domingo, 11 de maio de 2014

O Avanço do Mar no Litoral Cearense

Por Paula Christiny.

Parajuru. Fonte: Diário do Nordeste.

Um sonho comum à muitas pessoas é uma casa de frente para o mar. O que foi a realização de um antigo desejo, para muitos, atualmente, é motivo de temeridade no litoral cearense. Isso se deve à destruição causada pelo avanço do mar em alguns pontos do Estado. Diante dessa ameaça, que se apresenta cada vez persistente, levanta-se a questão sobre o que levou a constituição desse cenário. 

O avanço do mar não é um fenômeno exclusivo do litoral do Ceará, sendo registrado em 17 Estados brasileiros banhados pelo oceano Atlântico. Em alguns locais esse aumento acontece em velocidades e intensidades não naturais, diminuindo de maneira significativa a faixa de praia, causando mudanças na geografia do litoral. Com o quadro que se apresenta haverá alterações ainda maiores nos próximos anos. 

É importante entender que o processo de erosão no litoral é um complexo, resultado da junção de fatores naturais e intervenções humanas. Em períodos onde a incidência de ventos é mais forte, as marés estão mais altas e há mudanças de temperatura é que se têm as condições favoráveis para esses fenômenos. Une-se isso à erosão naturalmente provocada pela disputa por espaço entre o mar e as cidades do litoral e à ocupação urbana desordenada. 

O que se vê no Estado do Ceará, é que ao longo dos anos a ocupação do litoral foi feita sem o devido ordenamento, com intensa ocupação urbana da linha de praia por edificações privadas. Como resultado da especulação imobiliária e desrespeito às leis da natureza, se têm efeitos catastróficos. Construções à beira-mar, casas, hotéis e pousadas são atacadas ferozmente pela força do mar, que chega a consumir até calçamentos e pavimentos. Com isso, todo o turismo da orla marítima é prejudicado pela diminuição do número de frequentadores das praias. No geral o que se vê é um cenário de desolação e abandono. 
Mapa da erosão no litoral.  Fonte: Diário do Nordeste. 

O litoral precisa do uso moderado de seus componentes. Não se pode construir ao longo de uma faixa de 30m, é a definição do espaço de praia contados a partir da maré alta. A legislação existe, o que falta a ser respeitada. A Lei de Crimes Ambientais, Lei nº 9.605 de 12 de fevereiro de 1998, trata das sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente. No Art. 54 ela tipifica como crime punível com pena privativa de liberdade reclusional prática que dificulte ou impeça o uso público das praias.

Antigos moradores são saudosistas sobre o que eram as praias de antigamente. Pescadores estão desenganados, pois veem diariamente a alteração dos seus modos de viver, remoções e os prejuízos sofridos a cada alta da maré. O que se pode ver é que essa questão, além de um fenômeno natural, implica em questões econômicas e sociais. Outras consequências desse avanço, não muito comentada pela mídia, é a alteração dos ecossistemas costeiros. Os manguezais podem ser afogados durante uma elevação do mar, alterando a dinâmica desses ecossistemas e influindo negativamente no ciclo de vida marinha.

Como exemplos, no Ceará pode-se citar alguns locais. A praia do Icaraí é uma das que mais tem sofrido com a erosão. Muitas calçadas, condomínios e outras construções na faixa de praia estão sendo levadas pelas águas, até a proteção contra ondas foi em parte destruída pela força das ondas. Na praia de Parajuru, em Beberibe, é das mais ameaçadas de todo do Estado. Barraqueiros já desistem de suas atividades e procuram outros locais. Já em Icapuí a situação é catastrófica, o mar levou colégios, casas, barracas, isso sem falar nos prejuízos pela interrupção do turismo. Em Iparana, apenas 12 anos, sumiram 300 metros de praia, a deixando em avançado estado degradação. Antes ela eram umas mais frequentadas, hoje não se muitos locais próprios para banho.

Praias afetadas pelo avanço do mar.  Fonte: O povo.

Em Fortaleza, na última de ressaca do mar a força da maré levou água e areia à Avenida Beira Mar, gerando congestionamento de veículo na região e dificultando o passeio de pedestres. O avanço inicial do mar se deu a partir da construção Porto do Mucuripe, que desviou sedimentos para áreas como a Praia de Iracema e o Pirambu. Depois da construção de espigões na Capital, mas a erosão foi transferida para praias de Caucaia.

Depois de toda essa situação ter sido agravada pela intensa urbanização, o que se vê é uma verdadeira batalha de moradores e empresários tentando amenizar esse processo. Tentando reverter o cenário, moradores e empresários se juntam para fazer barreiras com pedras e sacos de areia visando reverter o avanço do mar. Mesmo assim, na alta da maré, as águas chegam tão fortemente que arrastam tudo que há pela frente.

Por outro, o poder público, sob pressão de empresários e da comunidade, faz investimentos milionários para impedir a erosão. São exemplos destas ações, a construção do bag wal, uma espécie de dominó de pedras que funcionam como barreia, também de espigões e quebra-mares. Essas obras, segundo estudiosos do Instituto de Ciências do Mar LABOMAR, podem não surtir o efeito desejado. Projetos sem o conhecimento técnico necessário e agindo de forma pontual, sem pensar em perspectivas futuras não trarão resultados positivos, como já vem acontecendo, afirmam os pesquisadores.

Bag Wall no Icaraí. Fonte: Diário do Nordeste.

É importante entender que o processo de erosão no litoral é complexo, resultado de fatores naturais e humanos. Para se reverter esse quadro, devem ser feitas ações planejadas que aprendam a lhe dar com os aspectos da natureza, como a dinâmica costeira e vegetação litorânea. Mais do que barreiras contra as águas são fundamentais obras de requalificação do litoral e o uso consciente da faixa de praia. Além disso, é fundamental, uma constante fiscalização do cumprimento das leis. Assim, poderá se ter uma convivência saudável entre natureza e homem.


Para saber mais:
Site do LABOMAR: 

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