quarta-feira, 13 de julho de 2016

O navio negreiro inglês Black Prince e o motim na costa do Siará


Mapa antigo da Costa do Ceará.
Navios afundam e o tempo passa. Seus fatos, relatos e estórias incríveis de luta e resistência no mar são perdidos em bibliotecas escuras e empoeiradas até que são redescobertos e trazem para nossos tempos suas memórias muitas vezes cruéis.

Uma mensagem de um amigo pesquisador, Clécio Mayrink, dizia: "Olha isso", seguido de um arquivo. Clécio me passou um artigo de 1890 de autoria do historiador Guilherme Studart que discorria acerca das necessidades de defesa da "Villa de Fortaleza" e do desembarque e naufrágios de navios estrangeiros no litoral cearense. Studart relatou especificamento os casos do naufrágio de "Cajuaes" que será explorado em outro artigo, e do navio inglês Black Prince durante o governo de Antonio José Victoriano Borges da Fonsceca.
Imagem ilustrativa

As informações apresentadas revelam que três navios estrangeiros (dois ingleses e um francês) passaram, e dois deles naufragaram, no litoral cearense. O navio negreiro inglês Black Prince comandado por "William Hawkins" e pilotado por "Thomaz Austin" partiu de Bristol em em 8 de novembro de 1768 e "veio a arribar ao Ceará" segundo uma carta do Conde de Povolide (22 de março de 1769), e foi, dos três, aquele que escapou do naufrágio e do qual trata este artigo

O Black Prince era um navio mercante negreiro mas não se sabe se seu nome (Príncipe Negro) era uma ironia a função ou referência às características físicas da embarcação. Como mercante negreiro o navio fez várias viagens à Africa. Algumas dessas viagens estão bem documentadas como uma feita em 1767 em que uma "carga" de 169 escravos foi comprada no "Senegâmbia" e entregue em Saint Louis, a colônia britânica na America do Norte, e dos que embarcaram apenas 150 chegaram com vida ao destino. Noutra viagem de 1762 o diário de bordo do navio está completamente preservado:
30 de junho ... as 3 da manhã o barco maior veio a bordo com 17 barris de água e alguns negociantes com dois escravos homens...
17 de julho ... Meu negro [seu servo negro] chamado John Prince deu uma resposta impertinente ao Sr. Thomas, terceiro oficial, e por isso estou dando a ele uma punição... pus ele nos ferros, dei uma surra nele no 4o convés e pus ele a dieta de pão e água...
dois escravos, Intregue pôs a maioria dos homens nas correntes para prevenir sua intensão...
22 de fevereiro ... descobri que os escravos estavam planejando se revoltar, botamos todos eles na mira das armas e os aquietamos, um grande número conseguiu quebrar as correntes...

O navio já havia feito mais de 10 viagens para o lucrativo e cruel comércio de escravos quando deixou o porto pela última vez sob a bandeira britânica em 1768. Partiu com seus 44 membros da tripulação entre marinheiros e oficiais e, a menos de uma semana de atracar em seu destino, sua tripulação tomou o controle do navio! Não foi o primeiro motim a bordo do Black Prince, mas foi o primeiro em que os amotinados tiveram sucesso em tomar o navio. O capitão William Hawkins e outros nove membros fiéis foram colocados em uma das embarcações de apoio e largados no Atlântico Sul. Foram forçados a utilizar ao máximo suas habilidades marítimas para retornar à segurança da terra firme.

Os amotinados então pintaram o navio, mudaram o nome para "Liberty" e rumaram para a costa do Brasil onde chegaram pelo nordeste à altura da capitania do "Siara". Parece que já naqueles tempos o Brasil era um bom refúgio para criminosos. Os revoltosos precisavam de mantimentos para seguir viagem e encontrar terras espanholas onde estariam seguros. Ingleses e espanhóis estavam em disputa pelo domínio dos mares do sul e logo os traidores estariam seguros junto aos inimigos da "coroa". 

Para conseguir provisões e continuar a viagem os piratas ingleses venderam na "Villa de Fortaleza" parte da carga que seria originalmente destinada ao comércio negreiro. E enquanto alguns dos seus (inclusive aquele escolhido como o líder do grupo) estavam na praia negociando com os "siarenses" os outros que ficaram embarcados cortaram o cabo da âncora e abandonaram seus colegas. Sabe-se que pelo menos sete foram deixados (ou abandonaram voluntariamente o grupo) no Brasil.

Em seguida os amotinados embarcados tomaram a direção das terras espanholas no caribe, ao norte. Não sem antes fazer vários disparos contra a cidade e perseguir um escuna ainda em mares alencarinos. Os disparos podem ter sido feitos a fim de inviabilizar uma possível força de reação à perseguição da escuna e ao golpe comercial. Pouco se preocuparam com os colegas ingleses deixados na praia a mercê de portugueses furiosos.

Não se sabe ao certo o que aconteceu com a tripulação de revoltosos se conseguiram ou não chegar à "Hispaniola". O The London Gazzete publicou em 29 de agosto de 1769 uma oferta de recompensa de 100 pounds para qualquer pessoa ou pessoas que trouxessem informações que levassem a captura e condenação dos traídores.

Entre os que foram abandonados no Siará segue descrição conforme a publicação da oferta de recompensa das autoridades no The London Gazzete:
William Sullivam, ou Solomon. um homem baixo e magro, rosto suave [pouco marcado], olhos castanhos, pele moreno clara, usa seu próprio cabelo [os nobres ingleses usavam perucas brancas], mais ou menos 25 anos de idade
George Meager, um homem de estatura muito alta, com o rosto [muito] marcado por cicatrizes, pele morena, usa cabelo curto, mais ou menos 30 anos de idade
Henry Beach, escolhido como Capitão [dos amotinados], um homem de estatura pequena e magra, pele morena, rosto pouco marcado, usa cabelo curto, mais ou menos 30 anos
Philip Thompson, um negro de estatura pequena e magra, cicatrizes próximas ao nariz, aproximadamente 5 pés e 4 polegadas [aprox. 1,75m] de altura, mais ou menos 26 anos de idade
Benjamin Rice, escolhido [pelos amotinados] como timoneiro, um homem de estatura pequena e magra, rosto suave [pouco marcado], pele morena clara, usa seu próprio cabelo longo, mais ou menos 28 anos de idade
John Holden, um homem alto e magro, com o rosto muito marcado e pele morena escura, usa seu próprio cabelo preto e longo, mais ou menos 30 anos de idade
Teriam sido presos? Enviados para o Reino? Executados em praça pública? Ou construído uma pousada em Canoa Quebrada?

STUDART, Guilherme;  Antonio José Victoriano Borges da Fonsceca, e seu governo pelo Dr. Guilherme Studart. Instituto do Ceará, ano IV, 3o trimestre de 1890, tomo IV. 

2 comentários:

  1. ótima matéria,os professores de História e Geografia poderiam utilizar a página de vocês como material didático complementar.

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    1. Olá!
      O nosso objetivo maior é informar, trazer conhecimento sobre nosso mar e nossa história!
      Obrigado por ler, comentar e elogiar!

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