quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A verdade sobre o Seawind - o navio cargueiro que naufragou em Fortaleza

O NM Seawind, dias após seu afundamento. Ainda com a superestrutura em seu lugar em julho de 2012.

O Seawind ancorado no Mucuripe
em setembro de 2011.
Em setembro de 2011 uma produtora da TV Cidade e amiga me convidou para atuar como tradutor em uma reportagem. O assunto: ea questão trabalhista dos marinheiros búlgaros do Navio Mercante (NM) Seawind foi exposto aqui em matéria publicada em outubro daquele ano.


O Seawind era um navio cargueiro que navegava sob bandeira panamenha apesar de pertencer a uma companhia de navegação búlgara assim como também era sua tripulação. Sua história é um tanto curiosa. Seus marinheiros estavam com salários atrasados a meses quando deixaram o porto de Vitória, ES, com o navio carregado com mármore.  Seu destino era algum porto na Itália. Estavam quase sem suprimentos quando fizeram escala em Salvador para reabastecer. Devido a longa espera pelo reabastecimento que atrasou, crustáceos cresceram nas grades das "caixas de mar" que puxam água para refrigeração dos motores. Aí começaram os problemas. Em alto mar as máquinas pouco
refrigeradas esquentaram e quebraram várias vezes prolongando a viagem que deveria durar poucos dias. Após quase duas semanas em mar aberto, com as máquinas avariadas, sem comida e quase sem água potável o comandante Nicolay Simeonov decidiu fundear em Fortaleza.

Marcus (o autor) e o Capitão Simeonov
na cabine de comando.
Mas os problemas dos corajosos tripulantes estavam apenas começando. Seu empregador ofereceu a passagem de volta pra casa, mas deixando o navio perderiam a garantia de pagamento de suas dívidas trabalhistas. No entanto, quatro tripulantes desesperados aceitaram as passagens e voltaram para casa imediatamente, outros três foram mandados depois devido a condições médicas. Os seis que ficaram permaneceram três meses no navio até que a justiça trabalhista brasileira o retivesse como garantia do pagamento de seus salários. Nesse tempo, a escassez de comida os obrigou a pescar e sua condição de vida era precária. Após esse período de agonia marinheiros do sindicato local assumiram o controle do navio para que os fadigados tripulantes pudessem voltar para suas casas.
Os últimos seis marinheiros.

Em junho de 2012, quase hum ano após os últimos búlgaros deixarem o navio, o Seawind começou a afundar lentamente.

Minha teoria é que crustáceos e corrosão tenham provocado infiltrações, possivelmente no sistema de refrigeração que já vinha dando problemas. Mas são apenas especulações, o se sabe é que a popa do navio começou a afundar vagarosamente e poucos dias depois, em 29 de junho o navio afundou completamente. Ninguém morreu ou ficou ferido e o dano ambiental foi mínimo, até porque o navio estava quase "na reserva".
Foto: Ibama.
Fato curioso é que iniciada a operação de contenção de fluidos nocivos ao meio ambiente, os mergulhadores contratados não conseguiam encontrar o vazamento. Chamaram um conhecido caçador subaquáticos da região, o Régis "Doido" que localizou o vazamento e o tampou com uma enorme rolha de madeira!
Durante a operação de contenção, um corte mal planejado na superestrutura localizada na popa provavelmente provocou o seu desmoronamento. Poucos foram aqueles que notaram, mas poucos meses depois de afundar a cabine de comando que ficava acima da superfície arriou para bombordo, desaparecendo da vista da maioria.

Em novembro de 2012 sem a superestrutura.
Poucos são aqueles mergulhadores de naufrágio que tem o privilégio de caminhar sobre o convés de um navio antes de ele afundar e depois mergulhar onde um dia voce caminhou...

Texto e fotos:
Marcus Davis

Fontes:

3 comentários:

  1. Excelente matéria! Você disse bem: poucos são aqueles que podem mergulhar em um navio naufragado, onde já puderam caminhar sobre o convés!
    Parabéns!!

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  2. Qual é o modelo desse navio? Só encontro falando que é bulgaro e de 1986

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