quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Dragão do Mar: Quem foi Chico da Matilde?


Estatua do Chico da Matilde no Centro Cultural Dragão do Mar

Nascido em 15 de abril de 1839, em Canoa Quebrada na Vila de Aracati, o famoso Dragão do Mar foi um homem que se tornou famoso no Estado no fim do século XIX, durante o início dos movimentos abolicionistas no Brasil. Seu nome era Francisco José do Nascimento mas como era filho de Matilde Maria da Conceição, era conhecido como o Chico da Matilde.

Ainda criança perdeu o pai, Manoel do Nascimento, que era um jangadeiro mas que com a alta da borracha no Estado do Amazonas foi para o norte do país a procura de melhoria de vida, mas infelizmente faleceu. Sua mãe, agora viúva, decide deixar Francisco aos cuidados de um senhor que era dono de uma embarcação que realizava transportes na costa nordestina e devido a isso, Chico começou desde cedo a trabalhar nesse meio, principalmente como menino de recados e assim foi convivendo com trabalhadores do mar e a vivenciando o tráfico negreiro desde a infância.

Em 1874 foi nomeado prático da Capitania dos Portos e convivia com escravos, jangadeiros, marinheiros e segundo alguns relatos, apesar de ter se alfabetizado somente aos 20 anos, devido ao seu contato direto com marinheiros de outras nacionalidades, falava inglês e um pouco de alemão.

Também tinha um vasto conhecimento sobre geografia física e navegação, pois como prático do porto, era responsável por auxiliar principalmente embarcações de grande porte a navegar pela costa e a entrar e sair dos portos. Além de entender de navegação, um prático de porto tem que ter conhecimento da geografia física daquele local, pois sua principal função é impedir que as embarcações de grande porte venham a ser danificadas por algum banco de areia, formação rochosa, naufrágio ou até por uma corrente marinha.


O Movimento Abolicionista
Chico da Matilde

Na década de quarenta nos anos de 1800, a base da economia brasileira estava na exploração da mão de obra escrava, naquela época o governo imperial era dominado pelos interesses dos latifundiários escravagistas, mesmo assim, alguns políticos já haviam começado a debater a abolição na assembleia geral. Porque existia um interesse por parte de países como a Inglaterra que tinham um forte comércio e visavam aumentar o seu mercado para arrecadar lucros. Com a abolição dos escravos, aumentaria o número de trabalhadores e consumidores e movimentaria o comércio.

Além das elites letradas da época que tinham um discurso que valorizava os direitos humanos e que visavam acabar com a escravidão brasileira que já vinha diminuindo no Nordeste devido à seca que tornava caro e dispendioso sustento de escravos. Ao decorrer do tempo o governo foi tomando medidas que caminhavam para a abolição, como a criação da Lei Eusébio de Queiroz que proibia o tráfico de africanos para o Brasil.

No Ceará
Com a proibição do tráfico da África para o Brasil se intensificou o tráfico dentro do próprio Brasil, sendo o Ceará um grande exportador de escravos. Nessa época, Chico da Matilde trabalhava como prático da Capitania dos Portos e era proprietário de algumas jangadas e devido a isso convivia com escravos e traficantes de escravos, pois o transporte de escravos era muitas vezes feito por jangadeiros que levavam os escravos até barcos maiores (que precisavam do prático do porto para navegarem com segurança próximo à costa) para serem levados até outras regiões do país.

Fortaleza era sede de várias sociedades abolicionistas nos meados do século XIX, que eram basicamente grupos da elite que arrecadavam fundos para comprar a alforria de escravos e que foram de fundamental importância no movimento abolicionista cearense.

O início da divulgação de pensamentos e atitudes abolicionistas por parte da população do município de Fortaleza foi desencadeada por um dos membros de uma dessas sociedades, da Sociedade Cearense Libertadora, que sugeriu em um discurso no Teatro São Luiz que os jangadeiros poderiam ajudar a impedir o tráfico de escravos.

A partir desse discurso foi proposta uma paralisação dos jangadeiros e que agora não fossem mais embarcados escravos no porto de Fortaleza. Um escravo recém alforriado chamado José Napoleão foi convocado para ser o líder dos jangadeiros no movimento, o representante abolicionista na praia, mas ele se recusa humildemente e indica o Chico da Matilde para essa função. 

Sociedade Cearense Libertadora

Chico da Matilde não assumiu efetivamente a liderança dos jangadeiros porque possuía o cargo de prático do porto na Capitania dos Portos, mas assistiu à paralisação e deixou suas duas jangadas a disposição do movimento. E só alguns meses depois que ele toma a frente da segunda greve dos trabalhadores do porto e participa efetivamente dos movimentos abolicionistas. Mas essa participação não agrada o Presidente da Província do Ceará e Chico da Matilde perde o seu cargo público na Capitania dos Portos.

Após essa série de acontecimentos, Chico da Matilde se agrega a uma dessas sociedades abolicionistas e passa a ser uma referência do marco da resistência popular. Unido aos demais integrantes da sociedade abolicionista, alforriam todos os escravos da Vila do Acarape que após esse movimento ganhou o nome de Redenção, que é conhecida por ser a primeira cidade no país que aboliu a escravidão.


Representação do Dragão do Mar entre as jangadas


A abolição dos escravos da Vila do Acarape foi seguida por uma série de movimentos abolicionistas que fez com que em 25 de março de 1884 fosse abolida a escravidão em toda a província do Ceará. Após essa data, a província do Ceará se tornou uma referência nacional em relação a abolição, e os integrantes dos movimentos abolicionistas cearenses foram convidados a se reunir no Rio de Janeiro para falar sobre a abolição da escravidão na província do Ceará, e foi nesse momento que o Chico da Matilde ficou conhecido como o Dragão do Mar e a província do Ceará ficou conhecida como Terra da Luz.

Fim de sua vida
Existem diferentes versões sobre o vida do Chico da Matilde após o sucesso movimento abolicionista cearense até a sua morte. Alguns estudiosos relatam que após esse momento de glória e intensa participação em movimentos revolucionários, Chico da Matilde perde muito de sua fama. Que apesar de seu envolvimento com a Sociedade Cearense Liberta e o título de um verdadeiro herói popular, perdeu o seu emprego e passou a seguir a vida como seu pai, vivendo com base na pesca.

Enquanto outros dizem que por ordem de Dom Pedro II ele foi reconduzido ao cargo de prático da Capitania dos Portos em 1889 e que pouco tempo depois, durante o regime republicano, recebeu a patente de Major-Ajudante de Ordem do Secretariado Geral do Comando Superior da Guarda Nacional do Estado do Ceará.

Chico da Matilde morreu aos 75 anos de idade, no dia 5 de março de 1914, naquele dia ele não foi lembrado como um dos líderes da abolição, pois Fortaleza estava passando por um momento de revolução política que era liderada por Padre Cicero e outros homens influentes que visavam a deposição do atual governador do Ceará, Franco Rabelo.

Apesar de não termos conhecimento exato de como Chico da Matilde viveu seus últimos anos de vida, sabemos que ele não recebeu a devida atenção após sua morte, mas mesmo assim, não podemos deixar de ressaltar que o Dragão do Mar foi e continua a ser um verdadeiro ícone na cidade de Fortaleza. O Centro Cultural Dragão do Mar tem esse nome em referência a esse homem que se tornou um representante do movimento abolicionista cearense, o Dragão do Mar também deu nome à rádio, farmácia, escola, rua e prédios públicos no Estado.

Nota
Apesar de falarem que o Dragão do Mar é um mito e o texto comprovar que ele não foi o mentor do movimento abolicionista cearense e que sozinho não teria movido a abolição. Acredito que esse herói popular não perde o seu mérito. Pois afinal, Chico da Matilde participou do movimento abolicionista cearense, foi o líder dos jangadeiros e foi o representante do Ceará em um encontro no município do Rio de Janeiro sobre o movimento abolicionista brasileiro.


Referências:
https://www.youtube.com/watch?v=Pju_WvYfhp8
https://www.youtube.com/watch?v=k-_otlBt4Ds
http://www.dragaodomar.org.br/concurso_text.php
http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/caderno-3/mito-do-heroi-jangadeiro-1.701370
http://anpuh.org/anais/wp-content/uploads/mp/pdf/ANPUH.S25.0389.pdf

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