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sábado, 26 de janeiro de 2019

Macau: tripulantes passavam por dificuldades antes do naufrágio

Tripulantes do navio mercante Macau em 1954. Este navio afundou em Aracati poucos anos após esta reportagem


Em matéria do jornal carioca Imprensa Popular de 18 de setembro de 1954 os tripulantes do navio mercante Macau que viria a afundar no litoral aracatiense em dezembro de 1961, reivindicam seus salários à Companhia de Navegação São Jorge, sediada no Rio de Janeiro e proprietária da embarcação.
"Os tripulantes do navio 'Macau', de propriedade da Companhia de Navegação São Jorge estar à quatro meses e 17 dias sem receber vencimentos. Atravessam situação a mais difícil, pois são pais de famílias numerosas, que lhes têm escrito várias cartas reclamando até falta de alimentação. Um deles o marinheiro Francisco Cruz, é pai de 10 filhos.
Os marítimos, segundo nos informou uma comissão constituída pelos srs. Pedro Lucas dos Santos, Manuel Belo Marinho e Antônio Pedro da Silva, que veio, ontem, à nossa redação já se entenderam com o diretor da empresa, o qual se limitou a dizer que o "Macau" viajará por êstes dias para o Rio Grande do Sul com um grande carregamento, e que talvez na volta haja pagamento. No entanto - frisou - Isto só será possível se fôr conseguido um empréstimo de dinheiro que estamos tentando obter. - Inquirido pelos trabalhadores sôbre o caso de não ser conseguido o empréstimo, o diretor respondeu que a emprêsa irá a falência.
Tal afirmação representa um possível esbulho já em organização contra os marítimos. a emprêsa indo a falência, ficarão de vez sem seus vencimentos. Daí, portanto, ter a tripulação do 'Macau' solicitado providências ao sindicato dos marinheiros."


Fonte
Jornal Imprensa Popular, Rio de Janeiro, 18 de setembro de 1954.

Veja também 

quinta-feira, 16 de março de 2017

Misteriosos veleiros franceses encontrados em litoral nordestino: o Luny e o Toumai

O veleiro Toumai no porto em Areia Branca. É possível observar que os tripulantes não saíram às pressas: o mastro cuidadosamente amarrado à embarcação. Fonte Whatssup.

Neste semana um veleiro francês foi encontrado sem tripulação no nordeste brasileiro. Não é a primeira vez que isso acontece!
Fonte: Whatssup.

Os tripulantes do veleiro pediram socorro por rádio até que abandonaram seu veleiro "Toumai" ao serem resgatados pelo mercante "Noni"no dia 22 de janeiro de 2017. Sua embarcação ficou abandonada à deriva até ser encontrada por pescadores do Rio Grande do Norte e levada para Areia Branca.

Não é a primeira vez que isso acontece em litoral nordestino. 

Em janeiro de 1994 o veleiro "Luny" foi encontrado na sem tripulação na Praia de Almofala, no Ceará. Segundo a polícia, a embarcação estava abandonada há pelo menos uma semana e tinha mantimentos para aproximadamente quatro dias. Estava registrado em nome de Gerard Jean Gilbert, francês de 47 anos, e partira de Gibraltar com destino a Montevidéu em 21 de setembro de 1993. A polícia encontrou diversas fotos e documentos que indicam que o proprietário estava viajando com a espora e uma pessoa idosa.  
O proprietário e tripulação do veleiro
 Luny desapareceram em 1994.

E de quem é a embarcação encontrada abandonada à deriva? Segundo os advogados José Augusto Mendes Marques e Rute de Los Santos Sarmento em estudo de caso publicado no site Popa em 2008: 

O incidente envolvendo o veleiro argentino Ilikai, ocorrido no dia 31.05.08, a 64 milhas da costa gaúcha, foi amplamente divulgado pelos meios de comunicação de todo o país e despertou a curiosidade de muitos.
Mas, afinal, o dito popular “achado não é roubado” poderia ser aplicado no caso da embarcação Ilikai, caso alguém venha a encontrá-la em alto-mar?Após enfrentar uma tempestade durante o “Crucero de la Amistad” (Cruzeiro da Amizade), que reúne veleiros da Argentina e do Uruguai em passeio pela costa brasileira, o veleiro Ilikai sofreu diversas avarias que obrigaram a tripulação a abandonar em alto-mar o barco de 41 pés, avaliado em US$ 200 mil.
De acordo com a doutrina pátria, não se admite a aquisição da propriedade por ocupação ou salvamento de embarcação em estado de abandono.
Saliente-se que o salvamento, a ocupação ou posse não legitimam a aquisição da propriedade do navio ou embarcação.
Ademais, conforme dispõe a legislação penal vigente, aquele que se apropriar de coisa alheia vinda ao seu poder por erro, caso fortuito ou força da natureza ou, ainda, aquele que achar coisa alheia perdida e dela se apropriar total ou parcialmente, deixando de restituí-la ao dono ou legítimo possuidor ou de entregá-la à autoridade competente, dentro no prazo de 15 (quinze) dias, poderá incorrer em uma pena de detenção de 1 (um) mês a 1 (um) ano, ou multa.
Embora afastada a hipótese de aquisição de embarcação em estado de abandono por ocupação ou salvamento, releva notar que a Lei n.º 7.203/84, que dispõe sobre a Assistência e Salvamento de Embarcação, Coisa ou Bem em Perigo no Mar, nos Portos e nas Vias Navegáveis Interiores, assegura o direito à remuneração àqueles que prestarem serviços de busca e salvamento e que participarem de operações de assistência e salvamento.
Por fim, importa esclarecer que, de acordo com o referido diploma legal, a remuneração devida pela prestação de serviço de assistência e salvamento será objeto de acordo entre as partes interessadas e, não havendo acordo entre estas, o pagamento será fixado por arbitragem ou por tribunal competente.
O veleiro Luny e os pescadores que o
encontraram em 1994.
O Mistério do Iate Francês foi a primeira matéria publicado no blog em setembro de 2009.

Imagens
Whatssup / Internet
Diário do Nordeste


Fontes
Diário do Nordeste

quarta-feira, 13 de julho de 2016

O navio negreiro inglês Black Prince e o motim na costa do Siará


Mapa antigo da Costa do Ceará.
Navios afundam e o tempo passa. Seus fatos, relatos e estórias incríveis de luta e resistência no mar são perdidos em bibliotecas escuras e empoeiradas até que são redescobertos e trazem para nossos tempos suas memórias muitas vezes cruéis.

Uma mensagem de um amigo pesquisador, Clécio Mayrink, dizia: "Olha isso", seguido de um arquivo. Clécio me passou um artigo de 1890 de autoria do historiador Guilherme Studart que discorria acerca das necessidades de defesa da "Villa de Fortaleza" e do desembarque e naufrágios de navios estrangeiros no litoral cearense. Studart relatou especificamento os casos do naufrágio de "Cajuaes" que será explorado em outro artigo, e do navio inglês Black Prince durante o governo de Antonio José Victoriano Borges da Fonsceca.
Imagem ilustrativa

As informações apresentadas revelam que três navios estrangeiros (dois ingleses e um francês) passaram, e dois deles naufragaram, no litoral cearense. O navio negreiro inglês Black Prince comandado por "William Hawkins" e pilotado por "Thomaz Austin" partiu de Bristol em em 8 de novembro de 1768 e "veio a arribar ao Ceará" segundo uma carta do Conde de Povolide (22 de março de 1769), e foi, dos três, aquele que escapou do naufrágio e do qual trata este artigo

O Black Prince era um navio mercante negreiro mas não se sabe se seu nome (Príncipe Negro) era uma ironia a função ou referência às características físicas da embarcação. Como mercante negreiro o navio fez várias viagens à Africa. Algumas dessas viagens estão bem documentadas como uma feita em 1767 em que uma "carga" de 169 escravos foi comprada no "Senegâmbia" e entregue em Saint Louis, a colônia britânica na America do Norte, e dos que embarcaram apenas 150 chegaram com vida ao destino. Noutra viagem de 1762 o diário de bordo do navio está completamente preservado:
30 de junho ... as 3 da manhã o barco maior veio a bordo com 17 barris de água e alguns negociantes com dois escravos homens...
17 de julho ... Meu negro [seu servo negro] chamado John Prince deu uma resposta impertinente ao Sr. Thomas, terceiro oficial, e por isso estou dando a ele uma punição... pus ele nos ferros, dei uma surra nele no 4o convés e pus ele a dieta de pão e água...
dois escravos, Intregue pôs a maioria dos homens nas correntes para prevenir sua intensão...
22 de fevereiro ... descobri que os escravos estavam planejando se revoltar, botamos todos eles na mira das armas e os aquietamos, um grande número conseguiu quebrar as correntes...

O navio já havia feito mais de 10 viagens para o lucrativo e cruel comércio de escravos quando deixou o porto pela última vez sob a bandeira britânica em 1768. Partiu com seus 44 membros da tripulação entre marinheiros e oficiais e, a menos de uma semana de atracar em seu destino, sua tripulação tomou o controle do navio! Não foi o primeiro motim a bordo do Black Prince, mas foi o primeiro em que os amotinados tiveram sucesso em tomar o navio. O capitão William Hawkins e outros nove membros fiéis foram colocados em uma das embarcações de apoio e largados no Atlântico Sul. Foram forçados a utilizar ao máximo suas habilidades marítimas para retornar à segurança da terra firme.

Os amotinados então pintaram o navio, mudaram o nome para "Liberty" e rumaram para a costa do Brasil onde chegaram pelo nordeste à altura da capitania do "Siara". Parece que já naqueles tempos o Brasil era um bom refúgio para criminosos. Os revoltosos precisavam de mantimentos para seguir viagem e encontrar terras espanholas onde estariam seguros. Ingleses e espanhóis estavam em disputa pelo domínio dos mares do sul e logo os traidores estariam seguros junto aos inimigos da "coroa". 

Para conseguir provisões e continuar a viagem os piratas ingleses venderam na "Villa de Fortaleza" parte da carga que seria originalmente destinada ao comércio negreiro. E enquanto alguns dos seus (inclusive aquele escolhido como o líder do grupo) estavam na praia negociando com os "siarenses" os outros que ficaram embarcados cortaram o cabo da âncora e abandonaram seus colegas. Sabe-se que pelo menos sete foram deixados (ou abandonaram voluntariamente o grupo) no Brasil.

Em seguida os amotinados embarcados tomaram a direção das terras espanholas no caribe, ao norte. Não sem antes fazer vários disparos contra a cidade e perseguir um escuna ainda em mares alencarinos. Os disparos podem ter sido feitos a fim de inviabilizar uma possível força de reação à perseguição da escuna e ao golpe comercial. Pouco se preocuparam com os colegas ingleses deixados na praia a mercê de portugueses furiosos.

Não se sabe ao certo o que aconteceu com a tripulação de revoltosos se conseguiram ou não chegar à "Hispaniola". O The London Gazzete publicou em 29 de agosto de 1769 uma oferta de recompensa de 100 pounds para qualquer pessoa ou pessoas que trouxessem informações que levassem a captura e condenação dos traídores.

Entre os que foram abandonados no Siará segue descrição conforme a publicação da oferta de recompensa das autoridades no The London Gazzete:
William Sullivam, ou Solomon. um homem baixo e magro, rosto suave [pouco marcado], olhos castanhos, pele moreno clara, usa seu próprio cabelo [os nobres ingleses usavam perucas brancas], mais ou menos 25 anos de idade
George Meager, um homem de estatura muito alta, com o rosto [muito] marcado por cicatrizes, pele morena, usa cabelo curto, mais ou menos 30 anos de idade
Henry Beach, escolhido como Capitão [dos amotinados], um homem de estatura pequena e magra, pele morena, rosto pouco marcado, usa cabelo curto, mais ou menos 30 anos
Philip Thompson, um negro de estatura pequena e magra, cicatrizes próximas ao nariz, aproximadamente 5 pés e 4 polegadas [aprox. 1,75m] de altura, mais ou menos 26 anos de idade
Benjamin Rice, escolhido [pelos amotinados] como timoneiro, um homem de estatura pequena e magra, rosto suave [pouco marcado], pele morena clara, usa seu próprio cabelo longo, mais ou menos 28 anos de idade
John Holden, um homem alto e magro, com o rosto muito marcado e pele morena escura, usa seu próprio cabelo preto e longo, mais ou menos 30 anos de idade
Teriam sido presos? Enviados para o Reino? Executados em praça pública? Ou construído uma pousada em Canoa Quebrada?

STUDART, Guilherme;  Antonio José Victoriano Borges da Fonsceca, e seu governo pelo Dr. Guilherme Studart. Instituto do Ceará, ano IV, 3o trimestre de 1890, tomo IV. 

segunda-feira, 16 de maio de 2016

O Naufrágio do Alcântara em 1892 - seria o Vapor do Paracuru?

por Augusto César Bastos e Marcus Davis

R. J. H. Saunders era o capitão do Alcântara. Medeleine Saunders, sua esposa, está enterra no Cemitério São João Batista em Fortaleza.
A pesquisa de naufrágios é um trabalho de detetive: juntar as pistas descobertas pelo caminho. É um trabalho quase sem fim, pois a história é extensa e fontes e detalhes surgem a cada dia. E foi assim que tropeçamos na história do vapor Alcântara naufragado em 1892 nas proximidades da praia do Paracuru.

É de nosso conhecimento que existem dois naufrágios no litoral da Praia do Paracuru. Um deles está a cerca de 13 km da praia naufragado a 18m de profundidade, popularmente conhecido como "Vapor do Paracuru" e ainda não foi corretamente identificado por nossa equipe. O outro está encalhado na praia, também em Paracuru, nas proximidades da ponta da Piriquara, mas tem sua identidade conhecida, era o vapor Ceará encalhado em 1889.

O Vapor do Paracuru era um navio antigo. Possuía caldeiras para propulsão e as chapas de metal que constituíam seu casco foram rebitadas umas nas outras, tecnologia que caiu em desuso por volta da década de 20. Essas evidências são indícios de tratar-se de uma embarcação construída antes desse período o que a coloca no mesmo espaço de tempo em que o vapor Alcântara navegava em nosso litoral. Seriam o Alcântara e e o Vapor do Paracuru a mesma embarcação? 

“Dos relatos da vovó Raimundinha lembro bem da tragédia com sua irmã Rosa Virgínia (Rosinha). Rosinha morava em Manaus onde as fortunas eram fáceis e atraíam grande número de brasileiros e estrangeiros. O marido de Rosinha faleceu de malária e deixou a viúva com muito dinheiro e jóias. Ela desfez os negócios em Manaus e embarcou no vapor Alcântara com destino ao Acaraú. Esse navio naufragou na costa de Paracuru.
Rosinha, como era hábito na época, carregava consigo muito dinheiro e jóias.
Com ela, viajava um seu compadre solícito e prestativo. Na hora do desespero, ele ajudou Rosinha a subir numas pranchas e prontamente ficou com sua valise e uma bolsa. Ele sabia de suas “valiosas” cargas. Pegou um bote para voltar com socorro e não mais regressou. Rosinha sucumbiu junto com o comandante do navio que esperavam inutilmente por ajuda.
Anos depois, esse solícito amigo, em seu leito de morte, angustiado pelo remorso e na presença de muitas testemunhas, relatou toda a cena do naufrágio e chamava o nome de Rosinha pedindo perdão.
Foi assim que a família ficou sabendo da verdade. Ele deixara sua comadre morrer sem socorro para ficar com seus bens.
Esse naufrágio foi no dia 27 de junho de 1892, em Paracuru. O comandante desse vapor Alcântara está sepultado aqui no São João Batista e seu túmulo é próximo à Capelinha da família de Leocádia da Costa Araújo.
Há uma lápide de mármore: R J H Saunders M.I.C.E. Fica no primeiro plano, à esquerda da alameda central.
Vovó Raimundinha sempre que ia à nossa capela dava uma passadinha para rezar pela alma do comandante e dizia “ele e minha irmã passaram juntos os últimos momentos de vida”.
O poeta cearense Lívio Barreto, membro da Padaria Espiritual e um dos mais expoentes de sua geração, se encontrava também embarcado mas conseguiu sobreviver, pois era um bom nadador e chegou até a costa.

Essas anotações chegaram pelas mãos do Dr. Barroso, médico aposentado, que também possui peças do naufrágio. Uma bússola, uma travessa e os pés de uma mesa.

A bússola do vapor Alcântara, naufragado em 1892.

Esse naufrágio foi citado no livro “Datas e factos para a história do Ceará” de Barão de Studart.

É tentador afirmar que o nome real do Vapor do Paracuru é Alcântara. No entanto, esses fatos por si não são suficientes para uma confirmação. Sabemos que existe o vapor do Paracuru e o vapor Ceará, mas e se houver um terceiro? Ou mesmo um quarto naufrágio a vapor na região ainda não conhecido? Registros históricos apontam pelo menos um terceiro naufrágio na região: o vapor Aripuanã, naufragado em 1920, próximo a praia do Pecém...

Fotos
Augusto César Bastos

Leia também:
O Encalhe do Paracuru
Expedição ao Vapor do Paracuru
Novas Informações sobre o Encalhe do Paracuru - o vapor Ceará

terça-feira, 22 de março de 2016

O Barco de Acaraú seria o famoso Iate Palpite?


Mergulhador junto a estruturas do naufrágio O Barco de Acaraú. 

Segundo artigo publicado neste site por Augusto César Baros, "em 1859 foi criada uma comissão com o objetivo de fazer um levantamento nas províncias do Norte do Brasil, para pesquisar sobre os recursos minerais, hidrográficos, botânicos e mais outros, que sob o patrocínio de Dom Pedro II, amante da ciência, foi denominada de “Comissão Científica Exploradora”.

Esta comissão foi motivo de grande discussão no Império, sendo inclusive chamada de “Comissão das Borboletas”, devido à controvérsia sobre o seu trabalho. Composta por renomados profissionais de sua época, dentre eles, Gonçalves Dias, Barão de Capanema, o pintor José dos Reis Veloso, e depois objeto do trabalho de escritores como Gustavo Barroso, Renato Braga, Barão de Studart, o fato é que parte deste material produzido foi á pique junto com o barco que o transportava.

O Palpite
Iniciou no Ceará passando por Baturité, Guaramiranga, Ibiapaba, e, em Camocim, à partir da conclusão de seus trabalhos, formando assim um acervo de informações. Capanema contratou o transporte de parte desse material de Camocim para Fortaleza por via marítima através de uma embarcação tipo iate denominada "Palpite"."

Capanema foi um dos mais controversos membros desta comissão sendo atribuída a ele uma total falta de compromisso com os estudos propostos por Dom Pedro II. Ainda, foi especulado se o motivo do transporte marítimo de carga tão valiosa teria sido um naufrágio intencional visto a baixíssima produção cientifica realizada por este cientista.

O fato é que o Barão de Capanema contratou um barco chamado Palpite para transportar parte do resultado de seus estudos para Fortaleza e este barco naufragou no dia 13 de março de 1861 próximo da foz do Rio Acaraú (CAVALCANTE, 2012). Freire Alemão registrou em seu diário a notícia publicada pelo jornal "O Cearense". Um outro registro de Eduardo Campos também menciona a construção de uma embarcação chamada Palpite em meados da década de 1840.
Naufrágio: Pelo último vapor do norte receberam-se cartas da Granja por via de Maranhão noticiando a perda do iate Palpite que vinha para esta capital e trazia a bordo toda a bagagem que o Dr. Capanema não quis levar consigo para a Serra Grande, onde tencionava fazer uma excursão rápida, e em estação invernosa temiam achar todos os rios cheios. Entre os objetos perdidos vinha nas malas de roupa o livro de registro de todas as observações meteorológicas que cita até Sobral, da mesma sorte as observações astronômicas, e a descrição geológica da província, todos os manuscritos; e enfim as notas que serviam para passar o tempo quando [ilegível] demora em qualquer lugar [ilegível]. Perdeu-se igualmente toda a coleção fotográfica, uma série de vistas de nossas cidades e povoações, tipos, dendrológicos, utensílios usados pelo nosso povo, mas [apagado] etc. Assim como algumas fotografias de objetos microscópicos. Alguns instrumentos, livros, objetos preparados para analise química, entre eles os gases e águas do Pagé, varias plantas medicinais, e a maior parte das coleções de Sobral e Meruoca. Em um momento perderam-se trabalhos, que custaram tantas fadigas ao Sr. Capanema, e seu Adjunto o Cap. Coutinho, e muitas vezes foram eles eficazmente auxiliados pelo bom amigo, e companheiro de viagem o Dr. Dias; ao todo 13 volumes. Segundo notícias, que correm apenas escapou a tripulação do Navio. (Diário de Freire Alemão)
Esboço do croqui do naufrágio com indicações das estruturas principais. Por Marcus Davis. Todos os direitos reservados. 
O Barco de Acaraú
Atualmente a cerca de 4 milhas náuticas da foz do Rio Acaraú existe um naufrágio conhecido como "O Barco" ou "O Barco de Acaraú". Seguindo indicações do engenheiro de pesca Toivi Masih Neto que conhece bem a região fomos até o local. O naufrágio está a 7m de profundidade e completamente destruído. O sítio tem aproximadamente 35m de comprimento por 6m em sua largura máxima. É possível reconhecer o molinete da âncora, correntes (com elos característicos de um período passado) e uma grande âncora tipo almirantado. 
Molinete da Âncora

Os cavernames (as "costelas") de metal estão presentes mas não há sinal do casco, o que sugere que este revestimento fosse de madeira que é rapidamente decomposta no mar. Pelo posicionamento das estruturas é possível deduzir que o navio tocou o fundo sobre seu boreste colapsando aos poucos devido as forças da correntezas passam no local. 

Apesar de uma estrutura metálica cilíndrica na área da proa, há uma completa ausência de estruturas associadas a motores, tais como hélice, eixo, máquinas, etc, o que sugere uma embarcação à vela de grande porte. Essa estrutura cilíndrica metálica apresenta rebites em suas juntas o que indica que não foi construída utilizando métodos modernos de soldagem empregados a partir do início do século XX.
Abundância de peixes recifais

Uma explosão de vida marinha é observada na forma de pequenos peixes recifais, moreias e frequente visita de arraias.  

O local e condições conhecidas do afundamento do Iate Palpite em muito coincidem com as encontradas no naufrágio chamado "O Barco de Acaraú". O tamanho do sítio, o tipo de estruturas encontradas no local são fortes indícios de que tenhamos encontrado o famoso Iate Palpite. Estudos mais acurados e pesquisas inloco se fazem necessárias para só então podermos afirmar com certeza que encontramos o controverso Iate Palpite.

Vídeo do sítio.


Participaram da expedição
Franco Bezerra
Junior Alves
Marcus Davis

Texto e Fotos
Marcus Davis

Fontes
O Naufrágio do Iate Palpite ou seria o Iate Invencível?

Jornal O Povo
Percepções e Limites do Fazer Científico: o caso da imperial comissão científica de exploração (1859-1861)
A Fortaleza Provincial, Eduardo Campos, 1988
“O Brasil é o Ceará”:as notas de viagem de Freire Alemão e Capanema e suasimpressões sobre o Ceará (1859-1861), Francisca Cavalcante, 2012

segunda-feira, 21 de março de 2016

Mergulhamos no Naufrágio Ruy Wanderley em Bitupitá


Mergulhador junto a popa do naufrágio Ruy Wanderley. Acima é possível observar os dois lemes do navio.


Recentemente publicamos a história do naufrágio Ruy Wanderley ao largo de Bitupitá, a última vila do Ceará antes da divisa com o Piauí. Ao conhecermos sua história a curiosidade aumentou e embarcamos numa viagem de 400 km por terra e mais 4 milhas náuticas por mar até o local em que se encontra o naufrágio.

Tratava-se realmente de uma chata de de transporte de cargas em águas rasas. Possui o fundo plano (chato) e uma proa retangular e inclinada para superfície para facilitar o encalhe. O naufrágio está emborcado e mantém preservados proa e popa. Seu convés está destruído, possivelmente por ter ficado suspenso, apoiado entre proa e popa. Possuía cerca de 40m de comprimento e uns 4m de boca. Sua popa estreita possui cerca de 3m de comprimento e uma breve penetração é possível nesta seção do naufrágio onde é possível observar suas máquinas.

A vida marinha é abundante na forma de pequenos peixes, alguns crustáceos, corais e gorgônias.


Esboço do croqui do naufrágio. Por Marcus Davis. Todos os direitos reservados.

Peixe Morcego no
compartimento da pro.
"Em uma tarde comum do dia 5 de março de 1972 com o mar levemente agitado o navio Minuano começava a receber carga do navio Ruy Wanderley à contra-bordo. A carga era içada com guindastes para os porões do navio Minuano, sempre com movimentos cauteloso devido ao balanço do mar. Apesar da cautela nessa movimentação das ondas, os dois navios se chocavam violentamente pelas laterais. Com a pressa para terminar o processo de carregamento o mestre do Ruy não se preocupou muito com as batidas e continuou a manobra. Foi quando um dos operadores de guindaste observou ondas entrando no navio sem escoar.
Por volta das 18hs do mesmo dia começou a manobra alijamento da carga e após a descida da primeira lingada a tripulação sentiu o navio descer devido à sobrecarga, com isso começaram as pressas o trabalho para retirar as caçambas de sal para tentar evitar o naufrágio. No entanto nada adiantou, e um dos estivadores deu o alarme: “O navio está afundando! Cortas os cabos! Corta os cabos!” Cortaram os cabos para evitar que os dois navios fossem a pique e saltaram para o resgate que foi realizado pelas canoas que pescavam no local. Já era noite quando o navio Ruy Wanderley se despedia do seu trabalho em um trágico acidente, por volta das 19hs só se via uma pequena ponta do mastro do grande Ruy.
O navio Ruy Wanderley naufragou no dia 5 de março de 1972 por volta das 18hs em uma profundidade de 8 metros na baixamar e em mais ou menos na distancia de 5 km da praia, sendo hoje possível ver em um mergulho ao lado do curral de numero 32.
O relatório do inquérito atribuiu o acidente as fortes pancadas no Minuano e considerou responsável o mestre João Fagundes de Oliveira e o imediato (moço de convés) José felinto da Silva por insistirem no transbordo de cargas naquelas condições, sendo representado contra pela procuradoria por negligencia e imprudência, foram condenados a pena de multa de um salário mínimo."

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

O Naufrágio do Ruy Wanderley em Bitupitá

Currais em alto mar ao largo de Bitupitá, CE.

texto adaptado do blog Bitupitá Atividades

Em meados da década de 70 existia em Bitupitá uma comunidade de estivadores que trabalhavam intensamente no manuseio da principal produção local: o sal. Transportado pelo o Rio Timonha das salinas de Chaval para navios que ficavam fundeados ao largo da antiga comunidade "Das Almas" (atual Bitupitá) o sal produzido ali era comercializado em todo o Brasil. Era um trabalho rotineiro mas que movimentava a área com barcaças e grande navios.

Entre os dias 26 a 28 de fevereiro de 1972  chegava à costa Bitupitaense o navio chamado Minuano para receber um carregamento de sal, ficou fundeado aproximadamente 5 km da praia, em uma profundidade de 10 a 12 metros. Atualmente fica mais ou menos onde hoje se localizam os currais de número 32 a 40. Fundeado em alto mar, aguardava os navios tipo alvarenga com a carga de sal das salinas de Chaval. Um desses navios-alvarenga era o "Ruy Wanderley" que operava sempre a estiva de “Bitu” na barra do Pontal das Almas.

Em uma tarde comum do dia 5 de março de 1972 com o mar levemente agitado o navio Minuano começava a receber carga do navio Ruy Wanderley à contra-bordo. A carga era içada com guindastes para os porões do navio Minuano, sempre com movimentos cauteloso devido ao balanço do mar. Apesar da cautela nessa movimentação das ondas, os dois navios se chocavam violentamente pelas laterais. Com a pressa para terminar o processo de carregamento o mestre do Ruy não se preocupou muito com as batidas e continuou a manobra. Foi quando um dos operadores de guindaste observou ondas entrando no navio sem escoar.

Por volta das 18hs do mesmo dia começou a manobra alijamento da carga e após a descida da primeira lingada a tripulação sentiu o navio descer devido à sobrecarga, com isso começaram as pressas o trabalho para retirar as caçambas de sal para tentar evitar o naufrágio. No entanto nada adiantou, e um dos estivadores deu o alarme: “O navio esta afundando! Cortas os cabos! Corta os cabos!” Cortaram os cabos para evitar que os dois navios fossem a pique e saltaram para o resgate que foi realizado pelas canoas que pescavam no local. Já era noite quando o navio Ruy Wanderley se despedia do seu trabalho em um trágico acidente, por volta das 19hs só se via uma pequena ponta do mastro do grande Ruy.

O navio Ruy Wanderley naufragou no dia 5 de março de 1972 por volta das 18hs em uma profundidade de 8 metros na maré baixa e em mais ou menos na distância de 5 km da praia, sendo hoje possível ver em um mergulho ao lado do curral de número 32.

O relatório do inquérito atribuiu o acidente as fortes pancadas no Minuano e considerou responsável o mestre João Fagundes de oliveira e o imediato (moço de convés) José felinto da Silva por insistirem no transbordo de cargas naquelas condições, sendo representado contra pela procuradoria por negligencia e imprudência, foram condenados a pena de multa de um salário mínimo.


sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Lançamento do "Atlas de Naufrágios do Ceará" e o documentário "Naufrágio Amazônia e o Resgate dos Cristais"


Amigos,

É com enorme prazer que os convidamos a participar deste grande evento do mergulho e da história cearense. Dez anos de pesquisas e mergulhos em naufrágios resultaram no Atlas de Naufrágios do Ceará por Marcus Davis e Augusto César Bastos. Resgatamos para vocês histórias fantásticas que aconteceram aqui em nossos mares!

No Atlas de Naufrágios do Ceará você irá encontrar histórias de naufrágios ícones do litoral cearense, muitas vezes tragédias marcantes com perda de vidas humanas mas que foram há muito tempo esquecidas. Homenageamos as vítimas desses acidentes lembrando-as através deste livro com imagens de época e fotos impressionantes de navios que atualmente estão no fundo do mar colonizados pela exuberância da vida subaquática.

Autores convidados provenientes de instituições como o Laboratório de Ciências do Mar da Universidade Federal do Ceará e a Diretoria do Patrimônio Histórico e Cultural da Marinha colaboraram com textos técnicos de diversas áreas relacionadas ao mergulho e à pesquisa de naufrágios.

Também listamos todos os cerca de cem naufrágios conhecidos que ocorreram do Estado. Alguns com dados precisos como data do afundamento e localização por coordenadas geográficas estão listados em um mapa. Mas outros mesmo que uma vez tenham sido estruturas grandiosas da engenharia naval, permanecem anônimos sob os verdes mares cearenses.

Ainda no livro convidamos o leitor leigo para conhecer melhor os navios e naufrágios através do Manual de Reconhecimento de Partes e Peças de Naufrágios com fotos de navios museus espalhados pelo mundo, ou com imagens das peças ainda submersas. Para o leitor mergulhador esta seção torna-se um manual para auxilia-lo a entender melhor essas grandes estruturas submersas e como reconhece-las após anos no mar e assim orientar-se melhor durante seus mergulhos.

Junto com o atlas lançaremos o documentário "Naufrágio Amazônia e o Resgate dos Cristais" um trabalho conjunto do documentarista Roberto Bonfim sobre um naufrágio ícone na história de Fortaleza! 

Ainda no evento nos deslumbraremos com a exposição do fotógrafo cearense Ruver Bandeira com imagens incríveis do mundo subaquático e seus habitantes!

Venha participar desse grande evento da cultura marítima cearense! Um convite especial aos alunos do Clube de Mergulho Mar do Ceará que acreditam em nosso trabalho e fazem parte dessa história. Sua presença é fundamental pois cada um de vocês faz parte deste trabalho!


Livraria Cultura
Av. Dom Luís, 1010 - Shopping Varanda Mall
03 de dezembro de 2015 às 19h

sábado, 3 de outubro de 2015

Do Mar ao Museu: A Saga da jangada São Pedro

Os pescadores da jangada Sao Pedro

Em 1941 o Brasil estava em plena Ditadura do Estado Novo, onde o presidente da época, Getúlio Vargas estava controlando todas as formas de mídia e formas artísticas, criou o Departamento de Imprensa e Propaganda para informar os feitos governamentais e fiscalização das publicações sobre o governo, criação do programa A Voz do Brasil onde o povo podia ter acesso as informações parlamentares, repressão a movimentos sociais e também criação de uma nova moeda, o Cruzeiro.

Esse período de 1937 á 1945 foi marcado for um regime ditatorial, mas também teve mudanças significativas como a Consolidação das Leis Trabalhistas, que garantiam direitos aos trabalhadores como a instituição de um salário mínimo, o empresário deveria pagar o mínimo para o trabalhador como foi redigido em lei, foi denominada a jornada de trabalho de 8 horas diárias, houve o reconhecimento de sindicatos e associações de trabalhadores entre outros benefícios trabalhistas, que não se eram abordados antes dessa época conturbada de transição de um Brasil agricultor para um industrial.

O Ceará dessa época era formado também por comunidades que viviam de pesca para a sobrevivência. As leis colocadas por Getúlio ainda não haviam chegado na classe pescadora, assim eles se encontravam desamparados, contavam apenas com a ajuda da Federação Cearense dos Pescadores. Com essa demanda de necessidade surgiu em quatro pescadores do litoral de Fortaleza a vontade de mudar essa realidade, são eles: Manuel Pereira da Silva (Mané Preto), Manuel Olímpio Meira (Jacaré), Jerônimo André de Souza (Mestre Jerônimo) e Raimundo Correia Lima (Tatá).

O sonho
Nos final de 1930 o pescador cearense Manuel Olímpio Meira, o Jacaré, era muito popular na comunidade em que residia na colônia Z-1 e que era o presidente. Ele revelou a professora da escolinha da colônia um sonho que possuía, aprender a escrever e ir pessoalmente ao Rio de Janeiro falar com o presidente Getúlio Vargas sobre os problemas e as dificuldades de seus companheiros pescadores cearenses. A professora logo se dispôs a ajudá-lo na realização de seu sonho, propondo a Jacaré que ao final do turno das crianças ele iria a escola e a professora o ensinaria a ler e escrever.

No primeiro dia de aula Jacaré levou um amigo, Tatá que compartilhava de seu sonho. Jacaré desde o início teve um alto desempenho no aprendizado, não perdendo um dia sequer das aulas, onde dentro de um ano ele já conseguia ler e escrever.

Em 1941 o sonho de Jacaré já não era apenas compartilhado por Tatá, mas também por outros dois amigos pescadores o Mané Preto e Mestre Jerônimo, onde seus planos eram navegar até a cidade do Rio de Janeiro e conversar diretamente com o presidente do Estado Novo.

A sociedade quando tomou consciência do sonho do grupo de pescadores colaborou nessa busca, de pescadores e suas famílias á as autoridades locais deram incentivo aos jangadeiros cearenses. Assim eles fortaleceram seu sonho, planejando-o como iriam realizá-lo.

Os lobos do Mar
Os cearenses aventureiros foram chamados de lobos do mar, intrépidos aventureiros, gigantes bronzeados do sol, heróis bronzeados da praia e outras denominações, esses homens eram pescadores simples da colônia de pesca da praia de Iracema Z-1, exceto o pescador Jerônimo que obtinha filiação a colônia Z-2, no Mucuripe. Trabalhavam e moravam com suas famílias nessas colônias. Os quatro jangadeiros eram homens experientes na arte da pesca e vinham todos de descendência de pescadores.

Tatá era o mais velho do grupo, onde tinha 52 anos na época, pescava desde seus oito anos de idade de onde sempre retirou seu sustento. Era o que possuía melhores condições de vida que os seus companheiros, pois tinha uma jangada e residia em uma casa telhada e com dois quartos. Tinha duas filhas, Antônia de 24 anos e Raimunda de 22 anos.

Manuel Preto tinha 39 anos, onde desde os 6 anos já era iniciado na pesca, no qual ajudava jangadeiros a puxar algumas linhas e na hora da refeição. Tinha três filhos no tempo, Irismar com 17 anos, Dulcinéia com 3 anos e José com 13 anos que já auxiliava seu pai.

Jacaré tinha 38 anos, único que não era cearense de raiz, pescava desde menino. Onde desde a geração de seu bisavô sua família vivia da pesca, possuía oito filhos: Francisco, Maria, José, Raimunda, Maria José, Joaquim, Raimundo e Francisca. Nascendo mais dois filhos após o acontecimento, Maria de Lourdes, que falecerá ainda criança e Pedro.

Mestre Jerônimo tinha 35 anos, teve uma iniciação a arte da pesca diferente, com 18 anos. Por seu horror ao mar, que lhe causava náuseas. Seus parentes constantemente o ameaçavam amarrá-lo no mastro da jangada, ele passou a seguir os companheiros nas pescarias, enjoando diariamente cerca de um mês. Após se acostumar dizia que se pudesse moraria no mar, Na época do raid (evento) da jangada de São Pedro era conhecido como um notável mestre de jangadas. Possuía quatro filhos: Maria com 13 anos, Maria Francisca com 9 anos, José Maria com 9 anos e Maria do Carmo com apenas 5 anos.

Essa saga que os cearenses enfrentaram impressionaram a mídia local e nacional, a sociedade, da elite as comunidades e os seus ancestrais, pela fragilidade da embarcação usada, longa travessia, sem equipamentos técnicos para a localização no mar, como bússola e carta de navegação. Quando lhe era perguntado sobre sua forma de localização os jangadeiros riam e afirmavam sobre os seus conhecimentos das estrelas, onde a verdadeira forma de guia dos homens do mar. Como no depoimento de Tatá ao Diário da Noite (06/11/1941) ''A bússola só serve para atrapalhar a gente... Cada porto tem uma estrela para guiar os jangadeiros.''

A Jangada
Os intrépidos jangadeiros fizeram uso do seu instrumento fundamental em seu trabalho, uma jangada. Eles usaram uma jangada de madeira piúba, que foi importada do estado do Pará, sendo de alto custo de compra, transporte e confecção, custos os quais os pescadores não tinham condições de liquidar,
tornando os pescadores subordinados dos donos de jangadas.

A jangada usada era de madeira piúba que é geralmente a mais usada para essas embarcações, a jangada era feitas de seis paus e não possuía um prego sequer, ondes a estrutura era toda eram encaixadas. Sendo batizada no dia 8 de setembro de 1941, nomeada de jangada de São Pedro, sendo São Pedro o santo mais comum entre a comunidade pesqueira por causa de ser um pescador antes de ser discípulo de Jesus, chegando mais perto da realidade dos pescadores.

A jangada foi feita unicamente para o episódio, sendo financiada por auxílios recebidos de autoridades, comerciantes e membros da sociedade local.  Pensando cerca de 800 quilos medindo 36 palmos de comprimento de 8 de largura, não possuía nenhum prego em estrutura, foi consolidada como a representação de bravura e coragem dos jangadeiros cearenses.

Por tradição a jangada foi batizada, assim podendo haver uma relação entre a elite e a comunidade pesqueira da época, onde Dona Mariinha Holanda foi a escolhida para esse papel, sendo uma pessoa muito importante na defesa dos trabalhadores e na alta sociedade, onde ajudou no recolhimento de quantias para os quatro jangadeiros e suas famílias.

A saga da Jangada de São Pedro e os jangadeiros:
A partida da jangada e seus tripulantes se deu tardia pois houve problemas com a liberação da autorização da Comissão da Marinha Mercante. mesmo com o apoio do Interventor Menezes Pimentel que junto aos jangadeiros redigiu um telegrama com o pedido da autorização ao Ministro da Marinha, onde a autorização só veio chegar após a denúncia feita pelo jornal, Correio do Ceará, em 10/09/1941), relatando que a Federação dos Pescadores do Ceará estaria contra essa viagem, assim colocando barreiras para a sua realização. A Federação se pronunciou a favor dos pescadores e da viagem, elogiando a coragem e o propósito dos mesmos.

Finalmente tudo é acertado, com a autorização em mãos, Tatá, Mestre Jerônimo, Manuel Preto e Jacaré partem da Praia de Iracema no dia 14 de outubro de 1941. Desde o anúncio do sonho dos pescadores a partida da jangada, teve uma grande cobertura de notícias dos jornais, quando ainda era sonho apenas os jornais cearenses falavam sobre, mas quando passou a ser realizado jornais nacionais publicavam sobre a partida da jangada.

Os jangadeiros velejaram 61 dias, enfrentando o mar apenas com uma precária jangada de piúba. Os momentos da navegação é relatada no Diário de Bordo de Jacaré, descrevendo o vento, o tempo, os elementos da natureza e o estado de espirito dos tripulantes, que sentiam saudades de suas famílias e relatavam que estavam em paz na viagem por ter dois guardiões de suas famílias, Senhor Fernando Pinto e Dona Mariinha Holanda. O citado Fernando Pinto era o diretor do Jangada Club e auxiliou na obtenção da quantia para a realização do raid. O diário fazia menção também a outro jangadeiro Dragão do Mar, que era dito como um herói para os pescadores, onde Jacaré escreve esse trecho: ''Ia me esquecendo de dizer uma coisa. Se os ventos tivessem sido nossos amigos teríamos ido a Aracati, no Rio Jaguaribe, a terra do 'Dragão do Mar' jangadeiro e nosso simbolo''.

A parte mais complicada da saga foi entre Bahia e Vitória onde tiveram que enfrentar um forte temporal e ficando por um longo tempo cercados por bandos de enormes tubarões, de que fizeram um grande esforço para fugir, relatando que se cansaram muito e fizeram muito esforço remando por um longo período por não haver ventos.

A saga possuiu outro diário o Diário do Raid que contém depoimentos e impressões de autoridades e demais membros da sociedade de alguns lugares em que os pescadores estiveram. Além desses manuscritos também contém colados fragmentos selecionados de jornais.

Os quatro jangadeiros onde passaram foram bem recebidos, todos queriam saber como estava sendo a jornada, os jornais faziam muitas perguntas e publicavam tudo sobre isso, haviam pessoas esperando-os zapar em suas cidades, pessoas da alta sociedade os convidavam a passear na cidade e fazer-lhes companhia em suas refeições. Mas os jangadeiros por onde passavam percebiam que as dificuldades dos pescadores não se delimitava apenas ao Ceará, mas era de uma maior amplitude, assim eles tomaram mais força para ir em frente com o sonho, de relatar pessoalmente ao presidente esses problemas.

A chegada ao Rio de Janeiro
Na capital, a comissão de preparação dos festejos, que era composta pela Colônia de Cearenses que moravam no Rio e membros das federações estaduais de pesca, esperava ansiosa juntamente com a multidão moradora da cidade maravilhosa que esperavam os jangadeiros adentrarem no final da tarde a Baía de Guanabara, no dia 15 de novembro de 1941. A mídia cobria todos os passos dos
jangadeiros desde  chegada no cais e os discursos feitos pelo representante do Ministro do Trabalho, Luiz Augusto do Rego Monteiro, Ademar Beltrão, filiado a Federação dos Sindicatos trabalhistas, e até Jacaré, que era o porta-voz dos quatro jangadeiros, pois ele o que mais possuía o dom da fala, sempre era o que se comunicava com os jornais e com o consenso dos companheiros iria falar por todos com o presidente.

Chegando ao Palácio da Guanabara, os jangadeiros estavam acompanhados de representantes do governo e federações, foram ao encontro do presidente. Á multidão se amontoava para poder ver os heróis cearenses. Quando finalmente encontraram o presidente Getúlio Vargas, Jacaré como porta-voz do grupo lhe contou sobre as condições de miséria em que viviam, não possuindo uma casa digna e sem assistência social. Os trabalhadores diariamente ao saírem para pescar, enfrentavam um problema que era a divisão do pescado com os donos das embarcações, assim muitas vezes voltando sem nada para suas famílias, problema vigente por não estarem dentro das politicas sociais implementadas por Vargas, não possuíam aposentadoria, nem férias e décimo terceiro, Jacaré enfatizou que os obstáculos dos pescadores não se delimitam apenas ao litoral do Ceará mas por todo o Brasil em que os pescadores lhe pediram que o porta-voz falasse por eles nesse encontro.

O presidente enquanto ouvia o relato, tinha um sorriso leve em seu rosto, de forma a confortar os pescadores. Já Jacaré indo de forma direta e simples ao propósito do raid.

A esperada resposta do Presidente
O presidente Getúlio Vargas falou aos jangadeiros da legislação trabalhista brasileira, que iria estudar a situação relatada, adiantando a eles que com certeza a classe seria amparada. Recebeu o documento das mãos de Jacaré, pedindo -lhes que esperassem providências do Governo Federal.

O documento recebido de inicio expõe o sentimento daqueles que foram solicitar o amparo, e
explícita o caráter de homenagem ao Chefe da Nação. Também presenteando o presidente ou sua esposa com uma jangada de pesca cearense. Após essa mensagem de louvor ao presidente e ao ''Brasil Novo'', os trabalhadores enfatizam o sofrimento de sua classe. Pedindo de forma documentada para que o presidente olhasse por eles.

Após três dias depois do encontro, o presidente assina um Decreto-Lei onde inclui os jangadeiros no Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Marítimos. Ficando também instituído o salário base, onde também decreta que dentro das possibilidades, o Instituto deveria mandar instalar postos médicos para o atendimentos dos associados.

Para os pescadores essa atitude rápida do presidente foi como um presente do céu, onde eles falavam que Getúlio era como um pai para eles, atendendo o pedido de forma rápida e que a justiça quando solicitada era feita e justa.

O retorno
Voltaram para a Praia de Iracema de avião da Navegação Aérea Brasileira, percorrendo em menos de oito horas o trajeto. Consequentemente após o amparo do presidente foi formada uma rede de solidariedade as colônias de pescadores, todos queriam fazer parte do que estava acontecendo, dando sua parte.

Os jangadeiros voltaram como heróis, revolucionários, os benefícios eram vistos pela comunidade pesqueira, faziam festas, poemas e canções para agradecer o feito.

Mas nem tudo era um mar de rosas, desde o início do sonho, Jacaré já fazia acusações sobre a Federação de pescadores cearenses, em que os deixavam desamparados, relatando também a sociedade do Rio, após seu retorno o clima ficou mais conturbado, tanto Jacaré como os outros membros do grupo iam periodicamente aos jornais afirmar as denúncias realizadas. A federação se pronunciou explanou que as acusações feitas não tinham fundos e que a federação fazia o máximo para dar amparo a comunidade. Foi aberto um inquérito administrativo para a averiguação das acusações feitas, para reforçar a denúncia Jacaré e Manuel Preto visitaram trinta colônias pesqueiras, no qual queriam juntar elementos para demonstrar o estado de miséria que viviam os pescadores e famílias cearenses, enfatizando a abertura de uma inquérito verdadeiro para essas averiguações,

O filme e o trágico fim
Outro fato que ocorreu foi a vinda do cineasta Orson Welles para a realização de uma filme da saga da jangada de São Pedro, levando os quatro jangadeiros novamente ao Rio de Janeiro, onde na
gravação terminou de forma trágica levando a morte de Jacaré. O filme foi finalizado onde reconstitui o universo praieiro dos jangadeiros, a rotina de pesca, o trabalho feminino, a fragilidade da jangada, a vida complicada, as casas cobertas de palha de carnaúba. Os quatro jangadeiros, seu sonho de mudança, a ameaça no mar, a ida ao Rio de Janeiro, a morte no mar. Esse filme relata a manifestação de afirmação do trabalho feito por esses homens que enfrentam todos os dias o mar.

Após mais de 70 anos desse evento, que é lembrado com louvor, mudando a vida de muitos jangadeiros e dando esperança a outras classes sociais. Os quatro jangadeiros que realizaram esse feito não estão mais vivos, mas permanecem na vida e memória de muitos,

Essa saga foi parar no Museu do Ceará, sendo expressa no Diário do Raid, levado por Dona Mariinha Holanda. Possibilitando aos historiadores e frequentadores do museu estudarem e tomarem consciência de seus antepassados cearenses e seus feitos pela sociedade.  O povo cearense tem em sua história muitas lutas por reconhecimento, levantando e moldando a sociedade atual.

Os quatro intrépidos jangadeiros.

Livro relatando á situação brasileira e a saga dos jangadeiros.

Antiga Praia dos Peixes, onde se iniciou a saga dos cearenses.


Referências:
http://www.infoescola.com/brasil-republicano/estado-novo/
http://www.tst.jus.br/web/70-anos-clt/historia
http://www.suapesquisa.com/historiadobrasil/estado_novo.htm
Neves, Berenice Abreu de Castro. Do Mar ao Museu: A saga da jangada de São Pedro. Fortaleza: - Museu do Ceará / Secretária da Cultura e Desporto do Ceará, 2001.
Fotos:
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiPrrV-aEjxrUqwtbLeu079k6glYkMM8AqaPUPHLreymagKx7u2eiPrZYdC9sN710fzxfqOhlyfxbU4PhHU00MUDpeA5MGlFJXf51phjh6urQzuDA8JQ5etF0-dZWrBeWRl607a00PppnA/s1600/55.jpg
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https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhlkSuhr61XPecdHyjRmJN3zEV9s9GPqIi3OwCQVQVr16xqhFvS5ks-vaAuE0GsQZ3_zu2IK1LaWWvd1SBVhvh0TbFQ2OSLT3U-SKsupqtV67sGff7W4hIDwoY6R80EmH1Tp80WjI4p0yk/s1600/Jangadeiros.jpg
http://copacabana.com/rua-jangadeiros/
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhjtSQhDiPpwIkBipgZ1FrRqYcpYcedbDzMKNVMjAhDDEpOhOVK2DU9cgZyuhyPVCZF7qg9Vw09yRGBSCz1FjzMWPzcOwgnbPTldEyg6tOg-FAO9wJY4STMP3_ygMaLCJfRHpOpii8sEp0/s1600/CENTRO+DE+TURISMO+(18).JPG

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Dragão do Mar: Quem foi Chico da Matilde?


Estatua do Chico da Matilde no Centro Cultural Dragão do Mar

Nascido em 15 de abril de 1839, em Canoa Quebrada na Vila de Aracati, o famoso Dragão do Mar foi um homem que se tornou famoso no Estado no fim do século XIX, durante o início dos movimentos abolicionistas no Brasil. Seu nome era Francisco José do Nascimento mas como era filho de Matilde Maria da Conceição, era conhecido como o Chico da Matilde.

Ainda criança perdeu o pai, Manoel do Nascimento, que era um jangadeiro mas que com a alta da borracha no Estado do Amazonas foi para o norte do país a procura de melhoria de vida, mas infelizmente faleceu. Sua mãe, agora viúva, decide deixar Francisco aos cuidados de um senhor que era dono de uma embarcação que realizava transportes na costa nordestina e devido a isso, Chico começou desde cedo a trabalhar nesse meio, principalmente como menino de recados e assim foi convivendo com trabalhadores do mar e a vivenciando o tráfico negreiro desde a infância.

Em 1874 foi nomeado prático da Capitania dos Portos e convivia com escravos, jangadeiros, marinheiros e segundo alguns relatos, apesar de ter se alfabetizado somente aos 20 anos, devido ao seu contato direto com marinheiros de outras nacionalidades, falava inglês e um pouco de alemão.

Também tinha um vasto conhecimento sobre geografia física e navegação, pois como prático do porto, era responsável por auxiliar principalmente embarcações de grande porte a navegar pela costa e a entrar e sair dos portos. Além de entender de navegação, um prático de porto tem que ter conhecimento da geografia física daquele local, pois sua principal função é impedir que as embarcações de grande porte venham a ser danificadas por algum banco de areia, formação rochosa, naufrágio ou até por uma corrente marinha.


O Movimento Abolicionista
Chico da Matilde

Na década de quarenta nos anos de 1800, a base da economia brasileira estava na exploração da mão de obra escrava, naquela época o governo imperial era dominado pelos interesses dos latifundiários escravagistas, mesmo assim, alguns políticos já haviam começado a debater a abolição na assembleia geral. Porque existia um interesse por parte de países como a Inglaterra que tinham um forte comércio e visavam aumentar o seu mercado para arrecadar lucros. Com a abolição dos escravos, aumentaria o número de trabalhadores e consumidores e movimentaria o comércio.

Além das elites letradas da época que tinham um discurso que valorizava os direitos humanos e que visavam acabar com a escravidão brasileira que já vinha diminuindo no Nordeste devido à seca que tornava caro e dispendioso sustento de escravos. Ao decorrer do tempo o governo foi tomando medidas que caminhavam para a abolição, como a criação da Lei Eusébio de Queiroz que proibia o tráfico de africanos para o Brasil.

No Ceará
Com a proibição do tráfico da África para o Brasil se intensificou o tráfico dentro do próprio Brasil, sendo o Ceará um grande exportador de escravos. Nessa época, Chico da Matilde trabalhava como prático da Capitania dos Portos e era proprietário de algumas jangadas e devido a isso convivia com escravos e traficantes de escravos, pois o transporte de escravos era muitas vezes feito por jangadeiros que levavam os escravos até barcos maiores (que precisavam do prático do porto para navegarem com segurança próximo à costa) para serem levados até outras regiões do país.

Fortaleza era sede de várias sociedades abolicionistas nos meados do século XIX, que eram basicamente grupos da elite que arrecadavam fundos para comprar a alforria de escravos e que foram de fundamental importância no movimento abolicionista cearense.

O início da divulgação de pensamentos e atitudes abolicionistas por parte da população do município de Fortaleza foi desencadeada por um dos membros de uma dessas sociedades, da Sociedade Cearense Libertadora, que sugeriu em um discurso no Teatro São Luiz que os jangadeiros poderiam ajudar a impedir o tráfico de escravos.

A partir desse discurso foi proposta uma paralisação dos jangadeiros e que agora não fossem mais embarcados escravos no porto de Fortaleza. Um escravo recém alforriado chamado José Napoleão foi convocado para ser o líder dos jangadeiros no movimento, o representante abolicionista na praia, mas ele se recusa humildemente e indica o Chico da Matilde para essa função. 

Sociedade Cearense Libertadora

Chico da Matilde não assumiu efetivamente a liderança dos jangadeiros porque possuía o cargo de prático do porto na Capitania dos Portos, mas assistiu à paralisação e deixou suas duas jangadas a disposição do movimento. E só alguns meses depois que ele toma a frente da segunda greve dos trabalhadores do porto e participa efetivamente dos movimentos abolicionistas. Mas essa participação não agrada o Presidente da Província do Ceará e Chico da Matilde perde o seu cargo público na Capitania dos Portos.

Após essa série de acontecimentos, Chico da Matilde se agrega a uma dessas sociedades abolicionistas e passa a ser uma referência do marco da resistência popular. Unido aos demais integrantes da sociedade abolicionista, alforriam todos os escravos da Vila do Acarape que após esse movimento ganhou o nome de Redenção, que é conhecida por ser a primeira cidade no país que aboliu a escravidão.


Representação do Dragão do Mar entre as jangadas


A abolição dos escravos da Vila do Acarape foi seguida por uma série de movimentos abolicionistas que fez com que em 25 de março de 1884 fosse abolida a escravidão em toda a província do Ceará. Após essa data, a província do Ceará se tornou uma referência nacional em relação a abolição, e os integrantes dos movimentos abolicionistas cearenses foram convidados a se reunir no Rio de Janeiro para falar sobre a abolição da escravidão na província do Ceará, e foi nesse momento que o Chico da Matilde ficou conhecido como o Dragão do Mar e a província do Ceará ficou conhecida como Terra da Luz.

Fim de sua vida
Existem diferentes versões sobre o vida do Chico da Matilde após o sucesso movimento abolicionista cearense até a sua morte. Alguns estudiosos relatam que após esse momento de glória e intensa participação em movimentos revolucionários, Chico da Matilde perde muito de sua fama. Que apesar de seu envolvimento com a Sociedade Cearense Liberta e o título de um verdadeiro herói popular, perdeu o seu emprego e passou a seguir a vida como seu pai, vivendo com base na pesca.

Enquanto outros dizem que por ordem de Dom Pedro II ele foi reconduzido ao cargo de prático da Capitania dos Portos em 1889 e que pouco tempo depois, durante o regime republicano, recebeu a patente de Major-Ajudante de Ordem do Secretariado Geral do Comando Superior da Guarda Nacional do Estado do Ceará.

Chico da Matilde morreu aos 75 anos de idade, no dia 5 de março de 1914, naquele dia ele não foi lembrado como um dos líderes da abolição, pois Fortaleza estava passando por um momento de revolução política que era liderada por Padre Cicero e outros homens influentes que visavam a deposição do atual governador do Ceará, Franco Rabelo.

Apesar de não termos conhecimento exato de como Chico da Matilde viveu seus últimos anos de vida, sabemos que ele não recebeu a devida atenção após sua morte, mas mesmo assim, não podemos deixar de ressaltar que o Dragão do Mar foi e continua a ser um verdadeiro ícone na cidade de Fortaleza. O Centro Cultural Dragão do Mar tem esse nome em referência a esse homem que se tornou um representante do movimento abolicionista cearense, o Dragão do Mar também deu nome à rádio, farmácia, escola, rua e prédios públicos no Estado.

Nota
Apesar de falarem que o Dragão do Mar é um mito e o texto comprovar que ele não foi o mentor do movimento abolicionista cearense e que sozinho não teria movido a abolição. Acredito que esse herói popular não perde o seu mérito. Pois afinal, Chico da Matilde participou do movimento abolicionista cearense, foi o líder dos jangadeiros e foi o representante do Ceará em um encontro no município do Rio de Janeiro sobre o movimento abolicionista brasileiro.


Referências:
https://www.youtube.com/watch?v=Pju_WvYfhp8
https://www.youtube.com/watch?v=k-_otlBt4Ds
http://www.dragaodomar.org.br/concurso_text.php
http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/caderno-3/mito-do-heroi-jangadeiro-1.701370
http://anpuh.org/anais/wp-content/uploads/mp/pdf/ANPUH.S25.0389.pdf