quinta-feira, 4 de março de 2010

U-164: Um Relato Sobre o Primeiro Submarino Afundado na Costa do Brasil Durante a II Guerra Mundial

     O submarino alemão 164, ou Underseeboat 164, foi o primeiro afundado na costa brasileira. O fato se deu em 6 de janeiro de 1943 quando o submarino foi avistado por Billie Goodell, um engenheiro de vôo, mecânico e canhoneiro oficial de um avião catalina norte-americano, enquanto voltava de uma missão. O U-164 afundou ao largo da costa do Ceará.

(Posição estimada do afundamento do U-164, US Navy.)      

Leia a seguir os comentários de Billie Goodell sobre ao fundamento do U-164:

     Você deve ter lido diferentes relatos sobre o primeiro afundamento realizado pelo nosso esquadrão [VP-83]. Bom, como era “meu avião" digo aqui como foi. Nós estávamos cobrindo uma área ao norte de um comboio de aproximadamente 50 navios. Quando estávamos ao largo da costa de Belém fomos rendidos por um outro esquadrão que veio nos substituir. Então pousamos em Belém para abastecer e passar a noite. O piloto era o lt. Ford” e o co-piloto o ltjg. Dawkins. Nos encontramos no avião na manhã seguinte o Sr. Ford perguntou a nós se queríamos voltar [voando] sobre a selva ou sobre o mar.
     Como não houve resposta ele decidiu no “cara ou coroa”. O resultado foi a rota sobre mar. Decolamos e seguimos para o sul. A tripulação estava cansada das longas horas que passamos no ar nos dias anteriores então dissemos a eles para dormir um pouco e descansar. Nesse meio tempo eu estava na estação posterior sentado próximo a metralhadora .50 [que ficava dentro do avião e atirava através de portinholas sob a asa].
Nós estávamos voando a 3.000 pés [cerca de 1000 metros] sobre mar aberto. Eu estava com um par de binóculos tentando ver a linha do horizonte, onde o céu e mar se encontram. O céu estava um tanto nublado, mas eu conseguia ver “pedaçinhos” de mar azul de vez em quando. Em uma dessa aberturas avistei um rastro branco e um submarino ao lado de onde estávamos. Chamei lt. Ford e disse que tínhamos um sub às 11 horas. Ele disse que não o tinha localizado ainda. Eu já tinha desamarrado a metralhadora quando fizemos uma curva suave à esquerda e pôs o [nosso] “Catalina 83P2” em um mergulho íngrime. 
     Ele [o piloto] o havia localizado e estava indo direto para a morte [do submarino]. Eu comecei a atirar com a metralhadora [da portinhola] que ficava sob a asa. Nós podíamos ver a tripulação no convés, a maioria estava tomando banho. Eles tentaram armar os canhões de convés, mas nunca conseguiram. Lt. Ford lançou duas cargas de profundidade uma de cada lado [do submarino]. Eu continuei atirando enquanto as bombas explodiam o submarino levantou a partiu-se no meio. Fizemos uma curva suave e eu continuei atirando.
     De repente uma mão no meu ombro me puxou e disse “Bill, você está matando os sobreviventes!”. O Sr. Ford desceu para cem pés e ficou voando em círculos [sobre os sobreviventes]. Um rapaz estava agarrado a um tanque de algum tipo e outro nadava em direção a ele. Havia alguns corpos na água, muito óleo e destroços. A água começou a ficar agitada. Passamos novamente sobre eles e eu joguei um bote salva-vidas pela lateral do avião. A correnteza o levou pra longe deles então voamos contra o vento e eu joguei o nosso ultimo bote. Ele se inflou e os dois homens subiram a bordo. Peguei uma lata d’água, amarrei um colete salva-vidas ao redor dela e joguei para eles. Ficou agitado e perdemos o bote de vista. Transmitimos a posição da balsa pelo rádio e seguimos para Fortaleza. Nós pousamos com aproximadamente 8 galões30,29 litros – de gasolina.
     Eu tinha atirado [acidentalmente] na antena [do avião] pela portinhola da sob a asa e nós tivemos que consertá-la.
     Lt. Ford fez reservas na cidade e nós todos fomos. Estávamos todos sentados em uma mesa grande comento o jantar da vitória. Ao final da refeição eu olhei pra cima e nunca vi tanto [medalhas de] latão.
Eu pedi atenção e todos nós nos levantamos. “Descansar e, por favor, sentem-se”. Era o Almirante Ingram (comandante da Marinha dos EUA durante a II Guerra) e sua equipe que manteve a palavra e voou até Fortaleza. A primeira coisa que ele disse foi: “Quem de voces é Goodell e Ford?”. Após apertar a mão de todos eles se foram.
     Levantamos-nos muito cedo na manhã seguinte e fomos para Natal. Os homens ainda estavam nas suas barracas então Ford me disse: “Vamos acordá-los!”. Ele pediu permissão à torre e para fazer a volta da vitória.
     Ele desceu para apenas 50 pés15 metros – e voou sobre as tendas, balançando as asas. Cara, que sensação! Os homens correram se esquivando tentando imaginar o que estava acontecendo!
     Depois soubemos que dois sobreviventes foram resgatados e estavam em Fortaleza. Mandamos um avião e os trouxemos de volta a Natal. Você tem uma foto deles embarcando no avião. Só então soubemos que tínhamos afundado o U-164.


Tradução livre
Marcus Davis Andrade Braga.


Notas
No ataque morreram 54 tripulantes do submarino e 2 sobreviveram.
As coordenadas geográficas para o afundamento são: 1º 58’S / 39º 22’W


Imagens
1- Mapa do Afundamento do U-164.
2- Billie Goodell e "seu avião" catalina 83P2.
3- Prisioneiros sendo transportados para Natal.


Fontes:

5 comentários:

  1. Esse submarino ja virou uma "lenda submarina cearense" os mergulhadores mais antigos, ja ouviram muitas historias que esse naufragio havia sido localizado, mais infelizmente o unico cidadao que realmente afirmava ter a posicao em seu GPS morreu. Apesar da localizacao oficial sugerir um local distante e profundo, os mergulhadores de compressor que relatam ter encontrado ao acaso esse naufragio, afirmaram que esse esta a 35 metros de profundidade e a 30km na costa entre Taiba e Paracuru, por uma lado isso faz sentido, pois foi nessa area que um submarino afundou dois navios a vapor no litoral de Paracuru e um navio no Pecem...bem o misterio fica no ar..ou melhor na agua...quem sabe em breve esse naufragio seja localizado e todos possamos mergulhar nesse mar de historia.

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    1. "masihneto"... esse submarino estaria somente a 35 metros de profundidade? essa informação seria ao menos um pouco segura?! porque se for, passo logo logo pro pessoal da "Família Schürmann" que dispõem de alguns equipamentos e interesse em pesquisar sobre esse tipo de achado. Valeu.

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  2. Caro Marcus Davis, muito interessante o depoimento de Billie. Eu fiz um artigo sobre ele para o Brasil Mergulho, do Rodrigo, e um artigo para Asas e fomos amigos por email até sua morte.
    Este depoimento, nessa forma ainda não conhecia. Só por curiosidade, vc sabe pra quem ele o fez e quando? Por favor entre no nosso site, www.therampafoundation.org estamos aqui em Natal e estou fazendo curso de mergulho para descer no Ventura do VP-127 aqui no razinho!
    Fred Nicolau

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