo com a maré parada, devido a proximidade da superfície uma leve correnteza nos indicava a direção, indo e voltando conforme a ondulação.
Os naufrágio são completamente cobertos.
Exceto os curtos períodos de estofo da maré o tempo à bordo é monótono. Filmes em notebooks e livros são uma boa sugestão para passar o tempo.
A proa do Ilha Grande está inteira.

No terceiro dia ancorados sobre o Parcel o intuito era visitarmos o local conhecido como Fragata Portuguesa. Segundo William que localizou os destroços na década de 90, ali bateu um navio de madeira de grande porte e vários artefatos ingleses foram encontrados durante as pesquisas. Acontece que o local nunca foi propriamente estudado e a identidade do naufrágio permanece desconhecida. Uma das maiores referencias em história náutica dos últimos tempos, Almirante Max Guedes sugeriu baseado nos artefatos encontrados que ali poderia ter afundado uma fragata de origem portuguesa e essa sugestão deu nome ao lugar. O local pode parecer um pouco decepcionante em uma primeira vista. Isso porque a quinze metros de profundidade o que resta da fragata está agora totalmente enterrado ou adaptado ao fundo calcário e o pouco que que se vê são pedaços de madeira dispersos. No entanto segundo o William o navio está consideravelmente inteiro sob o cascalho. Para olhos um pouco mais treinados é possível perceber sobre o cabeço mais próximo pedras soltas de formato arredondado e também é possível notal que parte do cabeço provavelmente se partiu com o choque da embarcação.
Guara

Do ponto de vista histórico esse é talvez um dos mais naufrágios mais importantes do Parcel e merece estudos mais detalhados. Isto porque devido ao seu isolamento geográfico e proteção parcial do relevo submarino no local exato do naufrágio o lugar é como uma capsula do tempo do século XVIII que está ali para ser aberta.

Para o último mergulho do dia planejamos visitar outro navio afundado. Os naufrágios são grandes agregadores de vida marinha e no Parcel não é diferente. Grandes peixes pelágicos são observados nas proximidades do Basel a 28m de profundidade. Durante esse mergulho a visibilidade já não estava das melhores mas o mergulho não deixou a desejar. Avistamos um tubarão-lixa que viria a ser o único observado na expedição.
Esponjas e algas calcárias.

No dia seguinte levantamos âncora logo cedo. Dessa vez não iam só os infláveis, mas toda a caravana. Iniciamos uma batimetria ao redor de todo o Parcel. O objetivo era determinar "as bordas" da formação e documentar sua profundidade. Levamos o dia todo nessa manobra em que aproveitamos para coletar algumas amostras de fundo. Fundeamos ao final da tarde na borda sul do Parcel para um  mergulho de coleta. Acompanhando da Shirley descemos em um local repleto de algas calcárias a 28m da superfície que denominamos "Cabeço da Leão". Após o mergulho seguimos para o continente com destino a ilha de Santana. Mal terminamos o jantar e a chuva logo nos botou pra dormir. 
Cardumes diversos.
Colete de material biológico.
A chuva leve se transformou em uma tempestade e obrigou William a ficar acordado todo o tempo ao lado de mestre. O barco balançava freneticamente e o choque com as ondas produziam ruídos demolidores, principalmente para aquele alojados nos compartimentos da proa. Mas o Aqua 2 aguentou dignamente a viagem e a tempestade deixou um bom alerta das dificuldades que enfrentaram os grandes navegadores da antiguidade. Navegamos toda a noite e a manhã do dia seguinte até ancorarmos no estuário da Ilha de Santana onde baixamos os infláveis para inspecionarmos alguns locais de interesse do ponto de vista ambiental. Visitamos algumas comunidades e ilhotas que ainda parecem saudáveis. Importante notar o quão remotas são as ilhas do litoral do Maranhão ainda nos dias atuais e as dificuldades que teriam os náufragos de tempos passados.
Coleta durante a batimetria.

Pernoitamos abrigados para uma noite tranquila e logo cedo rumamos para São José do Ribamar. A sensação de dever cumprido nos dominava a medida que adentrávamos no Porto. Por mais conhecido que seja estar em um lugar onde poucos estiveram deixa um gostinho do que teriam sido as grandes expedições exploratórias do passado.





Sargentinho no Ilha Grande.

Pirajicas. Naufrágio Ilha Grande.

Formações dos cabeços são incríveis.

Esponja no "Cabeço da Leão". Intocado.

Os jantares à bordo: a ocasião.

Inspeção na Ilha de Santana.

O Farol da Ilha de Santana.

Povoado da Ilha de Santana. Ilha do Duarte ao fundo. 

Base da Marinha na Ilha de Santana.

A chegada em São José do RIbamar.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Realizamos a Maratona de Naufrágios em Recife!

Fotos por Erika Beux e Rodrigo Vitória



Juntos com a operadora local Projeto Mar organizamos e realizamos a nossa Primeira Maratona de Naufrágios em Recife! Uma equipe composta por 16 mergulhadores altamente capacitada embarcou para a conhecida "Capital de Naufrágios do Brasil". Foram três dias com três mergulhos em cada dia! E para evitar o excesso de nitrogênio todos os mergulhos foram feitos utilizando Ar Enriquecido com 30% de oxigênio!

Muita risada, muita diversão com essa turma de feras da água!

Confira o Logbook!
1o Dia, 22 de janeiro
Saveiros - rebocador afundado propositalmente para mergulho
Tauros - outro naufrágio artificial
Vapor de Baixo - um antigo vapor de rodas 

2o Dia, 23 de janeiro
Mercurius - naufrágio artificial
Pirapama - famoso naufrágio da região, afundou após chocar-se com o Vapor Bahia 
Pirapama - fizemos dois mergulhos neste naufrágio

3o Dia, 24 de janeiro
Minuano - naufrágio artificial afundado em 2009
Servemar X - naufrágio artificial de 2002, morada de vários tubarões-lixa
Servamar I - naufrágio artificial 

Mais informações sobre os naufrágios mergulhados podem ser encontradas no site BrasilMergulho e no Naufrágios do Brasil!

Confira as fotos!
Renê e seu tubarão-lixa

Ninho de Tubarões...5!

Jan e os peixinhos!

Cenas espetaculares e água roxa!

Turma!

Vamos navegar?!

Penetrações fáceis

Arraias e muita vida!
Água roxa e mar calmo!

Tem alguém triste?


E fique de olho na próxima dive trip que organizamos especialmente para vocês!

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Agosto de 1942: Memórias da Guerra Submarina na Costa de Sergipe

por Paula Christiny

Manchete de jornal noticia os ataques. Fonte: terra.com.br.

A Segunda Guerra Mundial, muito mais que um conflito europeu, foi um conflito “global”. O intuito desse texto é mostrar experiências vivenciadas por nordestinos durante esse conflito e também apontar pesquisas mostram que durante os combates não se destacou apenas a batalha naval em si, mas a forma como a população costeira respondeu aos atentados no mar. Sucessivos afundamentos de navios brasileiros foram registrados em águas internacionais ao longo da Segunda Guerra Mundial. Na costa brasileira o litoral de Sergipe foi palco de investidas nazistas entre os dias 15 e 16 de agosto de 1942.

A costa de sergipana foi lugar de lamentáveis acontecimentos da história trágico naval brasileira e internacional, tais episódios se transformaram em “tragédia sergipana”, Durante a Segunda Guerra Mundial, navios foram torpedeados ao longo do litoral de Sergipe e Bahia. A barbárie foi tanta, que comparando o número de mortos, se constata que morreram 1.051 pessoas decorrentes de ataques a navios mercantes brasileiros no período total da guerra (1939-1945). Entre todas as vítimas provenientes dos ataques aos navios mercantes brasileiros, 579 vidas foram ceifadas em águas costeiras sergipanas entre os anos de 1942 e 1943, representando mais da metade de todas as mortes brasileiras no mar. Tão grande foi peso da injuria que ela foi combustível para o rompimento diplomático com o Eixo. Isso foi encarado como uma declaração brasileira de guerra ao nazifascismo, seguiram-se a isso o reconhecimento do Estado de beligerância em todo território nacional (22 de agosto de 1942) e na Declaração Brasileira de Guerra à Alemanha e à Itália (31 de agosto de 1942).

A Repercussão dos Ataques
O que se quer mostrar é a memória coletiva do povo de Aracaju para perceber como os impactos causados pela Segunda Guerra Mundial influíram na vida das pessoas, como o ataque dos U-boots repercutiram no cotidiano da cidade no período belicoso. A história dos torpedeamentos dos navios mercantes gerou centenas de mortos, dezenas de sobreviventes traumatizados, população costeira amedrontada e um clima de insegurança generalizado, configurando assim, o estado de beligerância nas águas territoriais do Brasil, e mais tarde, a declaração varguista de guerra à Alemanha e à Itália.

Em decorrência dos ataques ocorreram na capital sergipana atos de hostilidade e intimidação contra imigrantes estrangeiros e descendentes; dificuldades de exportação e importação; escassez de uma série de produtos; crise no abastecimento dos combustíveis; o aumento do custo de vida, entre outras ações tomadas pelas autoridades públicas visando controlar a vida da população. Tudo isso em virtude do constante receio dos ataques ou até de submarinistas, depois que navios brasileiros começaram a ser afundados no Oceano Atlântico por submarinos alemães e italianos.

A campanha submarina do Eixo no Atlântico Sul, trazida pela Segunda Guerra, passou a ter um valor significativo para os brasileiros a partir de 1942 com as implicações causadas às investidas dos U-boots, que causaram enormes perdas navais brasileiras.

O U-507
O maior expoente dessa situação foi a presença do submarino alemão U-507, cuja ação na costa de Sergipe levou o Brasil à guerra devido a sua grande efetividade e foi relatada aqui no blog. O U-boot criou na população, a partir do dia 15 de agosto de1942, um medo coletivo da costa do Brasil, quando o U-507, capitaneado pelo alemão Harro Schacht torpedeou, em Sergipe, sequencialmente as seguintes embarcações: Baependi, Araraquara e Aníbal Benévolo. Os êxitos do U-507 que causaram a morte de centenas de brasileiros ganharam notoriedade na Alemanha nazista. Já na vida cotidiana da capital se Sergipe o U-boot esteve nas conversas de bar, nos jornais, nas rádios, em cada um dos lares da cidade.

O U-507, submarino alemão do Tipo IX tinha grande autonomia. Era composto por tripulação de 53 homens, podia levar até 12 torpedos, possuía seis lançadores de torpedos, sendo que dois eram na popa, tinha ainda: um canhão de 20mm, uma metralhadora antiaérea de 7,9mm e um canhão na proa de 105m. Fonte: http://cafehistoria.ning.com/

O conjunto dos navios soçobrados pelo submarino alemão U-507, entre o litoral de Sergipe e da Bahia, representou um dos momentos mais dramáticos vividos pelos brasileiro, a população ainda se imaginava neutra e distante do conflito global, mas com o torpedeamento, esse pensamento mudara, haviam sinais de que a guerra tinha chegado ao país. Os inimigos estavam infiltrados e precisavam ser combatidos por um lado, por outro, o Brasil também se tornava inimigo dos alemães e italianos.

Além da história política e militar, percebe-se que essa catástrofe ficou na memória da população por causa dos resultados das investida do submarino. Chegam até a costa os símbolos da batalha naval: sobreviventes desesperados, corpos deteriorados, mercadorias avariadas, destroços do barco, pertences dos passageiros e tripulantes. Era um desdobramento do conflito que feria amigos e parentes, o que era anteriormente distante se tornava uma realidade para a sociedade sergipana. Os submarinistas estrangeiros se movimentaram livres pela costa, afundando navios, como também, matando famílias inteiras ou deixando outras incompletas. Muitos moradores não tinham dificuldades em identificar um parente ou um conhecido que desapareceu vítima do submarino alemão U-507.

Os ataques do submarino alemão U-507, capitaneado pelo alemão Harro Schacht, foram registrados próximos à terra firme. Por causa disso os sergipanos tinham que lutar contra inimigos escondidos debaixo d’água, aos quais não tinham a menor ideia de como se defender, a qualquer momento prestes a atacar ou a desembarcar a "máquina infernal". Travaram-se batalhas contra o desconhecido, o estranho, o invisível. Essa revelação macabra, alimentada por informações provenientes de relatos jornalísticos das agências internacionais ou dos programas radiofônicos, assustou os aracajuanos. Manchetes da imprensa sergipana diziam: “a guerra já chegou entre nós”, “selvageria sem precedentes”; “metralhados nossos patrícios”; “o Aníbal Benévolo foi partido ao meio”; “Sergipe nunca em sua vida presenciou cenas tão tristes como nestes dias”. “De luto o Brasil. Reina a consternação em todo território sergipano”; “atentado vil e covarde contra nossa soberania”; “as incríveis barbaridades do nazismo”; “a nefanda ação do eixismo”; “não há mais que esperar, Brasil!”.
 Jornal do Brasil - Rio de Janeiro - 19.08.1942. 
Fonte: http://www.u-507.com.br/

As notícias não demoram a chegar ao cais do porto de Aracaju trazidas por pescadores. As informações dos sucessivos naufrágios causara profunda consternação entre os aracajuanos a ver o submarino como uma ameaça real às suas vidas. Os U-boots simbolizavam maior perigo às unidades da Marinha e aos pescadores oceânicos, mas não às cidades, povoados ou colônias de pescadores. Porém a constante chegada de informações causava medo coletivo que evidenciava que a população costeira não tinha um entendimento pleno sobre o alcance da navegação submarina.

O navio depois alvejado, em poucos minutos era engolido pelo mar. Mas para os sobreviventes e o restante da população, esse “tempo curto” se transformou em “longo trauma”. As memórias dos náufragos foram apropriadas pelos moradores da zona litorânea. O que ficou foi relatos dos feridos chegando macilentos e esfarrapados vítimas da tragédia que refletia nos olhos cheios de espanto e angústia.
Corpos chegaram ao litoral sergipano. Fonte: http://www.u-507.com.br/
Cadáveres que chegam às praias sergipanas, com olhos de quem morreu cheio de espanto. O cheiro de putrefação dos cadáveres que grudava nas roupas de quem tentava ajudar. O que se construiu naquelas mentalidades foram imagens terríveis nas praias alimentadas pelo medo do desconhecido, pelas histórias dramáticas dos náufragos e da gravidade das ocorrências bélicas. A costa sergipana ganhou a fama de ser “um lugar de submarinos”. Os marinheiros brasileiros passaram a temê-la com razão.

Os Inimigos Entre Nós
Em meio ao caos gerado pelo perigo representado pelo submarino, os sergipanos encontraram outros culpados em seu cotidiano: o quinta-coluna, os camisa-verde, o boateiro e o espião. Nessa batalha contra esses, o imaginário social criou o clima de desconfiança.

Acreditava-se que o quinta-coluna agia sorrateiro no interior da sociedade brasileira a favor do Eixo. Após o afundamento dos navios, o espírito de retaliação enfardou milhares de homens e mulheres do Brasil. Era evidente a ação de células de espionagem do Eixo no Brasil, mas o olhar de desconfiança social estava impregnado de inveja, de intolerância, de raiva, de cobiça, de preconceito, de oportunismo, de prazer, de retaliação e não apenas de dever patriótico, como afirmava o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda). Isso incentivou a perseguição a grupos suspeitos e discriminar os estrangeiros taxados de “eixistas”. A aversão dos aracajuanos se voltava principalmente sobre os estrangeiros, destacando-se principalmente os italianos e alemães. Cidadãos de origem estrangeira que foram presos em Sergipe acusados de pertencer a Quinta Coluna.

Um estrangeiro, ou suspeito de “quintacolunismo” corria sérios riscos de agressões, tanto físicas, quanto morais, podendo até mesmo temer por suas vida. Diversos estragos também foram feitos em residências de estrangeiros. As agressões partiam de grupos isolados ou conjuntos, feitas na maior parte das vezes por estudantes secundaristas do colégio Atheneu Sergipense.

Esse temor serviu para fortalecer a ditadura do Estado Novo. Nesses tempos difíceis de ditadura varguista, a tragédia naval foi apropriada pelo DIP a fim de promover o governo, ao explorar o fervor patriótico: “Sergipe contribuiu para o fortalecimento da unidade nacional” ou “o Brasil é um só”.

Os Ataques
A propaganda governista.
Diário de Notícias -  (22.08.42).
Fonte: http://www.u-507.com.br/
Em cada torpedeamento, a história não se repetiu, pois o evento bélico se revestiu de dimensões implícitas, envolveu diferentes tipos de barcos, apresentou circunstâncias espaciais singulares e contou com experiências individualizadas e coletivas. Entre os dias 15 e 16 de agosto de 1942, período em que foram afundados os navios Baependi, Araraquara e Aníbal Benévolo pelo submarino alemão U-507, foram perdidas 549 vidas. Em 1943, novamente, outros navios foram alvos da ação de U-boats nas águas de Sergipe, ocasionando mais 30 mortes. No dia 1º de março desse mesmo ano, na altura da foz do rio Real, foi torpedeado o navio de bandeira norte-americana Fitz-John Porter pelo submarino alemão U-518, havendo duas mortes. O Bagé foi o último mercante a ser torpedeado em Sergipe. No dia 29 de julho de 1943, o navio mercante foi afundado pelo submarino alemão U-185, perecendo 28 pessoas nesse ataque.

 O Araraquara, náufragos do Baependi viram a explosão e o seu afundamento.
Fonte: http://www.infonet.com.br/

 O Baependi - 270 mortos no seu  naufrágio.
Fonte: http://www.infonet.com.br/
O Ánibal Benévolo.
Fonte: http://www.infonet.com.br/
O que mais causou comoção aos aracajuanos foi o naufrágio do Aníbal Benévolo que seguia em viagem oceânica rumo à cidade de Aracaju. Todos sergipanos a bordo do vapor morreram no ataque nazista, criando um luto coletivo e duradouro, devido ao fato de nenhum conterrâneo ter sido localizado. Os naufrágios ocorridos na costa sergipana foram extremamente tocantes no Estado. Centenas de corpos chegaram às praias, junto com poucos sobreviventes. Os principais remanescentes desses naufrágios localizados até os dias atuais foram os restos mortais humanos que chegaram às praias sergipanas em 1942.

A população se aterrorizava com a suspeita de que os submarinistas alemães soubessem da rota naval até o porto da cidade. Embora a ameaça fosse invisível, alterou a rotina dos aracajuanos que se sentiam condição de vítimas da Guerra Submarina. Segundo a imprensa local, os inimigos do lado do Eixo poderiam estar em todos os pontos do mar brasileiro esperando o momento de atacar pela traição, de afundar navios, de matar brasileiros.

Enquanto as investidas dos U-boots não cessavam, os civis contribuíram com a campanha antissubmarina. A defesa da costa de Sergipe se tornou questão de Segurança Nacional. A Marinha do Brasil orientava para que se montasse um Sistema de Defesa Passivo, que influenciava diretamente na sociedade aracajuana. No âmbito militar montou-se uma vigilância costeira, postos de observação foram montados na região litorânea que foi reforçada com a chegada de tropas baianas e gaúchas, além dos marines americanos que realizaram a patrulha antissubmarina. No âmbito civil, pilotos civis auxiliavam buscas pelos náufragos. Os aracajuanos tinham ordens estritas de não cortarem os extensos manguezais que rodeavam o município de Aracaju para manter as barreiras naturais para dificultar o acesso à capital sergipana, caso tropas inimigas desembarcassem nas praias locais. Também instituiu-se o blecaute para que a cidade de Aracaju ficasse invisível as ameaças.

Na iminência de um desembarque inimigo, temor da invasão estava presente até nas autoridades locais, que exigiam em nome da defesa, disciplina e rigor no cumprimento das normas de segurança. Isso gerou episódios de extrema violência por parte da polícia. Veio também o racionamento do querosene, a norma não surtiu efeito porque a madeira era um dos gêneros de primeira necessidade nos lares mais humildes em Aracaju.

Porém, o ponto mais agressivo das restrições foi a proibição dos civis de se apropriarem dos salvados, pois havia uma “cultura dos malafogados”. A palavra malafogado, era tudo aquilo que não tinha afogado completamente, que voltava à tona, trazendo, porém, a marca do mal da grande tragédia marítima. O material recolhido pelos militares foi destinado para a Capitania dos Portos ou para o 28º Batalhão dos Caçadores.

Durante esse período Sergipe não contava com um sistema ferroviário eficiente e com as estradas de rodagem interestaduais inexistentes. Veio o súbito cancelamento das operações destinadas à movimentação de mercadorias de terra para bordo ou dos saveiros para os navios a vapor, ou das embarcações para terra. O comércio estagnou e a safra açucareira nos trapiches ribeirinhos foi junto com ele asfixiado pelo isolamento naval. As imposições causadas pela conjuntura e pelo quadro de penúria que a população vivia em virtude dela motivaram trabalhadores a se unir às manifestações políticas. Assim como os seus patrões, eles também utilizaram os jornais para protestar perante a sociedade aracajuana.

Por fim, pode se constatar que a guerra dos U-boots impôs preocupações militares, despertou conflitos sociais e diferentes sentimentos em Aracaju. Mais do que afundar navios, a passagem dos submarinistas pela costa criaram uma memória própria desse conflito mundial, pois a Guerra Submarina foi e será sempre um misto de bravura e profunda crueldade.

REFERÊNCIAS:
CRUZ, L. A. P. & ARAS, L. M. B. A Cidade dos Malafogados: O cotidiano de Aracaju durante a Guerra Submarina em Sergipe (1942-1945). Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH. São Paulo, 2011.
____________. A guerra submarina na costa sergipana (1942-1945). Navigator, V. 8 nº 15. Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, 2012.
____________. “A guerra já chegou entre nós!”: o cotidiano de Aracaju durante a guerra submarina (1942/1945). Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal da Bahia, 2012.

PORTO, Otávio Arruda, Arqueologia marítima / subaquática da 2 Guerra Mundial: sua aplicabilidade no Brasil. Dissertação (Mestrado em Arqueologia) – Universidade Federal da Sergipe, 2013.