segunda-feira, 1 de abril de 2013

O Primeiro Mergulho com Escafandro Registrado no Brasil

O primeiro mergulho com escafandro que se tem notícia no Brasil foi realizado por um inglês.

Anthony Knivet era uma jovem inglês que, a procura de aventura, embarcou com o pirata Thomas Cavendish para uma viagem de volta ao mundo em busca de riquezas. No entanto, como era comum nos idos de 1590 a viagem sofreu vários revezes e Anthony acabou aprisionado por colonizadores portugueses que habitavam a costa brasileira. Passou quase uma década como escravo antes de conseguir retornar à Inglaterra.

Knivet deixou um relato importante sobre suas aventuras e passagens pelo Brasil colonial em obra intitulada  As Incríveis Aventuras e Estranhos Infortúnios de Anthony Knivet, recentemente publicado pela editora Zahar e organizado por Sheila Moura Hue. Esta obra trata-se de um relevante testemunho do Brasil colonial e seus primeiros habitantes. Apesar de um tanto fantasiosa, trata-se de um dos poucos documentos descritivos do Brasil colonial.

Em  uma das passagens de seu relato, Knivet narra um mergulho com um escafandro rudimentar para resgatar peças de artilharia que teriam ido parar no fundo da Baía de Guanabara após o deslizamento de um forte devido a força do mar. Leia o relato de Knivet sobre o primeiro mergulho com escafandro supostamente realizado no Brasil em 1597:

"(...) O governador ordenou, às suas próprias expensas, que se construísse um forte sobre uma pedra que ficava na entrada do porto [a Fortaleza da Laje]. No entanto, ficava tão perto da margem que três meses depois de pronto o forte, o mar o destruiu, levando toda a artilharia que la se achava.(...) Esse homem [um inglês chamado Andrew Towers] propôs-se a criar um artifício para resgatar as peças de artilharia do fundo do mar. Era assim: mandou fazer uma roupa de couro, toda recoberta de graxa e piche, de modo que água nenhuma pudesse penetrá-la. Então ele mandou fazer um capacete muito grande todo coberto de piche. com um nariz grande onde colocou três balões de ar, e na boca dois. Ele me convenceu a tentar mergulhar no mar vestindo aquilo, dizendo-me que seria muito bem recompensado, eu arriscaria minha vida na tentativa. Então ele avisou ao governador que, se fosse bem pago, eu arriscaria minha vida. O governador me chamou e disse: 'Vou te dar dez mil coroas e um passaporte para voltar à tua terra, ou para onde quiseres ir, se enganchares essa argola na boca de um dos canhões.' Eu disse a ele que tentaria fazer o melhor possível, com a ajuda de Deus.
     Depois que a roupa ficou pronta, a maioria dos portugueses se dirigiu para o lugar onde as peças de artilharia tinham afundado e, com grandes solenidades, rezaram a Deus para que me desse sorte. Uma vez dentro da roupa de couro, fui jogado no mar e afundei cerca de dezoito braças, com uma pedra enorme amarrada na cintura. O capacete era tão grande, todo coberto de piche e alcatrão, que, enquanto o peso da pedra (que era muito grande) me puxava para baixo, a água me puxava para cima de modo que parecia que eu acabaria despedaçado pela corda amarrada na minha cintura. Quando me vi em tais apuros, tomei a faca que trazia amarrada na mão e cortei a corda. Assim que subi a tona arranquei os balões de ar de meu rosto e cortei a roupa , pois estava a ponto de sufocar, e por um mês depois disso fiquei desorientado."

Fonte:
HUE, Sheila Moura; As Incríveis Aventuras e Estranhos Infortúnio de Anthony Knivet, editora Zahar.

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