quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A Lagosta no Ceará: do desprezo ao declínio


Lagosta Cabo Verde


Um breve resumo da exploração comercial da lagosta no Ceará

Quem diria que há 60 anos atrás nossas praias eram infestadas de lagostas, animal que hoje é difícil de se ver até em águas mais profundas. Isto só acontecia porque as lagostas eram desprezadas como alimento pelos cearenses da época. Já naqueles tempos a lógica dos pescadores ainda que inocente tinha algo de preservacionista: não se comia as lagostas pois elas eram consideradas as "mães" dos camarões e se as pescassem não haveria mais camarões, crustáceos já explorados comercialmente na ocasião.

A lagostas andavam livremente pelas praias e pelos recifes a beira mar do Mucuripe e Iracema. O absurdo é tanto que as vezes era necessário até espanta-las! Foi somente em 1952 com a chegada do casal francês Charles Dell'Eva e Lúcia Paulette Dell'Eva que essas iguarias passaram a ser consumidas pelos fortalezenses. A historia da família Dell'Eva dá um artigo a parte: veterano da segunda guerra, Dell'Eva veio ao Brasil por acaso quando partira da França em busca de novas oportunidade em Caracas, na Venezuela. Vieram a bordo do pequeno barco Bluette e aportaram no Maranhão. Depois de algumas empreitadas o casal fora convidado para trabalhar no restaurante do Náutico Atlético Cearense, clube que na época era um local de prestígio na sociedade onde se reunia a nata da "aristocracia" cearense. Depois de alguns anos como chef do resturante Náutico, Charles recebeu uma proposta irrecusável do Ideal Clube, concorrente do Náutico. Resolvidas as formalidades o Ideal passou então a ser alvo de manchetes dos jornais da época em que exaltavam as habilidades do chef francês. Este casal francês também foi responsável pela criação do restaurante "Lido", na Praia de Iracema.

Em 1955 apareceu por estas bandas o norte-americano Devis Hakerman Morgan, ex-coronel da Força Aérea America que serviu no nordeste durante a II Guerra e que explorou ilegalmente a lagosta, exportando toneladas principalmente para a França onde era amplamente valorizada. Seja como for, Morgan montou a primeira empresa de beneficiamento do crustáceo no país e em menos de cinco anos já existiam pelo menos outras sete.

Não se sabe ao certo mas provavelmente entre 1956 e 1958 naufragou próximo ao quebra-mar do Titan que na época ainda estava sendo construído, um barco com cerca de 30m de comprimento chamado Denise que trazia consigo seis ou sete imigrantes europeus. Esses náufragos viajavam com destino a América Central mas alguns dias após terem partido da Europa seu motor explodiu e a embarcação ficou a deriva. Passaram cerca de 50 dias a mercê das correntes quando se chocaram contra o espigão do Mucuripe durante a noite. Acolhidos pela família Dell'Eva, entre eles estava um outro francês chamado Paul Mattei que logo foi convidado para trabalhar no restaurante da família. Mattei não demorou a perceber a oportunidade de negócio, conseguiu alguns investidores e montou sua própria empresa de exportação de lagosta.

Assim como os Dell'Eva e apesar de ser uma figura controversa, Paul Mattei é considerado um dos responsáveis pelo desenvolvimento da indústria da lagosta no Estado. O desenvolvimento foi tanto que logo os franceses que eram nossos principais clientes se interessaram em explorar o pescado. No início da década de 60 pescadores franceses eram avistados com frequência pescando em nossas águas. Este fato gerou um entrave que ficou conhecido como a Guerra da Lagosta.
Lagosta ovada. Foto Marcus Davis.

Hoje o crustáceo não é mais abundante. Na verdade é até difícil de encontrar em áreas costeiras sendo necessário se afastar dezenas de quilômetros para vermos algumas. O comércio da lagosta hoje está em declínio no Ceará. As histórias daquela época sobre a abundância de espécies marinhas parecem hoje irreais. Métodos de pesca ilegais, desrespeito aos períodos de defeso são apenas alguns fatores que contribuem para o sumiço da lagosta e de outras espécies. Devemos lembrar que os vários métodos e pesca são apenas meios para saciar a demanda do crescente e desenfreado crescimento populacional que necessita cada vez mais alimentos. Os prognósticos não são muito favoráveis ao meio ambiente.


Fontes:
Caravelas, Jangadas e Navios - Uma História Postuária; Rodolfo Espinola; Editora Omni 2007.

3 comentários:

  1. Olá Marcus ! Que belíssima postagem, maravilhosa, meus parabéns ! além de ser uma linda homenagem prestada aos meus pais Charles e Lucia Dell'Eva, espero que seus escritos sejam lidos por muitos, e que alguns tomem conhecimento et principalmente conciência sobre o real significado sobre a preservação da lagosta e outras espécies em total extinção. O que fazem os orgãos competentes a este respeito ? Meu pai teve muitos barcos lagosteiros aqui em Fortaleza, suas lagostas chegavam a pesar 1kg ou bem mais; os pescadores timham a obrigação de devolver ao mar lagostas ovadas ou em fase de crescimento (pequenas) e se não o fizessem eram despedidos! Esta é a regra numero 1, a segunda respeitar o período da desova...Hoje só existem lagostas "bébés" pois não as deixam crescer, como procriar então ?
    Um abraço carinhoso e mais uma vez parabéns, sua história está perfeita e resume o essencial!
    Joanna Dell'Eva - Fortaleza - 16-02-2012

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  2. Boa reportagem Marquinho, resumida e totalmente elucidativa. Apesar da luta já ser antiga, nunca e demais relembrar a história e o desrespeito com a nossa fauna.
    Parabéns e um grande abraço.
    Lindemberg Pires.

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  3. Prezado Marcus:
    Belo artigo, como pesquisador envolvido com o tema, há mais de 34 anos, em pleno curso de doutorado em Engenharia de Pesca, tudo e sempre tratando da pesca de lagostas, gostaria de trocar mais ideias e informações com você. Paulo Lira (85) 9171-1010 ou paulolira1@hotmail.com

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