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quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Cristais do Navio Amazônia: 35 anos no fundo do mar


Em agosto de 2016 realizamos o resgate das peças de cristal de um dos contêineres do navio Amazônia, naufragado há 35 anos na Enseada do Mucuripe em Fortaleza. 

O Amazônia levava bens produzidos na Zona Franca de Manaus com destino ao Rio de Janeiro. No entanto, ao largo de Fortaleza embarcação teve problemas e adernou na entrada do Porto do Mucuripe. Grande parte de sua carga derivou até as praias do Pirambú, outra afundou na Enseada.

Em 2012 o mergulhador Régis Freitas trouxe para nosso conhecimento a localização de um desses contêineres que carregava produtos de cristal. Começou então uma jornada burocrática para conseguir as devidas autorizações junto ao Estado Maior da Armada liderada pelo pesquisador Augusto César.

Com as autorizações em mão iniciamos o planejamento da operação. Em quatro dias resgatamos do fundo do mar cerca de setecentas peças. Os cristais trabalhados consistem em quatro modelos de petisqueira e fruteiras. Após 35 anos no fundo do mar algumas estão perfeitamente preservadas mas a maioria apresentam algum dano, mesmo mínimo mas que não tira o brilho e a beleza das peças que passaram décadas perdidas e enterradas no fundo da Enseada do Mucuripe e que graças a este trabalho fantástico pode ser apreciado pelo público!

As peças estão divididas em lotes
Primeiro Lote: peças em perfeito estado de conservação ou com algum dano mínimo, ou aquelas do modelo do qual existem menos exemplares .
Segundo Lote: peças com algum dano mínimo.
Terceiro Lote: peças com danos significativos ou com incrustações de seres marinhos.

Modelos
Petisqueira Redonda. Cerca de 28cm de diametro. Grande número de exemplares deste modelo. 1o, 2o e 3o lotes.
Petisqueira Ovalada. Cerca de 28cm x 21cm. Exemplar com o menor número de unidades. 1o lote.
Fruteira Redonda. Cerca de 20cm de diametro. Poucas unidades. 1o lote.
Fruteira Quadrada. Cerca de 21cm de lado, 27cm de diagonal. 1o lote.

Veja a matéria completa!

Gostaria de adquirir um peça com certificado de autenticidade? 
Entre em contato através do email mardoceara@gmail.com ou pelo 85 98844-5180 (oi/wzp).


quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Operação Regaste dos Cristais e o Naufrágio Amazônia

Após 35 sob a água o selo com a marca do fabricante permanece perfeitamente preservado


Em 2 de novembro de 1981 chegava ao Porto do Mucuripe uma embarcação avariada. O navio mercante Amazônia apresentava problemas em suas bombas de esgotamento e já estava um pouco adernado à bombordo quando se aproximava da entrada do porto. Nos momentos finais da aproximação o navio adernou completamente e deitou sobre seu bombordo no fundo da Enseda do Mucuripe. Sua carga foi se desprendendo aos poucos, contêineres e grandes toras de madeira foram despejadas no mar. Começava assim a Operação Resgate dos Cristais!

Alguns contêineres recheados de produtos industrializados na zona franca de Manaus e que antes eram destinados ao Rio de Janeiro flutuaram e foram dar à Praia do Pirambu, assim como sua carga de madeira. A população ficou histérica com a possibilidade de obter algum bem daquele sinistro e a carga foi saqueada! No frenesi do saque algumas pessoas se machucaram seriamente.

No entanto, alguns desses contêineres afundaram antes de chegar a margem levando consigo os produtos que traziam. E eles traziam peças de cristal! Travessas, cinzeiros, recipientes de diversos tamanhos feitos de um material que não se deteriora facilmente sob a água: vidro de alta qualidade, na verdade cristal. Segundo o wikipédia:
"cristal é a denominação popular para um vidro de alta qualidade, transparência e densidade obtido através da adição à massa vítrea (durante a fabricação) de variados sais metálicos e em especial, neste caso, o óxido de chumbo (Pb3O4).[...] Geralmente quando o teor de chumbo é maior que 10% tais vidros ganham a denominação comercial de "cristal", provavelmente se trata de tentativa de conferir uma distinção de "alta qualidade" em comparação aos vidros ditos "comuns". Os teores de óxido de chumbo podem chegar até a 25%."

Nos anos seguintes mergulhadores amadores localizaram e "fizeram a festa" retirando peças de qualquer maneira e sem as devidas autorizações. Os contêineres foram saqueados. Existem relatos sobre cerca de 200 peças oriundas do Amazônia estão agora em Jericoacoara e que peças foram vendidas pela internet. O problema desta prática é que a legislação brasileira é bem protecionista em relação à bens perdidos no mar. Depois de um certo tempo, qualquer bem perdido ou abandonado no fundo do mar passa a ser propriedade do Estado. Portanto, para retirar qualquer peça do mar são necessárias autorizações dos órgãos competentes, no caso a Marinha do Brasil e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. 
O tempo passou e a história foi esquecida. Virou lenda atestada por alguns poucos que ainda lembravam ou conheciam a localização. Em 2006 quando comecei a pesquisar sobre este naufrágio tive dificuldade de encontrar a data mas localizei em jornais antigos fotos do seu afundamento. 

Mais tempo passou e em 2012 Régis Freitas, um mergulhador conhecido como "Régis Doido", trouxe para nosso conhecimento a localização de um desses contêineres. Augusto César Bastos abraçou o projeto de resgatar essas peças com o intuito de doá-las para o futuro Aquário do Ceará.

Augusto batalhou por 4 anos para que seu projeto de exploração fosse aprovado em Brasília. O longo processo burocrático de coleta de assinaturas foi árduo e o documento ainda foi perdido em transito de órgão para outro. Mas em novembro de 2015 ao lado do documentarista Roberto Bonfim, ainda sem a autorização em mãos mas ansiosos à sua espera, lançamos junto com o Atlas de Naufrágios do Ceará o documentário "O Naufrágio Amazônia e o Resgate dos Cristais" em que apresentamos o resgate desta história para o público cearense.

Mas no início de 2016 a autorização estava em mãos e a data escolhida para realizarmos definitivamente o resgate dos cristais. Acertamos meses antes a logística da operação que foi autorizada para ser executada por mergulhadores recreativos. Por este motivo, além do staff da Mar do Ceará, clientes e alunos foram convidados a participar da operação. 

No domingo, 21 de agosto, embarcamos no "Seu Lulu", um traineira de 12m para um curta navegação até o local planejado. Duplas foram definidas assim como suas funções sob a água. A primeira dupla mergulhou para localizar precisamente o contêiner. Fizeram uma busca circular ao redor do local mais indicado e após 20 minutos de busca foi dado o sinal verde. As peças foram colocadas cuidadosamente em caixotes e após alguns mergulhos uma dezena de caixas estavam cheias aguardando uma outra dupla que às elevava para a superfície com o uso de balões infláveis (saco elevatório ou lift bag). Neste dia conseguimos recuperar as peças que estavam expostas na areia.
Interessante observar que grande parte do papelão utilizado para embalar as peças ainda estava preservado e alguns selos com a logomarca do fabricante foram encontrados e é perfeitamente legível o nome "Kaysons Crystal Limitada" e o "CGC 04.299.301/0001-19" mesmo após 35 anos submerso.

Era um contêiner pequeno com mais ou menos 3m x 2m x 2m e toda a sua estrutura se deteriorou exceto sua armação e a parte inferior, enterrada na areia. Por isso nos dias seguintes foi necessário cavar. Utilizamos um sistema de sucção a ar para dragar o fundo  e expor as peças que estavam enterradas. O processo de cavar, coletar, amarrar e içar foi repetido por mais três dias até concluirmos a operação. Foram dias muito divertidos, mergulhos fáceis a 10m de profundidade e com visibilidade média 4m. Após a fase de mergulho, foi necessário limpar e armazenar as peças. 

Parte da carga recuperada será destinada a Marinha que solicitou uma porcentagem. Outra parte será vendida para custear as despesas operacionais. Como não obtivemos resposta do Aquário sobre a nossa oferta de doação idealizamos o "Museu Subaquático de Fortaleza". Mais um projeto de nosso grupo de pesquisas! Aguarde!

Alguns vídeos sobre a Operação Resgate dos Cristais:
Carga de Cristais é Retirada do Fundo do Mar (em 09/11/15)
Operação Conclui Retirada de Cristais do Fundo do Mar (em 26/08/16)

Participaram da Operação
Augusto Bastos
Alexandre Martorano
Alexsander Medeiros
Antônio Frazão
Cynthia Ogwa
Fabiana Santana
Francisco Carlos
Franco Bezerra
Joumar Roussine
Lídia Torquato
Lívia Torquato
Luciano Andrade
Marcondes Férrer
Marcus Davis
Melquíades Junior
Thiago Pereira
Thiago Magalhães
Pedro Emanuel
Rafael Alves

Veja também
Cristais do Navio Amazônia: 35 anos no fundo do mar

segunda-feira, 16 de maio de 2016

O Naufrágio do Alcântara em 1892 - seria o Vapor do Paracuru?

por Augusto César Bastos e Marcus Davis

R. J. H. Saunders era o capitão do Alcântara. Medeleine Saunders, sua esposa, está enterra no Cemitério São João Batista em Fortaleza.
A pesquisa de naufrágios é um trabalho de detetive: juntar as pistas descobertas pelo caminho. É um trabalho quase sem fim, pois a história é extensa e fontes e detalhes surgem a cada dia. E foi assim que tropeçamos na história do vapor Alcântara naufragado em 1892 nas proximidades da praia do Paracuru.

É de nosso conhecimento que existem dois naufrágios no litoral da Praia do Paracuru. Um deles está a cerca de 13 km da praia naufragado a 18m de profundidade, popularmente conhecido como "Vapor do Paracuru" e ainda não foi corretamente identificado por nossa equipe. O outro está encalhado na praia, também em Paracuru, nas proximidades da ponta da Piriquara, mas tem sua identidade conhecida, era o vapor Ceará encalhado em 1889.

O Vapor do Paracuru era um navio antigo. Possuía caldeiras para propulsão e as chapas de metal que constituíam seu casco foram rebitadas umas nas outras, tecnologia que caiu em desuso por volta da década de 20. Essas evidências são indícios de tratar-se de uma embarcação construída antes desse período o que a coloca no mesmo espaço de tempo em que o vapor Alcântara navegava em nosso litoral. Seriam o Alcântara e e o Vapor do Paracuru a mesma embarcação? 

“Dos relatos da vovó Raimundinha lembro bem da tragédia com sua irmã Rosa Virgínia (Rosinha). Rosinha morava em Manaus onde as fortunas eram fáceis e atraíam grande número de brasileiros e estrangeiros. O marido de Rosinha faleceu de malária e deixou a viúva com muito dinheiro e jóias. Ela desfez os negócios em Manaus e embarcou no vapor Alcântara com destino ao Acaraú. Esse navio naufragou na costa de Paracuru.
Rosinha, como era hábito na época, carregava consigo muito dinheiro e jóias.
Com ela, viajava um seu compadre solícito e prestativo. Na hora do desespero, ele ajudou Rosinha a subir numas pranchas e prontamente ficou com sua valise e uma bolsa. Ele sabia de suas “valiosas” cargas. Pegou um bote para voltar com socorro e não mais regressou. Rosinha sucumbiu junto com o comandante do navio que esperavam inutilmente por ajuda.
Anos depois, esse solícito amigo, em seu leito de morte, angustiado pelo remorso e na presença de muitas testemunhas, relatou toda a cena do naufrágio e chamava o nome de Rosinha pedindo perdão.
Foi assim que a família ficou sabendo da verdade. Ele deixara sua comadre morrer sem socorro para ficar com seus bens.
Esse naufrágio foi no dia 27 de junho de 1892, em Paracuru. O comandante desse vapor Alcântara está sepultado aqui no São João Batista e seu túmulo é próximo à Capelinha da família de Leocádia da Costa Araújo.
Há uma lápide de mármore: R J H Saunders M.I.C.E. Fica no primeiro plano, à esquerda da alameda central.
Vovó Raimundinha sempre que ia à nossa capela dava uma passadinha para rezar pela alma do comandante e dizia “ele e minha irmã passaram juntos os últimos momentos de vida”.
O poeta cearense Lívio Barreto, membro da Padaria Espiritual e um dos mais expoentes de sua geração, se encontrava também embarcado mas conseguiu sobreviver, pois era um bom nadador e chegou até a costa.

Essas anotações chegaram pelas mãos do Dr. Barroso, médico aposentado, que também possui peças do naufrágio. Uma bússola, uma travessa e os pés de uma mesa.

A bússola do vapor Alcântara, naufragado em 1892.

Esse naufrágio foi citado no livro “Datas e factos para a história do Ceará” de Barão de Studart.

É tentador afirmar que o nome real do Vapor do Paracuru é Alcântara. No entanto, esses fatos por si não são suficientes para uma confirmação. Sabemos que existe o vapor do Paracuru e o vapor Ceará, mas e se houver um terceiro? Ou mesmo um quarto naufrágio a vapor na região ainda não conhecido? Registros históricos apontam pelo menos um terceiro naufrágio na região: o vapor Aripuanã, naufragado em 1920, próximo a praia do Pecém...

Fotos
Augusto César Bastos

Leia também:
O Encalhe do Paracuru
Expedição ao Vapor do Paracuru
Novas Informações sobre o Encalhe do Paracuru - o vapor Ceará

terça-feira, 22 de março de 2016

O Barco de Acaraú seria o famoso Iate Palpite?


Mergulhador junto a estruturas do naufrágio O Barco de Acaraú. 

Segundo artigo publicado neste site por Augusto César Baros, "em 1859 foi criada uma comissão com o objetivo de fazer um levantamento nas províncias do Norte do Brasil, para pesquisar sobre os recursos minerais, hidrográficos, botânicos e mais outros, que sob o patrocínio de Dom Pedro II, amante da ciência, foi denominada de “Comissão Científica Exploradora”.

Esta comissão foi motivo de grande discussão no Império, sendo inclusive chamada de “Comissão das Borboletas”, devido à controvérsia sobre o seu trabalho. Composta por renomados profissionais de sua época, dentre eles, Gonçalves Dias, Barão de Capanema, o pintor José dos Reis Veloso, e depois objeto do trabalho de escritores como Gustavo Barroso, Renato Braga, Barão de Studart, o fato é que parte deste material produzido foi á pique junto com o barco que o transportava.

O Palpite
Iniciou no Ceará passando por Baturité, Guaramiranga, Ibiapaba, e, em Camocim, à partir da conclusão de seus trabalhos, formando assim um acervo de informações. Capanema contratou o transporte de parte desse material de Camocim para Fortaleza por via marítima através de uma embarcação tipo iate denominada "Palpite"."

Capanema foi um dos mais controversos membros desta comissão sendo atribuída a ele uma total falta de compromisso com os estudos propostos por Dom Pedro II. Ainda, foi especulado se o motivo do transporte marítimo de carga tão valiosa teria sido um naufrágio intencional visto a baixíssima produção cientifica realizada por este cientista.

O fato é que o Barão de Capanema contratou um barco chamado Palpite para transportar parte do resultado de seus estudos para Fortaleza e este barco naufragou no dia 13 de março de 1861 próximo da foz do Rio Acaraú (CAVALCANTE, 2012). Freire Alemão registrou em seu diário a notícia publicada pelo jornal "O Cearense". Um outro registro de Eduardo Campos também menciona a construção de uma embarcação chamada Palpite em meados da década de 1840.
Naufrágio: Pelo último vapor do norte receberam-se cartas da Granja por via de Maranhão noticiando a perda do iate Palpite que vinha para esta capital e trazia a bordo toda a bagagem que o Dr. Capanema não quis levar consigo para a Serra Grande, onde tencionava fazer uma excursão rápida, e em estação invernosa temiam achar todos os rios cheios. Entre os objetos perdidos vinha nas malas de roupa o livro de registro de todas as observações meteorológicas que cita até Sobral, da mesma sorte as observações astronômicas, e a descrição geológica da província, todos os manuscritos; e enfim as notas que serviam para passar o tempo quando [ilegível] demora em qualquer lugar [ilegível]. Perdeu-se igualmente toda a coleção fotográfica, uma série de vistas de nossas cidades e povoações, tipos, dendrológicos, utensílios usados pelo nosso povo, mas [apagado] etc. Assim como algumas fotografias de objetos microscópicos. Alguns instrumentos, livros, objetos preparados para analise química, entre eles os gases e águas do Pagé, varias plantas medicinais, e a maior parte das coleções de Sobral e Meruoca. Em um momento perderam-se trabalhos, que custaram tantas fadigas ao Sr. Capanema, e seu Adjunto o Cap. Coutinho, e muitas vezes foram eles eficazmente auxiliados pelo bom amigo, e companheiro de viagem o Dr. Dias; ao todo 13 volumes. Segundo notícias, que correm apenas escapou a tripulação do Navio. (Diário de Freire Alemão)
Esboço do croqui do naufrágio com indicações das estruturas principais. Por Marcus Davis. Todos os direitos reservados. 
O Barco de Acaraú
Atualmente a cerca de 4 milhas náuticas da foz do Rio Acaraú existe um naufrágio conhecido como "O Barco" ou "O Barco de Acaraú". Seguindo indicações do engenheiro de pesca Toivi Masih Neto que conhece bem a região fomos até o local. O naufrágio está a 7m de profundidade e completamente destruído. O sítio tem aproximadamente 35m de comprimento por 6m em sua largura máxima. É possível reconhecer o molinete da âncora, correntes (com elos característicos de um período passado) e uma grande âncora tipo almirantado. 
Molinete da Âncora

Os cavernames (as "costelas") de metal estão presentes mas não há sinal do casco, o que sugere que este revestimento fosse de madeira que é rapidamente decomposta no mar. Pelo posicionamento das estruturas é possível deduzir que o navio tocou o fundo sobre seu boreste colapsando aos poucos devido as forças da correntezas passam no local. 

Apesar de uma estrutura metálica cilíndrica na área da proa, há uma completa ausência de estruturas associadas a motores, tais como hélice, eixo, máquinas, etc, o que sugere uma embarcação à vela de grande porte. Essa estrutura cilíndrica metálica apresenta rebites em suas juntas o que indica que não foi construída utilizando métodos modernos de soldagem empregados a partir do início do século XX.
Abundância de peixes recifais

Uma explosão de vida marinha é observada na forma de pequenos peixes recifais, moreias e frequente visita de arraias.  

O local e condições conhecidas do afundamento do Iate Palpite em muito coincidem com as encontradas no naufrágio chamado "O Barco de Acaraú". O tamanho do sítio, o tipo de estruturas encontradas no local são fortes indícios de que tenhamos encontrado o famoso Iate Palpite. Estudos mais acurados e pesquisas inloco se fazem necessárias para só então podermos afirmar com certeza que encontramos o controverso Iate Palpite.

Vídeo do sítio.


Participaram da expedição
Franco Bezerra
Junior Alves
Marcus Davis

Texto e Fotos
Marcus Davis

Fontes
O Naufrágio do Iate Palpite ou seria o Iate Invencível?

Jornal O Povo
Percepções e Limites do Fazer Científico: o caso da imperial comissão científica de exploração (1859-1861)
A Fortaleza Provincial, Eduardo Campos, 1988
“O Brasil é o Ceará”:as notas de viagem de Freire Alemão e Capanema e suasimpressões sobre o Ceará (1859-1861), Francisca Cavalcante, 2012

quarta-feira, 25 de março de 2015

Remédios: Naufrágio Cearense em Miniatura

Cabine de Comando com janelas pequenas; e as metralhadoras com montagem dupla que não existem no naufrágio


Rampa de desembarque
Um hobbie, uma missão: trazer para a superfície navios que naufragaram no Ceará. Esse é o segundo de uma série de embarcações que sairão do "Mini Estaleiro Mar do Ceará"! Montado a partir de um kit pré fabricado da marca Lindberg na escala 1/125. Conheça mais do naufrágio mais inteiro do Ceará.

O naufrágio que hoje conhecemos como "Remédios" um dia foi um navio de desembarque de tropas de médio porte. Quando o visitei pela primeira vez logo soube que se tratava de uma embarcação militar: sua rampa de desembarque, o formato e tamanho das vigias e o seu sistema de recolhimento da âncora, o guincho ser localizado na popa, e não na frente da embarcação revelavam ser um navio diferente.
Cabine de Comando

O sinistro aconteceu em 1986 e desde então este local já teve muitos nomes. Era conhecido na região por "Remédios" ou, para alguns mais prosaicos, "Nossa Senhora dos Remédios". Quando passamos a visitar-lo notamos em alto relevo as seguintes inscrições: "Cypress -  US Army" o que mudou temporariamente o nome daquele pequeno navio. Pouco depois o pesquisador especialista em naufrágios Maurício Carvalho localizou a história do navio "Forte dos Remédios". Fora comprado pelo governo brasileiro por U$ 217.000,00 junto com outra embarcação que atualmente também encontra-se naufragada. Seu objetivo era abastecer a ilha de  Fernando de Noronha que não possuía um porto até 1986 ano em que foi inaugurado o Porto Santo Antônio. 
Bombordo: presença de escotilhas
 frontais e ausência do armamento

Mas o tempo do Forte dos Remédios conosco foi curtíssimo. Na verdade nem chegou a operar em águas brasileiras. Enquanto trazido dos EUA onde foi comprado, ao largo do litoral de Aracati, encontrou mar grosso e vento forte característicos da região. A tripulação do velho navio que ainda não havia sido reformado emitiu pedidos de socorro por volta das 03:00 da manhã do dia 1 de novembro de 1986. Os oito tripulantes foram resgatados por helicópteros já em botes. Apesar da possibilidade reflutuação da embarcação, os custos da operação não compensariam e o Estado Maior optou por abandonar-la e receber o seguro.
Convés de Popa: escotilhas e
guincho de popa ao fundo

Hoje é um lindo local a ser visitado com grande tubarões-lixa em seu interior e cardumes de peixes ao seu redor, barracudas também são avistadas à boreste, assim como arraias e outros animais marinhos. É comum encontrarmos pescadores na superfície sobre o naufrágio maravilhados com os peixes que fisgam e sem ter muita ideia de que tem lá no fundo a apenas 15m deles.

No modelo podemos observar a rampa frontal, o vasto convés de proa no qual cabiam até 5 tanques sherman, a cabine de comando elevada para manobrar o navio, e o sistema de guincho de popa
Comando e convés de proa
responsável por recolher a ancora e desencalhar o navio após a operação de descarga. 

Notamos também pequenas divergências: no modelo temos duas metralhadoras de montagem dupla que não existem no naufrágio, provavelmente removidas para que não caísse na mão de nenhum mergulhador mais habilidoso; no modelo existem menos escotilhas e portinholas que no naufrágio, nessa série os contrutores possivelmente não vissem necessidade de uma blindagem tão reforçada, talvez por ser uma embarcação de apoio.

Veja fotos do modelo mas não deixe de conhecer o Naufrágio dos Remédios pessoalmente! Confira nosso calendário!


Rampa de Desembarque (mesmo angulo da foto real acima)

Cabine de Comando (mesmo angulo da foto real acima)

Bombordo: presença de armamento e ausência de escotilhas (mesmo angulo da foto real acima)

Convés de Popa (mesmo angulo da foto real acima)

Comando e convés de Proa (mesmo angulo da foto real acima)
Popa: âncora e lemes

Proa e convés de proa


Sistema de guinho de popa
O LCT Forte dos Remédios
Planta do LCT Mk5



Veja também:
Calendário



quarta-feira, 30 de abril de 2014

O que é a Arqueologia Subaquática das Guerras Mundiais?

por Paula Christiny
Arqueologia Subaquática . Foto: P3
Temas referentes a guerras têm um grande público, são vários sentimentos como dor, medo, fascinação que povoam a mente das pessoas a cerca de quando se fala acerca campanhas militares. Em virtude disso, videogames, sites, inúmeras publicações são feitas todos os anos com um novo aspecto de algum conflito. Muitas fazendo do mesmo um meio de entretenimento.

Tomando como exemplo a Segunda Guerra Mundial, constantemente vemos em bancas de jornal, livrarias ou na TV qualquer coisa referente a isso. Pode ser sobre o Nazismo, o Holocausto, a Bomba Atômica, a atuação dos EUA, a tecnologia armamentista, participação do Brasil no conflito e o que mais se possa imaginar. Mesmo diante de tantas publicações ainda existem muitos aspectos não elucidados acerca desse grande conflito. 

Curso de Arqueologia Subaquática
(Mar do Ceará /UFC/UFPI)
A partir da disso, arqueólogos estão dando sua contribuição para saber mais sobre Segunda Guerra Mundial. Quem pensa que Arqueologia só pesquisa tempos bastante remotos, está bastante enganado. Qualquer época pode ser estuda por essa ciência: que é definida como disciplina que estuda por meio de vestígios materiais, vários aspectos de vidas passadas. Ou seja, nada diz que só se estuda fosseis.

O fato é que muitas recentes descobertas arqueológicas e pesquisas históricas feitas em objetos não bem observados em outros estudos trazem novos conhecimentos importantíssimos sobre o tema. Em mar e terra arqueólogos estão trabalhando no sentido de trazer mais conhecimento sobre períodos belicosos. No campo da Arqueologia Subaquática são estudadas embarcações e outros artefatos bélicos afundados, que são riquíssimas fontes históricas e arqueológicas.

Feitas inicialmente por exploradores, Arqueologia das Guerras realizada nos mares era apenas a identificação e localização de restos de navios para descobrir as causas de naufrágios. Então surge como tema de pesquisa, a Arqueologia Subaquática das Guerras Mundiais que estuda testemunhos materiais de períodos belicosos, tentando abordar o lado social que nesses objetos, abordando aspectos culturais, sociais, econômicos, políticos, religiosos. Tal campo é profundamente frutífero devido gigantesco numero embarcações e aeronaves que foram sobraçadas nos tempos Guerras Mundiais. 

Nos anos finais da década de 80, e início anos 90 do século XX, o NHHC (Naval History and Heritage Command) da Marinha dos Estados Unidos desenvolveu as primeiras pesquisas em sítios de naufrágios formados por restos de navios da Marinha norte-americana e sítios de naufrágios e restos de aviões de seu país oriundos das Guerras Mundiais , sistematizando estudos arqueológicos subaquáticas sistemáticas nessa área .

Canhão de Popa do Navio do Pecém
torpedeado durante a II Guerra
Pode-se pensar que tais afundados ocorridos no período são protegidos por sua importância histórica, porém segundo a UNESCO apenas naufrágios com pelo menos um século são considerados patrimônio subaquático. Entretanto muitos naufrágios sem essa idade sofrem pela própria ação do tempo ou saques. Só para constar, aquele navio “pouco conhecido” chamado de Titanic, afundado em 1912, até dois anos atrás, antes completar 100 anos, segundo a UNESCO não poderia ser poderia receber o título de patrimônio subaquático. Fica a questão o naufrágio não teria importância histórica não mereciam ser protegidos e preservados?

Essa mesma indagação serve aos afundamentos do período da Segunda Guerra. Vamos ao caso do encouraçado alemão Bismarck, moderno navio de combate alemão, posto a pique pela esquadra inglesa do Atlântico em de maio de 1941. Ele fora um dos maiores exemplos das inovações bélicas da guerra e causador uma das maiores batalhas navais do século XX, sendo prioridade máxima da marinha inglesa afundar o Bismarck. Longe de completar um centenário o encouraçado não está nos moldes de patrimônio subaquático. Tal critério de seleção deixa naufrágios de grande significado vulneráveis aos caçadores de tesouros e a venda de espólios. Além disso, se faz necessária a mudança urgente da legislação o material de construção de alguns equipamentos bélicos como aviões são muito frágeis e durante a espera um século abaixo d’agua, pode sofrer a deterioração total.

Até pouco tempo atrás pouco se tinha sido feito para se saber mais sobre aspectos de naufrágios durante Segunda Guerra e outras do século XX. A Arqueologia das Guerras mundiais visa corrigir essa ausência e garantir a preservação desse patrimônio. Dessa forma, fazendo uma contribuição para que os sítios arqueológicos submersos referentes às Guerras sejam classificados como patrimônios culturais da humanidade.

USS Missouri, Navio-Museu em Pearl harbor
Nos Estados Unidos
Um exemplo de sucesso desse tipo de trabalho é o monumento criado em homenagem ao ataque de Pearl Harbor ocorrido na Segunda Guerra Mundial. No dia 7 de dezembro de 1941, a Marinha Imperial Japonesa fez um ataque surpresa contra os Estados Unidos, o alvo foi base de Pearl Harbor, localizada no Havaí, no Oceano Pacífico. Navios de guerra e outros alvos militares oram bombardeados por mais de 350 aviões japoneses, foram usados metralhadoras em alvos estratégicos e lançadas bombas perfurantes e torpedos contra encouraçados e destroieres. Foi um ataque muito bem sucedido, pois, as defesas estadunidenses não estavam preparadas para se defender.

Entrada do Centro Histórico
de Pearl Harbor. Foto: Marcus Davis.
Foram cerca de 2.400 americanos foram mortos no ataque e 1.250 ficaram feridos. Grandes danos sofreu a frota, ficaram danificando gravemente ou destruindo 12 navios de guerra, destruiu 188 aviões, que constituíam quase toda a frota de aeronaves em bases aéreas da área. Depois do ataque, o Japão aos Estados Unidos. No dia seguinte, Roosevelt assinou uma declaração formal de guerra contra o Japão. Dias depois, a Alemanha nazista e a Itália se uniram aos nipônicos e declararam guerra aos Estados Unidos. Esse episódio marcou profundamente os EUA e decretaram sua entrada a Segunda Guerra Mundial. Ele, ainda hoje, comove os estadunidenses que ainda lamentam e tratam o mesmo como uma enorme infâmia.

Visando homenagear as perdas em Pearl Harbor o sítio arqueológico e histórico de naufrágio formado pelos restos do encouraçado da Marinha dos Estados Unidos foi objeto de intensas pesquisas que culminaram na construção do USS Arizona Memorial. 

O USS Arizona era da classe Pennsylvania, construído em 1916, estava equipado com 12 canhões de 14 polegadas (356mm), deslocava 39.200 toneladas, atingindo 21 nós. Lutou na Primeira Guerra Mundial foi naufragado nos 15 minutos iniciais do ataque, ele foi atingido por diversas bombas de aeronaves que danificaram gravemente. Às 08h10min da manha, o bombardeiro japonês Nakajima B5N2 “Kate” lançaria uma bomba de 1.760 libras que penetraria em seu o encouraçado e depois explodiria causando uma grande explosão e um incêndio de dois dias e meio, tirando 1.177 vidas.



USS Arizona ainda sangra no fundo da baía de Pearl Harbor. Foto: Marcus Davis
No local onde o USS Arizona afundou foi construído um memorial em 1962 aproveitando a carcaça em honra a sua tripulação e até hoje o óleo do motor do navio sobe para a superfície. A estrutura do museu é em forma de ponte e atravessa o navio naufragado sem tocá-lo, sendo sustentada nas duas extremidades. Acessível somente por balsas, recebe mais de 1 milhão de visitantes anualmente. Em 1998 foi iniciado projeto de preservação do USS Arizona que busca a preservação dos restos do encouraçado, pesquisas se segue no naufrágio para se obter informações sobre o deterioração do. Tal projeto é uma alternativa de preservação para outros sítios arqueológicos de naufrágios, não se sabe ainda se a mais adequada. Mais do que a iniciativa de preservar, vale a de se pesquisar sobre esses afundamentos. Porém, o mesmo ainda se mostra cheio de desafios e questões, pois setenta anos depois do que ocorreu em Pearl Harbor, é possível ver o óleo que ainda vaza dos destroços do USS Arizona.

Mesmo com relevante papel no conflito, iniciativas na linha de pesquisa (Arqueologia Náutica, Marítima) que abrangem Arqueologia das Guerras Mundiais nos meios acadêmicos estão em estágios iniciais no Brasil. A mais relevante delas, feita pelo Ms. Otávio Arruda Porto traz resultados promissores. O autor apresenta uma significativa contribuição para a Arqueologia Subaquática Brasileira discutindo o estudo da Arqueologia das Guerras e a possibilidades da sua aplicabilidade no Brasil através do levantamento dos sítios de naufrágios da costa de Sergipe no período. Outros trabalhos estão ligados a Marinha do Brasil que produz e distribui texto nas áreas de história naval e tradições navais a maioria delas traz memória da participação da Esquadra Naval Brasileira em batalhas em águas territoriais brasileiras.


No Brasil

Um exemplo de pesquisas feitas sobre Arqueologia de Guerras no Brasil foi a expedição da família Schurmann e pesquisadores da Universidade do Vale do Itajaí que encontram, em julho de 2011, à profundidade de 135 m, submarino nazista U-513, afundado em 1943, na costa catarinense. Desaparecem com o U-boot 46 tripulantes, sobreviveram 7 entre eles o comandante Guggenberger. Era projeto da Família Schürmann, a partir da descoberta, explorar o seu interior. A Marinha brasileira, entretanto, em 2013, negou a licença para explorar o interior do submarino alegando que o mesmo era túmulo de guerra.

Navio inglês SS Baron Dechmond torpedeado a 30km do litoral do Ceará.
No Ceará 
Existem possibilidades amplas para esses estudos. Pode-se citar como exemplo o navio SS Eugene Thayer afundado pelo submarino italiano Pietro Calvi em tempos de guerra no litoral norte do Estado. Outro exemplo é o navio Baron Dechmont (Barão de Dechmont) torpedeado em 3 de Janeiro de 1943 pelo submarino alemão U-507 durante a II Guerra Mundial. Pretendo não me alongar muito no texto, então, quem quiser informações mais detalhadas elas estão aqui no site.

A Necessidade da Pesquisa
Salienta-se que essa pesquisa não se trata de apologia institucional e sim de eventos do cotidiano de homens e mulheres que estiveram presentes em momentos de crise. Artigos relacionados ao tema ficam restritos a publicações militares ou as especializadas em mergulho que fazem importantes trabalhos, porém têm menor circulação, restringindo o número de pessoas que tem acesso a esse tipo de informação. Muito do que se escreve sobre naufrágios vem de fontes oficiais quem em vários casos seguem o modelo da historiografia tradicional. Assim muito do que esses afundamentos podem nos dizer ficam omissos dentro dos relatos das histórias dos vencedores.

O que se buscou com esse artigo mostrar as possibilidades da aplicação da Arqueologia Subaquática das Guerras Mundiais. Por todo mundo existe uma grande diversidade de sítios arqueológicos de naufrágios de diferentes nações ainda sendo desprezados por sua juventude. Mesmo no Brasil, são quase que inexistentes tentativas de pesquisas nessa área.

Para saber mais:
Link dissertação Ótavio Arruda Porto:
http://bdtd.ufs.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=1377
Informações sobre o monumento de Pearl Harbor:
http://www.naturalhistorymag.com/htmlsite/master.html?http://www.naturalhistorymag.com/htmlsite/editors_pick/1991_11_pick.html

Site do U-513:
http://www.u-513.com/