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segunda-feira, 25 de abril de 2016

Logística e Informações sobre Saída de Mergulho para o Naufrágio do Pecém



Ponto de Mergulho
Chegamos sobre o ponto com sol forte e vento fraco e logo que entramos na água tivemos uma excelente surpresa: 35m de visibilidade, ou seja, víamos o naufrágio da superfície. E ele estava lindo e cheio de vida. Cardumes diversos (galos, guarajubas, pampos e parús) circulavam o navio, pequenos peixes bentônicos encantavam o lugar, grandes beijupirás circulavam à vontade. Uma grande arraia esparramada sobre os destroços revelando o real motivo para tantos beijupirás: os filhotes de arraias são muito apreciados por esses peixes. E logo ele apareceu, um mero grande e curioso que posou para as fotos. Tubarões lixa repousavam abrigados e indiferentes aos mergulhadores. Por bombordo do navio um grande jardim de enguias se mantém por lá. As enguias são assustadas, ficam apenas com a cabeça fora da toca e quando nos aproximamos elas se escondem, dezenas delas em pequenos buracos na areia. Para completar o cenário, grandes esponjas dão um charme ao destruído navio. Tudo isso em apenas um mergulho.

Após o mergulho subimos para descansar e eliminar parte do nitrogênio acumulado durante o nosso tempo submerso. Enquanto a tripulação do barco pescava, um golfinho passou próximo a nossa embarcação animando a possibilidade de um encontro no fundo.

Depois de uma hora e meia de intervalo de superfície mergulhamos novamente. E lá estava o azul maravilhoso com um lindo naufrágio no fundo. Assim que imergi avistei uma arraia xita que circulava nosso cabo guia. O navio está parcialmente destruído devido a explosão que o afundou e a anos de depredação por parte de piratas submarinos que vandalizam os naufrágios cearenses dinamitando-os para extrair metais nobres (cobre, bronze, latão) que são vendidos no peso em sucatas. Mas ainda podemos ver diversas estruturas do navio em si. A popa está bem preservada é possível contornar o leme. O canhão defensivo ainda está lá, apontando para o fundo. Roda do leme, caldeiras, e outras grandes estruturas ainda estão lá, um pouco camufladas por anos de colonização dos novos habitantes.

Pré requisito

Incluso
  • Embarcação regulamentada com equipamentos de salvatagem
  • 02 cilindros e lastro
  • Lanche (água, refrigerante, biscoitos, frutas, sanduíches e doce de goiaba) 
  • Instrutor e/ou divemasters para conduzir o mergulho
  • Van para traslado dos mergulhadores da Praia do Pecém onde ocorrerá o desembarque de volta para Fortaleza

Não incluso

Datas e Valores

Local de Encontro 
  • No calçadão da Avenida Beirmar, em frente ao número 4320.

Horário de Saída e Previsão de Retorno
  • Encontro às 4:30h
  • Saída às 5:00h
  • Previsão de Retorno às 15:30h na Praia e de Pecém e,
  • Às 18:00h em Fortaleza

Tempo de Navegação
  • Em média 4h de ida. Navegação suave à sotavento (a favor do vento e das ondas)
  • Na volta, ao invés de retornarmos a Fortaleza, navegaremos em direção a Paraia de Pecém, em média 2:30h
  • Na praia de Pecém uma van estará nos esperando para nos trazer de volta a Fortaleza 
  • A operação no mar dura em média 11h (navegação ida e volta, e operação de mergulho com intervalo de superfície), portanto se sairmos mais tarde, chegaremos mais tarde. 

Recomendações
  • Recomendamos o uso de remédios para enjoo
  • Protetor solar, roupas secas e toalha

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Atlas de Naufrágios do Ceará: histórias dos mares cearenses!





No Atlas de Naufrágios do Ceará você encontrará relatos de naufrágios históricos que ocorreram no litoral cearense. Você lerá sobre o naufrágio Amazônia e o que aconteceu com sua carga de cristais e conhecerá o Baron Dechmont, o navio inglês que foi torpedeado durante a Segunda Guerra Mundial e hoje chama-se Naufrágio do Pecém. Também contamos a história do vapor Siqueira Campos e elucidamos o mistério do iate Cisne Branco. O Petroleiro do Acaraú, Macau e Naufrágio dos Remédios agora tem seus últimos momentos contados para o público em geral.

Além das aventuras em pesquisar, descobrir e mergulhar nesses navios afundados, apresentamos textos técnicos para um aprofundamento no estudo e pesquisa arqueológica não invasiva de naufrágios.

Os naufrágios dos quais temos registros são listados e apresentados em um mapa da costa do Ceará. São apresentados dados inéditos na historiografia naval cearense, alguns com datas, motivo do sinistro e localização por coordenadas geográficas. Outros ainda permanecem as margens da história indicados por um nome qualquer.

Ainda no livro o leitor encontrará um Manual de Reconhecimento de Partes e Peças de Naufrágios para conhecer mais da estrutura de navios naufragados ou não.

Junto com o livro você também adquire o documentário sobre o Naufrágio Amazônia e o Resgate dos Cristais do documentarista Roberto Bonfim. Nele foi resgatada a história do navio que afundou em 1981 na entrada do Porto do Mucuripe e o que aconteceu com sua carga misteriosa.

Para adquirir o livro e o documentário por R$ 100,00 (+ despesas de envio) mande um email para mardoceara@gmail.com com sua solicitação e endereço. A pagamento poderá ser feito por transferência bancária, boleto ou cartão (quando em Fortaleza).

The Atlas is written in portuguese and english!


Você também pode adquiri-lo em livrarias e lojas de Fortaleza:

Livraria Acadêmica
Rua Pereira Filgueiras, 1300 - Meireles
Rua Costa Barros, 901 - Meireles

Livraria Cultura
Av. Dom Luis, 1010 - Shopping Varanda

Armazém Canidé
Rua Conde D´Eu, 513 - Centro

Orcopel
Rua Conde D´Eu, 599 - Centro

Casa Donato
Rua Conde D'Eu, 535 - Centro

E no MercadoLivre!!

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Expedição Navio do Pecém

Mergulhadores no canhão defensivo do Baron Dechmont.

Temporada de mergulho animada nos mares cearenses. Visitamos vários pontos de mergulho ao longo do nosso litoral (e fora dele). Em maio realizamos uma expedição ao Baron Dechmont, o famoso Navio do Pecém, um navio inglês que foi torpedeado durante a II Guerra Mundial por um submarino alemão e que se transformou nuns dos melhores naufrágios para mergulhar no Ceará.
Tubarão lixa e esponja.

Poucos são aqueles que visitaram e visitarão o naufrágio, esta foi a nossa terceira expedição (2011, 2012 e 2015). Isto pela sua distância da costa e profundidade. O local está a 30km da Praia do Pecém e a 54km de Fortaleza e exige mergulhadores bem preparados para enfrentar a navegação e a profundidade.

Apesar de ser mais distante de Fortaleza escolhemos esta cidade como ponto de partida. No mar a menor distância entre dois pontos nem sempre é uma reta, ou a menor reta. Saindo do Mucuripe teríamos o mar e o vento a nosso favor nos ajudando a alcançar o naufrágio. Partimos as 5:30 da manhã. Um pouco de chuva para incomodar os ânimos, mas nada que que atrapalhasse a energia e a vontade de mergulhar no Navio do Pecém. Navegamos durante quatro horas e meia e por incrível que pareça ninguém enjoou (quatro horas de mar e ninguém enjoar é fantástico nos mares cearenses). 
Cardume de Pampos

Chegamos sobre o ponto com sol forte e vento fraco e logo que entramos na água tivemos uma excelente surpresa: 35m de visibilidade, ou seja, víamos o naufrágio da superfície. E ele estava lindo e cheio de vida. Cardumes diversos (galos, guarajubas, pampos e parús) circulavam o navio, pequenos peixes bentônicos encantavam o lugar, grandes beijupirás circulavam à vontade. Uma grande arraia esparramada sobre os destroços revelando o real motivo para tantos beijupirás: os filhotes de arraias são muito apreciados por esses peixes. E logo ele apareceu, um mero grande e curioso que posou para as fotos. Tubarões lixa repousavam abrigados e indiferentes aos mergulhadores. Por bombordo do navio um grande jardim de enguias se mantém por lá. As enguias são assustadas, ficam apenas com a cabeça fora da toca e quando nos aproximamos elas se escondem, dezenas delas em pequenos buracos na areia. Para completar o cenário, grandes esponjas dão um charme ao destruído navio. Tudo isso em apenas um mergulho.
As caldeiras do Navio do Pecém

Após o mergulho subimos para descansar e eliminar parte do nitrogênio acumulado durante o nosso tempo submerso. Enquanto a tripulação do barco pescava, um golfinho passou próximo a nossa embarcação animando a possibilidade de um encontro no fundo.

Depois de uma hora e meia de intervalo de superfície mergulhamos novamente. E lá estava o azul maravilhoso com um lindo naufrágio no fundo. Assim que imergi avistei uma arraia xita que circulava nosso cabo guia. O navio está parcialmente destruído devido a explosão que o afundou e a anos de depredação por parte de piratas submarinos que vandalizam os naufrágios cearenses dinamitando-os para extrair metais nobres (cobre, bronze, latão) que são vendidos no peso em sucatas. Mas ainda podemos ver diversas estruturas do navio em si. A popa está bem preservada é possível contornar o leme. O canhão defensivo ainda está lá, apontando para o fundo. Roda do leme, caldeiras, e outras grandes estruturas ainda estão lá, um pouco camufladas por anos de colonização dos novos habitantes.

Saímos da água e navegamos rumo a Praia do Pecém como o planejado. A fim de evitar a longa navegação até Fortaleza desembarcaríamos os mergulhadores nesta praia onde uma van nos aguardava para nos levar de volta a cidade. Ao chegarmos nossa equipe de terra nos aguardava e desembarcamos às 16:30. 

O sucesso da operação se deu ao perfeito planejamento e sincronia da equipe, a alta qualidade e capacitação dos mergulhadores envolvidos, a avaliação de condições de mar, fases a lua, condições climáticas e a Deus que permitiu que nossa viagem fosse em  paz.



Donald MacCullam, o capitão do Baron Dechmont em seu navio.

O Baron Dechmont antes de se transformar no Navio do Pecém.

Croqui do Naufrágio feito em 2005 por Maurício Carvalho.

Mergulhador e cardume de parús

Mergulhadores no naufrágio. Muita vida.

A âncora reserva ainda está no convés do Baron Dechmont.

Esponjas cobrem o navio.

Cardume de Peixes Galo.

Guarajubas circulam o costado do naufrágio.

Mero no naufrágio. Esperamos que sobreviva aos pescadores e caçadores submarinos. Foto: Rita Salgueiro.

Cansaço pós mergulho!

O staff dormindo em qualquer canto. Foto: Rita Salgueiro.

Todo mundo feliz!
E o mero?
Após os mergulhos uma dúvida surgiu. Divulgar ou não a existência de um mero no local. Isto porque mergulhadores mal intencionados podem ir ao local com o proposito de pescar esse peixe. É um perigo real, mas esperamos que esta informação ajude mais a conscientizar do que a predação. Salvemos nossos mares.




Leia Mais:
Logística e Informações sobre Saída de Mergulho para o Naufrágio do PecémNaufrágio do Pecém: o afundamento do navio inglês Baron Dechmont e do submarino alemão U-507
U-507: Um Relato sobre o Afundamento do Submarino que "empurrou" o Brasil para a II Guerra Mundial
Agosto de 1942: Memórias da Guerra Submarina na Costa de Sergipe


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Agosto de 1942: Memórias da Guerra Submarina na Costa de Sergipe

por Paula Christiny

Manchete de jornal noticia os ataques. Fonte: terra.com.br.

A Segunda Guerra Mundial, muito mais que um conflito europeu, foi um conflito “global”. O intuito desse texto é mostrar experiências vivenciadas por nordestinos durante esse conflito e também apontar pesquisas mostram que durante os combates não se destacou apenas a batalha naval em si, mas a forma como a população costeira respondeu aos atentados no mar. Sucessivos afundamentos de navios brasileiros foram registrados em águas internacionais ao longo da Segunda Guerra Mundial. Na costa brasileira o litoral de Sergipe foi palco de investidas nazistas entre os dias 15 e 16 de agosto de 1942.

A costa de sergipana foi lugar de lamentáveis acontecimentos da história trágico naval brasileira e internacional, tais episódios se transformaram em “tragédia sergipana”, Durante a Segunda Guerra Mundial, navios foram torpedeados ao longo do litoral de Sergipe e Bahia. A barbárie foi tanta, que comparando o número de mortos, se constata que morreram 1.051 pessoas decorrentes de ataques a navios mercantes brasileiros no período total da guerra (1939-1945). Entre todas as vítimas provenientes dos ataques aos navios mercantes brasileiros, 579 vidas foram ceifadas em águas costeiras sergipanas entre os anos de 1942 e 1943, representando mais da metade de todas as mortes brasileiras no mar. Tão grande foi peso da injuria que ela foi combustível para o rompimento diplomático com o Eixo. Isso foi encarado como uma declaração brasileira de guerra ao nazifascismo, seguiram-se a isso o reconhecimento do Estado de beligerância em todo território nacional (22 de agosto de 1942) e na Declaração Brasileira de Guerra à Alemanha e à Itália (31 de agosto de 1942).

A Repercussão dos Ataques
O que se quer mostrar é a memória coletiva do povo de Aracaju para perceber como os impactos causados pela Segunda Guerra Mundial influíram na vida das pessoas, como o ataque dos U-boots repercutiram no cotidiano da cidade no período belicoso. A história dos torpedeamentos dos navios mercantes gerou centenas de mortos, dezenas de sobreviventes traumatizados, população costeira amedrontada e um clima de insegurança generalizado, configurando assim, o estado de beligerância nas águas territoriais do Brasil, e mais tarde, a declaração varguista de guerra à Alemanha e à Itália.

Em decorrência dos ataques ocorreram na capital sergipana atos de hostilidade e intimidação contra imigrantes estrangeiros e descendentes; dificuldades de exportação e importação; escassez de uma série de produtos; crise no abastecimento dos combustíveis; o aumento do custo de vida, entre outras ações tomadas pelas autoridades públicas visando controlar a vida da população. Tudo isso em virtude do constante receio dos ataques ou até de submarinistas, depois que navios brasileiros começaram a ser afundados no Oceano Atlântico por submarinos alemães e italianos.

A campanha submarina do Eixo no Atlântico Sul, trazida pela Segunda Guerra, passou a ter um valor significativo para os brasileiros a partir de 1942 com as implicações causadas às investidas dos U-boots, que causaram enormes perdas navais brasileiras.

O U-507
O maior expoente dessa situação foi a presença do submarino alemão U-507, cuja ação na costa de Sergipe levou o Brasil à guerra devido a sua grande efetividade e foi relatada aqui no blog. O U-boot criou na população, a partir do dia 15 de agosto de1942, um medo coletivo da costa do Brasil, quando o U-507, capitaneado pelo alemão Harro Schacht torpedeou, em Sergipe, sequencialmente as seguintes embarcações: Baependi, Araraquara e Aníbal Benévolo. Os êxitos do U-507 que causaram a morte de centenas de brasileiros ganharam notoriedade na Alemanha nazista. Já na vida cotidiana da capital se Sergipe o U-boot esteve nas conversas de bar, nos jornais, nas rádios, em cada um dos lares da cidade.

O U-507, submarino alemão do Tipo IX tinha grande autonomia. Era composto por tripulação de 53 homens, podia levar até 12 torpedos, possuía seis lançadores de torpedos, sendo que dois eram na popa, tinha ainda: um canhão de 20mm, uma metralhadora antiaérea de 7,9mm e um canhão na proa de 105m. Fonte: http://cafehistoria.ning.com/

O conjunto dos navios soçobrados pelo submarino alemão U-507, entre o litoral de Sergipe e da Bahia, representou um dos momentos mais dramáticos vividos pelos brasileiro, a população ainda se imaginava neutra e distante do conflito global, mas com o torpedeamento, esse pensamento mudara, haviam sinais de que a guerra tinha chegado ao país. Os inimigos estavam infiltrados e precisavam ser combatidos por um lado, por outro, o Brasil também se tornava inimigo dos alemães e italianos.

Além da história política e militar, percebe-se que essa catástrofe ficou na memória da população por causa dos resultados das investida do submarino. Chegam até a costa os símbolos da batalha naval: sobreviventes desesperados, corpos deteriorados, mercadorias avariadas, destroços do barco, pertences dos passageiros e tripulantes. Era um desdobramento do conflito que feria amigos e parentes, o que era anteriormente distante se tornava uma realidade para a sociedade sergipana. Os submarinistas estrangeiros se movimentaram livres pela costa, afundando navios, como também, matando famílias inteiras ou deixando outras incompletas. Muitos moradores não tinham dificuldades em identificar um parente ou um conhecido que desapareceu vítima do submarino alemão U-507.

Os ataques do submarino alemão U-507, capitaneado pelo alemão Harro Schacht, foram registrados próximos à terra firme. Por causa disso os sergipanos tinham que lutar contra inimigos escondidos debaixo d’água, aos quais não tinham a menor ideia de como se defender, a qualquer momento prestes a atacar ou a desembarcar a "máquina infernal". Travaram-se batalhas contra o desconhecido, o estranho, o invisível. Essa revelação macabra, alimentada por informações provenientes de relatos jornalísticos das agências internacionais ou dos programas radiofônicos, assustou os aracajuanos. Manchetes da imprensa sergipana diziam: “a guerra já chegou entre nós”, “selvageria sem precedentes”; “metralhados nossos patrícios”; “o Aníbal Benévolo foi partido ao meio”; “Sergipe nunca em sua vida presenciou cenas tão tristes como nestes dias”. “De luto o Brasil. Reina a consternação em todo território sergipano”; “atentado vil e covarde contra nossa soberania”; “as incríveis barbaridades do nazismo”; “a nefanda ação do eixismo”; “não há mais que esperar, Brasil!”.
 Jornal do Brasil - Rio de Janeiro - 19.08.1942. 
Fonte: http://www.u-507.com.br/

As notícias não demoram a chegar ao cais do porto de Aracaju trazidas por pescadores. As informações dos sucessivos naufrágios causara profunda consternação entre os aracajuanos a ver o submarino como uma ameaça real às suas vidas. Os U-boots simbolizavam maior perigo às unidades da Marinha e aos pescadores oceânicos, mas não às cidades, povoados ou colônias de pescadores. Porém a constante chegada de informações causava medo coletivo que evidenciava que a população costeira não tinha um entendimento pleno sobre o alcance da navegação submarina.

O navio depois alvejado, em poucos minutos era engolido pelo mar. Mas para os sobreviventes e o restante da população, esse “tempo curto” se transformou em “longo trauma”. As memórias dos náufragos foram apropriadas pelos moradores da zona litorânea. O que ficou foi relatos dos feridos chegando macilentos e esfarrapados vítimas da tragédia que refletia nos olhos cheios de espanto e angústia.
Corpos chegaram ao litoral sergipano. Fonte: http://www.u-507.com.br/
Cadáveres que chegam às praias sergipanas, com olhos de quem morreu cheio de espanto. O cheiro de putrefação dos cadáveres que grudava nas roupas de quem tentava ajudar. O que se construiu naquelas mentalidades foram imagens terríveis nas praias alimentadas pelo medo do desconhecido, pelas histórias dramáticas dos náufragos e da gravidade das ocorrências bélicas. A costa sergipana ganhou a fama de ser “um lugar de submarinos”. Os marinheiros brasileiros passaram a temê-la com razão.

Os Inimigos Entre Nós
Em meio ao caos gerado pelo perigo representado pelo submarino, os sergipanos encontraram outros culpados em seu cotidiano: o quinta-coluna, os camisa-verde, o boateiro e o espião. Nessa batalha contra esses, o imaginário social criou o clima de desconfiança.

Acreditava-se que o quinta-coluna agia sorrateiro no interior da sociedade brasileira a favor do Eixo. Após o afundamento dos navios, o espírito de retaliação enfardou milhares de homens e mulheres do Brasil. Era evidente a ação de células de espionagem do Eixo no Brasil, mas o olhar de desconfiança social estava impregnado de inveja, de intolerância, de raiva, de cobiça, de preconceito, de oportunismo, de prazer, de retaliação e não apenas de dever patriótico, como afirmava o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda). Isso incentivou a perseguição a grupos suspeitos e discriminar os estrangeiros taxados de “eixistas”. A aversão dos aracajuanos se voltava principalmente sobre os estrangeiros, destacando-se principalmente os italianos e alemães. Cidadãos de origem estrangeira que foram presos em Sergipe acusados de pertencer a Quinta Coluna.

Um estrangeiro, ou suspeito de “quintacolunismo” corria sérios riscos de agressões, tanto físicas, quanto morais, podendo até mesmo temer por suas vida. Diversos estragos também foram feitos em residências de estrangeiros. As agressões partiam de grupos isolados ou conjuntos, feitas na maior parte das vezes por estudantes secundaristas do colégio Atheneu Sergipense.

Esse temor serviu para fortalecer a ditadura do Estado Novo. Nesses tempos difíceis de ditadura varguista, a tragédia naval foi apropriada pelo DIP a fim de promover o governo, ao explorar o fervor patriótico: “Sergipe contribuiu para o fortalecimento da unidade nacional” ou “o Brasil é um só”.

Os Ataques
A propaganda governista.
Diário de Notícias -  (22.08.42).
Fonte: http://www.u-507.com.br/
Em cada torpedeamento, a história não se repetiu, pois o evento bélico se revestiu de dimensões implícitas, envolveu diferentes tipos de barcos, apresentou circunstâncias espaciais singulares e contou com experiências individualizadas e coletivas. Entre os dias 15 e 16 de agosto de 1942, período em que foram afundados os navios Baependi, Araraquara e Aníbal Benévolo pelo submarino alemão U-507, foram perdidas 549 vidas. Em 1943, novamente, outros navios foram alvos da ação de U-boats nas águas de Sergipe, ocasionando mais 30 mortes. No dia 1º de março desse mesmo ano, na altura da foz do rio Real, foi torpedeado o navio de bandeira norte-americana Fitz-John Porter pelo submarino alemão U-518, havendo duas mortes. O Bagé foi o último mercante a ser torpedeado em Sergipe. No dia 29 de julho de 1943, o navio mercante foi afundado pelo submarino alemão U-185, perecendo 28 pessoas nesse ataque.

 O Araraquara, náufragos do Baependi viram a explosão e o seu afundamento.
Fonte: http://www.infonet.com.br/

 O Baependi - 270 mortos no seu  naufrágio.
Fonte: http://www.infonet.com.br/
O Ánibal Benévolo.
Fonte: http://www.infonet.com.br/
O que mais causou comoção aos aracajuanos foi o naufrágio do Aníbal Benévolo que seguia em viagem oceânica rumo à cidade de Aracaju. Todos sergipanos a bordo do vapor morreram no ataque nazista, criando um luto coletivo e duradouro, devido ao fato de nenhum conterrâneo ter sido localizado. Os naufrágios ocorridos na costa sergipana foram extremamente tocantes no Estado. Centenas de corpos chegaram às praias, junto com poucos sobreviventes. Os principais remanescentes desses naufrágios localizados até os dias atuais foram os restos mortais humanos que chegaram às praias sergipanas em 1942.

A população se aterrorizava com a suspeita de que os submarinistas alemães soubessem da rota naval até o porto da cidade. Embora a ameaça fosse invisível, alterou a rotina dos aracajuanos que se sentiam condição de vítimas da Guerra Submarina. Segundo a imprensa local, os inimigos do lado do Eixo poderiam estar em todos os pontos do mar brasileiro esperando o momento de atacar pela traição, de afundar navios, de matar brasileiros.

Enquanto as investidas dos U-boots não cessavam, os civis contribuíram com a campanha antissubmarina. A defesa da costa de Sergipe se tornou questão de Segurança Nacional. A Marinha do Brasil orientava para que se montasse um Sistema de Defesa Passivo, que influenciava diretamente na sociedade aracajuana. No âmbito militar montou-se uma vigilância costeira, postos de observação foram montados na região litorânea que foi reforçada com a chegada de tropas baianas e gaúchas, além dos marines americanos que realizaram a patrulha antissubmarina. No âmbito civil, pilotos civis auxiliavam buscas pelos náufragos. Os aracajuanos tinham ordens estritas de não cortarem os extensos manguezais que rodeavam o município de Aracaju para manter as barreiras naturais para dificultar o acesso à capital sergipana, caso tropas inimigas desembarcassem nas praias locais. Também instituiu-se o blecaute para que a cidade de Aracaju ficasse invisível as ameaças.

Na iminência de um desembarque inimigo, temor da invasão estava presente até nas autoridades locais, que exigiam em nome da defesa, disciplina e rigor no cumprimento das normas de segurança. Isso gerou episódios de extrema violência por parte da polícia. Veio também o racionamento do querosene, a norma não surtiu efeito porque a madeira era um dos gêneros de primeira necessidade nos lares mais humildes em Aracaju.

Porém, o ponto mais agressivo das restrições foi a proibição dos civis de se apropriarem dos salvados, pois havia uma “cultura dos malafogados”. A palavra malafogado, era tudo aquilo que não tinha afogado completamente, que voltava à tona, trazendo, porém, a marca do mal da grande tragédia marítima. O material recolhido pelos militares foi destinado para a Capitania dos Portos ou para o 28º Batalhão dos Caçadores.

Durante esse período Sergipe não contava com um sistema ferroviário eficiente e com as estradas de rodagem interestaduais inexistentes. Veio o súbito cancelamento das operações destinadas à movimentação de mercadorias de terra para bordo ou dos saveiros para os navios a vapor, ou das embarcações para terra. O comércio estagnou e a safra açucareira nos trapiches ribeirinhos foi junto com ele asfixiado pelo isolamento naval. As imposições causadas pela conjuntura e pelo quadro de penúria que a população vivia em virtude dela motivaram trabalhadores a se unir às manifestações políticas. Assim como os seus patrões, eles também utilizaram os jornais para protestar perante a sociedade aracajuana.

Por fim, pode se constatar que a guerra dos U-boots impôs preocupações militares, despertou conflitos sociais e diferentes sentimentos em Aracaju. Mais do que afundar navios, a passagem dos submarinistas pela costa criaram uma memória própria desse conflito mundial, pois a Guerra Submarina foi e será sempre um misto de bravura e profunda crueldade.

REFERÊNCIAS:
CRUZ, L. A. P. & ARAS, L. M. B. A Cidade dos Malafogados: O cotidiano de Aracaju durante a Guerra Submarina em Sergipe (1942-1945). Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH. São Paulo, 2011.
____________. A guerra submarina na costa sergipana (1942-1945). Navigator, V. 8 nº 15. Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, 2012.
____________. “A guerra já chegou entre nós!”: o cotidiano de Aracaju durante a guerra submarina (1942/1945). Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal da Bahia, 2012.

PORTO, Otávio Arruda, Arqueologia marítima / subaquática da 2 Guerra Mundial: sua aplicabilidade no Brasil. Dissertação (Mestrado em Arqueologia) – Universidade Federal da Sergipe, 2013.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

3 de Janeiro: Aniversário de Afundamento do Navio do Pecém

Capitão Donald MacCullam,
a bordo de seu navio o SS Baron Dechmont  - Navio do Pecém.
Uma Pequena Homenagem àqueles que no mar pereceram.

"No noite de 3 de janeiro de 1943, logo após o pôr do sol, um zumbido estranho seguido de uma forte explosão deve ter ressoado nos ouvidos de alguns tripulantes do SS Baron Dechmont. O ataque pegou todos de surpresa, o canhão de popa nem chegou a ser armado. Já estavam tão próximos da costa que podiam ver o contorno do litoral. Sete vidas se perderam no ataque: algumas na explosão e outras pela a agonia do afogamento. Muitos ficaram feridos. Logo após o ataque o submarino que observava à distância aproximou-se dos náufragos. Um dos tripulantes alemães perguntou em inglês quem era o shipmaster e após se apresentar MacCullam foi interrogado. Provavelmente ainda em seu bote salva-vidas negou-se a revelar sua carga e porto de destino e foi levado prisioneiro para dentro do submarino. Na manhã seguinte 36 náufragos chegaram à praia com vida e foram recebidos pela população local e encaminhados às autoridades."

Techo do artigo "Naufrágio do Pacém - Vítima da Segunda Guerra Encanta Mergulhadores do Ceará" por Marcus Davis A Braga publicado na Revista Decostop, Ano7, No 30, Nov/Dez/Jan de 2011.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Naufrágio do Pecém: o afundamento do navio inglês Baron Dechmont e do submarino alemão U-507


SS Baron Dechmont que futuramente viria a ser o Naufrágio do Pecém

O início da década de quarenta foi difícil para os homens do mar. Navegar pelos mares do globo se tornara muito perigoso. Como se não bastassem as dificuldades corriqueiras da vida marítima, havia então a guerra e os submarinos. Navios mercantes circulavam pelo globo transportando as mais diversas cargas. Seus tripulantes se despediam das famílias com a incerteza de uma jornada duvidosa. O perigo estava na guerra e nos submarinos alemães que agiam como corsários, torpedeando e afundando navios mercantes que muitas vezes transportavam civis inocentes. O medo estava no imaginário popular.
O Capitão Donald MacCullam
em seu navio

O SS Baron Dechmont
O capitão de marinha mercante, Donald MacCullam, filho de Duncan e Catherine MacCullam, nasceu em Glasgow, Escócia em 1900, mas viveu sua infância e juventude na pequena e rochosa ilha de Tiree, a oeste de sua cidade natal. MacCullam era um homem de princípios: casou-se em novembro 1934 com sua primeira e única namorada. O casamento fora adiado até que ele pudesse comandar o seu próprio navio, o Baron Dechmont. Sua esposa Christina teve que esperar um mês até que o navio do seu futuro marido retornasse de uma viagem para que pudessem realizar a cerimônia. Sua primeira e única filha veio ao mundo nove meses após o seu casamento.

O Steamer Ship ou "navio a vapor" Baron Dechmont foi fabricado em 1929 pelo estaleiro Ardrossan Drydock & Shipbuilding Co, na Inglaterra e tinha, portanto, 14 anos de serviço. Seus motores triple expansion foram fabricados por J. G. Kincaid & Co Ltd. Era um navio grande e robusto do tipo three islands – três ilhas, localizadas na proa, meia-nau e popa. O Baron Dechmont também era um DEMS Gunner, sigla em inglês para “Navio Mercante Equipado com Armamento para Defesa”, e estava equipado com uma arma de grosso calibre localizada na popa da embarcação, mas que não chegou a ser usada quando deveria...

Canhão de Popa ainda no lugar
Em meados de novembro de 1942 MacCullam supervisionava o carregamento do seu navio para cruzar o Atlântico. Sua carga era carvão mineral e coque – este último é um tipo de combustível derivado do carvão – ambos extremamente importantes para o esforço de guerra. Seu porto de destino era Recife, Pernambuco, na América do Sul. A viagem seria dividida em dois trechos: no primeiro, de Liverpool até Nova Iorque onde SS Baron Dechmont navegaria sob escolta do comboio de prefixo “ON-150”. Em seguida navegaria até Pernambuco. 

O navio partiu carregado no dia 1º de dezembro de 1942 de Barry and Milford Haven, Inglaterra e chegou à Nova Iorque no dia do Natal. Sua tripulação era composta por 44 homens sendo eles o Capitão Donald MacCullam, oito homens responsáveis por operar o canhão de popa, e 35 oficiais e marinheiros.

Por incrível que pareça durante a viagem os submarinos foram um receio secundário, pois uma forte tempestade atingiu o comboio. Sua estada em Nova Iorque deve ter sido curta, pois apenas nove dias depois de aportar o cargueiro já se encontrava ao largo do Ceará, sem escolta e sendo seguido de perto Undersee boat 507.

O U-507
O Undersee boat 507, ou simplesmente U-507, foi um submarino importante para a história do Brasil e um dos responsáveis por seu ingresso na II Guerra Mundial ao lado dos Aliados. Em agosto de 1942 este submarino veio para a América do Sul em sua terceira patrulha com a missão de fazer “manobras livres” contra navios brasileiros. Como resultado, cinco navios brasileiros foram afundados em menos de três dias, num total de sete navios em seis dias (os brasileiros: Annibal Benévolo, Baependy, Araraquara, Arará, Itagiba, Jacyra, e o sueco Hammaren).


Seu comandante o Capitão de Corveta Harro Schacht, era um excelente estrategista. Começou sua carreira em 1926 comandando cruzadores de pequeno porte. Apenas em 1937 entrou para a marinha militar alemã, comandando seu primeiro submarino em outubro de 1941. Devemos ter em mente que os submarinistas eram a nata das forças armadas alemãs e hoje poderiam ser comparados a astronautas em uma guerra inter-estelar devido ao fascínio que representava a vida sob a superfície do mar.

Harro Schacht esteve envolvido no controverso incidente com o navio SS Lacônia em setembro de 1942 após as manobras na costa brasileira. Carregado com civis e 1.800 prisioneiros de guerra italianos, o Lacônia foi torpedeado por engano pelo U-156. O submarino italiano Cappelini e os alemães U-156, U-506, U-507 resgataram não apenas seus aliados italianos como também soldados e civis britânicos e poloneses. 

MV Oakbank
Meses depois desses acontecimentos o U-507 partiu para sua quarta patrulha e novamente veio para a costa brasileira. Deixou o porto de Lorient na França em 24 de novembro de 1942 para onde retornou logo em seguida, e apenas no dia 28 partiu novamente pela última vez. Um mês depois, no dia 27 de dezembro, Schacht encontrou sua primeira vítima, o britânico MV Oakbank foi torpedeado a 200 milhas do litoral norte do Ceará, seu capitão e mais um membro da tripulação foram feitos prisioneiros.

Aprisionar capitães e oficiais mercantes era mais uma tática de guerra. Levava um tempo considerável para treinar novos oficiais mercantes e estes detinham informações estratégicas precisas sobre muitos países aliados. Os capitães de submarinos foram orientados a sempre que possível fazer prisioneiros os comandantes das embarcações afundadas.

O Ataque
No dia 3 de janeiro de 1943, logo após o pôr do sol, um zumbido estranho seguido de uma forte explosão deve ter ressoado nos ouvidos de alguns tripulantes do SS Baron Dechmont. O ataque pegou todos de surpresa, o canhão de popa nem chegou a ser armado. Já estavam tão próximos da costa que podiam ver o contorno do litoral. Sete vidas se perderam no ataque: algumas na explosão e outras pela a agonia do afogamento. Muitos ficaram feridos. Logo após o ataque o submarino que observava à distância aproximou-se dos náufragos. Um dos tripulantes alemães perguntou em inglês quem era o ship master e após se apresentar MacCullam foi interrogado. Provavelmente ainda em seu bote salva-vidas negou-se a revelar sua carga e porto de destino e foi levado prisioneiro para dentro do submarino. Na manhã seguinte 36 náufragos chegaram à praia com vida e foram recebidos pela população local e encaminhados às autoridades.

Três dias após este ataque - 06 de janeiro de 1943 - outro submarino alemão, o U-164 era afundado por cargas de profundidade no litoral norte do Ceará e se tornava o primeiro a ser afundado no litoral brasileiro.

O U-507 seguiu seu caminho rumo leste onde cinco dias depois do último ataque encontrou sua última vítima, o também britânico SS Yookwood afundado ao largo do Rio Grande do Norte. Seu capitão também foi levado prisioneiro, chegando a quatro o número de britânicos a bordo do U-507. Ser prisioneiro a bordo de um submarino alemão durante a segunda guerra mundial era uma experiência assustadora e extremamente desconfortável. Depois disso o submarino rumou para noroeste. Provavelmente passou ao largo de Fortaleza por volta do dia 10 ou 11 de janeiro. 

Foi no dia 13 de janeiro que o U-507 encerrou sua quarta patrulha após 47 dias no mar. O Tenente Aviador Lloyd Ludwig e sua tripulação decolaram no dia 2 de janeiro para dar cobertura aérea a comboios aliados entre Natal e Belém durante dez dias. Logo após a primeira decolagem, avistaram três botes salva-vidas repletos de sobreviventes, provavelmente do Oakbank. Após dez dias voando entre as bases de Belém, Fortaleza e Natal receberam a informação de que um submarino estava seguindo um comboio no litoral norte do Ceará. 

O momento do ataque
O U-507 estava à espreita de mais uma vítima. Os aviadores norte-americanos decolaram de Fortaleza em busca do submarino que fora avistado no litoral norte cearense. Após algumas horas de vôo localizaram e atacaram o submarino com quatro bombas chamadas “cargas de profundidade”. Após o ataque não foram avistados sobreviventes ou destroços e a tripulação só ganhou crédito por ter causado poucos danos ao inimigo. Só após a guerra foi confirmado o afundamento do submarino naquele ataque.

Junto com a máquina alemã pereceram os quatro prisioneiros ingleses.

Algumas dezenas de anos depois estas histórias distantes nem parecem realidade. Muito menos parecem ter acontecido aqui, em nossa terra. As marcas são poucas, alguns livros, algumas memórias, mas as provas estão no fundo do mar. Milhares de toneladas de metal retorcido jazem nas profundezas do Atlântico Sul. Algumas em profundidades inatingíveis... outras estão debaixo dos nosso olhos.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Reportagem sobre Naufrágio do Pecém na DecoStop


Reportagem sobre naufrágio do Pecém (navio inglês torpedeado durante a II Guerra) na revista DecoStop de Janeiro! Reserve a sua no Mar do Ceará!

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terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Navio do Pecém - Aniversário de Afundamento

Miniatura do U-507, submarino alemão responsável pelo afundamento do Navio do Pecém.


O último dia 03 de janeiro foi extremamente importante para o mar do Ceará. Sessenta e oito anos atrás por volta das 18 horas era torpedeado um dos maiores e mais importantes naufrágios da história recente cearense, o cargueiro inglês Baron Dechmont, ou mais conhecido pelos mergulhadores como Navio do Pecém que foi afundado pelo submarino alemão U-507 em 1943.

Sete tripulantes perderam as vidas no ato do ataque. O Capitão Donald MacCallum foi feito prisioneiro e levado pelos alemães. MacCallum morreu dez dias depois quando o submarino foi afundado por aviões norte-americanos.

Na Revista Mergulho de dezembro saiu uma reportagem sobre ele, e na próxima edição da revista DecoStop sairá uma outra matéria com imagens e informações inéditas dos tripulantes, do Capitão MacCallum e seus descendentes! Reserva já a sua! mardoceara@gmail.com !

Não percam as novidades do Mar do Ceará!

Mais informações:
Baron Dechmont - http://www.brasilmergulho.com.br/port/naufragios/navios/ce/baron_deshmod.shtml
Revista Mergulho - http://www.mergulho.com.br

DecoStop - http://www.decostop.com.br/

terça-feira, 12 de outubro de 2010

U-507: Um Relato sobre o Afundamento do Submarino que "empurrou" o Brasil para a II Guerra Mundial

(Submarino U-507 sendo atacado por um avião norte-americano no litoral cearense)

Em agosto de 1942 o submarino alemão U-507 comandado pelo capitão-de-corveta Harro Schacht afundou cinco navios brasileiros em menos de 3 dias. Este ato indignou o povo brasileiro que exigiu a entrada do Brasil ao lado dos Aliados na Segunda Guerra Mundial.

Em uma missão posterior  o U-507 também afundou o navio inglês SS Baron Dechmont, atualmente conhecido como "Navio do Pecém" e naufragado a 30km da praia que deu nome ao naufrágio. Após torpedear três navios mercantes ingleses este submarino foi atacado por um avião da US Navy Air Force que decolou de Fortaleza em 13 de janeiro de 1943 as 5:00 da manhã. Depois deste ataque o submarino cessou qualquer contato com sua base e  não retornou à mesma.    

Foi no dia 13 de janeiro que o U-507 encerrou sua quarta patrulha após 47 dias no mar. O Tenente Aviador Lloyd Ludwig e sua tripulação decolaram no dia 2 de janeiro a bordo do avião Catalina PBY 10 do esquadrão norte-americano VP83, com a missão de dar cobertura aérea a comboios aliados entre Natal e Belém. Logo após a primeira decolagem, avistaram 3 botes salva-vidas repletos de sobreviventes, provavelmente do MV Oakbank. Após dez dias voando entre as bases de Belém, Fortaleza e Natal receberam a informação de que um submarino estava seguindo um comboio nas proximidades de Fortaleza..."

Veja agora o relato do afundamento do submarino alemão mais importante para história do Brasil pelo Ten. Aviador Lloyd Ludwig. O ataque aconteceu no litoral do extremo norte do Ceará.

Agora as palavras do Ten. Ludwig:
No dia 12 de janeiro, chegamos a Fortaleza após o anoitecer. Nós “emprestamos” dois galões de combustível de avião a um taxista para que nos levasse a um hotel local. Depois de jantar e tomar uma garrafa de cerveza e nos recolhemos por volta das 23 horas. Antes do sol nascer já estávamos a caminho do aeroporto. [Quando chegamos] Nosso avião estava com as luzes do interior acesas e o radiomen Seaman Second Class R.O. Siemann e o mecânico de avião Aviation Mechanic Mate First Class (AMM1c) R.K Gernhofer, estavam bem acordados. Gernhofer me entregou uma mensagem de Natal informando que um submarino alemão estava seguindo um comboio e nos deu instruções para agir.

Antes de partirmos eu e a tripulação, mais precisamente o co-piloto Ten. Mearl Taylor e Ensign Harry Holt, o navegador, o radiomen e os dois artilheiros chamados Merrick e Thurston, revisamos nosso plano. Nós não usaríamos o intervalometer quando lançássemos as cargas de profundidade, pois houve casos em que elas travaram. Nós voaríamos a 6.000 pés [aproximadamente 2.000m] de altitude usando a cobertura das nuvens quando possível. Se fizéssemos um ataque, eu lançaria duas cargas de profundidade usando o controle manual, ou seja, as duas de bombordo. Mearl no assento do co-piloto soltaria manualmente a da direita e aí Harry, ajoelhado entre nós soltaria a última. Com sorte eles as lançariam com dois ou três segundos de intervalos.

Gernhofer ficou encarregado de avisar a base quando estivéssemos atacando. Os dois artilheiros operariam as metralhadoras .50 e não atirariam até que eu ou Mearl os ordenasse. Nós voaríamos 50 milhas a frente do provável percurso do comboio e iríamos ao seu encontro. Desta forma nós estaríamos olhando a favor do sol, o que aumentaria nossa chance de surpreender o inimigo.

Ninguém comentou quando nós o passamos pelo meu lado. Seja lá o que foi, fosse sorte ou as noites mal dormidas e as nuvens abaixo, eu não o vi. Logo depois Mearl se inclinou e disse “Aquilo parece um pc boat?”. Só precisei olhar uma vez: “É um sub!”.

Parece que aconteceu tudo de uma vez, a força foi cortada, nariz [do avião] abaixado, alarme de aviso soando postos de batalha e as carga de profundidade armadas. Harry Holt veio para a frente e se ajoelhou entre Mearl e eu. Logo nós estávamos em um mergulho excedendo 200 nós de velocidade. Nos aproximávamos do submarino pela proa e ainda nenhum sinal que ele nos avistara. Pareceu muito tempo, mas em questão de segundos descemos para 1.200 pés. O sub tinha nos avistado e começava a submergir. Nós diminuímos o mergulho, mas o nariz do avião ainda estava baixo. Aumentamos a força do motor para mantermos a velocidade. Mearl já estava prestes a empurrar a soltar as bombas do lado direito. Harry estava na esquerda. Eu estava com o pickeral, o mecanismo de soltar as bombas, em minhas mãos. Nós estávamos quase lá e o sub tinha acabado de submergir, estava apenas com a torre de comando sendo inundada. Nós estávamos a menos de 100 pés e ainda descendo. Eu pressionei o pickeral mirando um pouco depois da torre de comando. Então Mearl e Harry também soltaram as suas cargas de profundidade.

Ainda bem que todas as quatro cargas foram lançadas pois nós estávamos a menos de 25 pés e a perda de de 2.000 pounds [1 tonelada] nos ajudou a ganhar altitude. Logo nós estávamos em uma curva ascendente para a esquerda. Eu olhei pra trás e que vista! Pareciam as cataratas de Niágara viradas de cabeça para baixo, um paredão de água foi lançado para o ar, não em quatro colunas, mas em uma só. Nós circulamos os destroços, jogamos duas bombas de fumaças mas não vimos nada do submarino excerto os vestígios das cargas de profundidade. Harry Holt voltou para o compartimento de comunicação, marcou nossa posição e avisou a base do ataque. Eu perguntei pelo rádio “Alguém viu o comboio?”. Eu acho que foi o capitão de aeronaves AMM2c J.W Dickson na torre que respondeu “Nós o passamos mais ou menos 5 minutos antes de iniciarmos o ataque.”

Eu passei os controles para Mearl seguir até o comboio e me voltei para a tripulação e perguntei:

“Vocês viram onde as cargas de profundidade caíram?”

“Sim!”

“Pareceu ter atingido o submarino?”

“Logo antes da torre de comando.”

“O que vocês acharam do ataque?”

“Achei que nós íamos bater nele!"

"Bem, foi bem perto mesmo, mas mantenhas os olhos na fumaça enquanto puder, nós estamos voltando para avisar ao comboio."

O Tenente Ludwig contatou o cruzador Omaha que estava escoltando o comboio. O navio de guerra se deslocou para o local do ataque mas falhou em encontrar qualquer evidência da destruição do U-boat. Um relatório foi enviado para o escritório de inteligência do esquadrão VP83 e no dia seguinte Ludwig e sua tripulação fizeram um ataque simulado em uns arbustos próximos a Natal. O esquadrão deu ao Tenente Ludwig e sua tripulação crédito por causar pouco estrago ao submarino, mas o U-507 não sobreviveu ao ataque.  

O U-507 foi ao fundo levando consigo 4 prisioneiros britânicos: o comandante do MV Oakbank, o comandante do SS Baron Dechmont - Navio do Pecém - chamado Donald MacCallum e o imediato e o comandante do SS Yookwood. Seu afundamento só foi confirmado após o fim da Guerra.


Tradução:
Marcus Davis Andrade Braga


Fontes: