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terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O Afundamento do Petroleiro do Acaraú - o Eugene V. R. Thayer

A proa do Eugene V. R. Thayer aponta para a superfície.

Maquete do navio em revista
na década de 30.
Nome: Eugene V. R. Thayer
Posição: 30 milhas de Itarema, CE
Capitão: Bodvar F. Svenson
Fabricado: 1920
Tipo: Petroleiro
Carga: Água de Lastro (o navio não estava carregado)
Propulsão: Vapor
Dimensões: 135,6m x 18m x 10m
Data do Ataque/Afundamento: 09/04/1942 e 11/04/1942
Observações: navegava à 12 kt quando atacado

O Eugene V. R. Thayer foi atacado pelo submarino Italiano Pietro Calvi (Olivieri) enquanto navegava de Buenos Aires, Argentina, para Caripito, Venezuela.

A cana do leme na popa destruída
do navio.
Enquanto o Thayer navegava sem manobras evasivas e com todas as luzes acesas, o submarino se aproximou por boreste, em paralelo ao petroleiro e segundo alguns relatos, disparou um torpedo que atingiu o navio. Uma explosão aconteceu logo em seguida iniciando uma perseguição.
O navio tentou manter o submarino à ré enquanto este salpicava o navio com suas armas de convés e metralhadoras. O rádio operador do Thayer mandou vários sinais de SOS enquanto o submarino atirava contra o navio.
Sem o conhecimento do capitão, no ápice do ataque, dez membros da tripulação entraram em pânico e tentaram lançar um barco salva vidas sem ordens. Estilhaços devem ter atingido e matado um ou dois desses homens enquanto preparavam o bote para evacuar o navio. Quando eles lançaram o bote o petroleiro ainda estava navegando em velocidade máxima e o barco salva vidas afundou ao bater na água. Todos os homens desse bote se afogaram.
Os pistões que moviam o petroleiro.
O capitão ordenou o abandono do navio às 22:45h depois que os esforços de despistar o submarino falharam. Os tripulantes remanescentes, oito oficiais e dezenove marinheiros abandonaram o navio em dois barcos salva vidas. O Calvi atirou cerca de trinta rodadas antes da tripulação abandonar o petroleiro, e o navio pegou fogo cerca de dezenove minutos após o início do ataque.
Ao meio dia da manhã seguinte dois avião localizaram um dos barcos com treze sobreviventes. Um pousou e os levou para Natal, RN. Trinta e seis horas após o ataque os outros treze sobreviventes chegaram à costa, sete milhas ao  norte de Aracati, CE [sic*]. O Eugene V. R. Thayer naufragou dois dias depois. Um oficial e dez homens morreram no ataque.
* É impossível que tenham chegado a Aracati. O afundamento se deu no litoral oeste e Aracati está no litoral leste, na direção contraria às correntezas predominantes.

Tradução Livre
Marcus Davis

Fonte
United States Merchant Marine Casualites of World War II, por Robert M. Browning Jr.

Um guincho de âncora totalmente coberto por corais no convés da proa. Esta é a área do navio que está melhor preservada.

Possui três caldeiras.

Escotilha de acesso aos compartimentos de carga.

Algumas partes estão bem destruídas

Confirmação da identidade do naufrágio.

Mergulhadores junto ao costado.

Há fortes correntezas no local.

Veja também
O Ceará e a II Guerra Mundial: O Afundamento do "SS Eugene V R Thayer" e o "Petroleiro do Acaraú" - Mais um navio identificado no Ceará?
Uma imagem do navio Eugene V R Thayer: o Petroleiro do Acaraú


domingo, 12 de fevereiro de 2017

Uma imagem do navio Eugene V R Thayer: o Petroleiro do Acaraú

Imagem da maquete do Eugene V R Thayer, o Petroleiro do Acaraú. Agradecimento a Claudio Braga. Legenda: "Modelo do Eugene V. R. Thayer, o primeiro da nova série de navios petroleiro da Sinclair Oil que encorpa varias novas melhorias nunca antes empregadas na construção de um navio petroleiro."

O Petroleiro do Acaraú sempre encantou os mergulhadores cearenses. É um mergulho difícil por estar muito distante da costa e pela presença de fortes correntezas. Está naufragado desde 1942 quando foi torpedeado por um submarino italiano durante a Segunda Guerra Mundial. Tratava-se de um petroleiro movido a vapor de nacionalidade americana chamado Eugene V R Thayer. Hoje é habitado por arraias, barracudas e uma fauna marinha diversificada.
Imagem disponível anteriormente.

Sua história foi contada aqui no blog e no Atlas de Naufrágios do Ceará, publicado em 2015.
Recentemente passamos a organizar expedições para este naufrágio e identificamos a presença de uma espécie invasora de coral: o "coral sol", alvo de artigo científico publicado em parceria com Universidade Federal do Ceará.

As imagens conhecidas desde navio ainda em operação eram de baixíssima qualidade e desejávamos uma imagem mais nítida. Contatei meu tio Claudio Braga que mora nos EUA e é também um curioso sobre assuntos relacionados a Grande Guerra. Ele nos conseguiu uma imagem de uma revista da década de 30 em que aparece uma maquete do Eugene Thayer!


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

O Submarino Pietro Calvi - o Italiano que afundou o Petroleiro do Acaraú

por Augusto César Bastos
Smg. Pietro Calvi, o algoz do Petroleiro do Acaraú, sendo o mesmo o navio americano Eugene V. R. Thayer, e também do Balkis, na costa do Ceará. Fotos: Con la pelle appesa a un chiodo

Em julho de 1942, depois de um turno de trabalho e de manutenção, o Calvi zarpou de Bordeaux sob o comando do Capitão de Fragata Primo Longobardo, diretamente para zona de operação nos mares dos Caraíbas (Pequenas Antilhas). O comandante Longobardo, que já tinha atuado no Atlântico comandando o LuisiTorelli, afundando quatro navios mercantes (o Nemea, o Brask, o Urla e o NimolaosFilinis) em uma só missão, já era para estar servindo em terra no Alto Comando da Força Submarina, em função de sua idade (41 anos, mais velho que a maioria dos jovens oficiais no comando de submarinos e pela necessária resistência física exigida para as missões no atlântico).

Em um momento de escassez de oficiais, e em seguida ao adoecimento do Comandante do Calvi, Olivieri, pouco depois da partida para missão, o comando do Calvi foi assumido por Longobardo, com o submarino tendo recentemente renovado a tripulação, com a chegada de muitos jovens recrutas de primeira viagem, cuja formação se ocuparia Longobardo; quando uma unidade estava pronta para zarpar, o Comandante reunia a tripulação e oferecia a possibilidade de desembarcar, mas todos estavam dispostos a partir com ele.

Antes da partida enquanto Longobardo falava brevemente com ocomandante do BETASOM, contralmiranteRomoloPolacchini, (quando estava embarcando e a tripulação aguardando), se verificou um pequeno episódio , cuja índole supersticiosa dos marinheiros atribui um mau agoro: um jovem guarda-marinha colocou sobre a torreta do Calvi, uma magnólia branca para celebrar a nova missão, mas foi subitamente criticado pelo Chefe de máquinas, que lhe gritou. “tire isto daí que dá azar”, ordenou ao guarda-marinha, seguido de risos por outros oficiais. Durante a partida de Bordeaux, outros oficiais vieram saudar Longobardo, bem como o Almirante Polacchini.
O Pietro Calvi e sua tripulação.

Em 13 de julho o submarino recebeu ordem para se aproximar de um piroscafo isolado, (um tipo de mercante), do tipo “Andalusia Star”, e rastreá-lo. Na noite entre 13 e 14 de julho o submergível se aproximar do comboio SL 115, que estava na rota de Serra Leoa (Freetown) para o Reino Unido, escoltado pelos Sloopps: Lulwoth, Londonberry, Bideford e Hastings. Cuja localização tinha sido informado no sul dos Açores, pelo submarino alemão U-130, e de atacar só se as condições fossem favoráveis.

O Calvi em dupla com o submarino alemão U-507, se aproximaram para investigar o comboio, avistando às 19:30de 14 de julho, 575 milhas à oeste de Tenerife, vindo se agrupar o U-130. Por volta de duas horas depois, a presença do Calvi foi detectada pelo “radiogoniometro” HF/DF (um aparelho que interceptava os sinais emitidos por rádios, e individualizava a localização e de onde vinham) do HMS Lulworth e esta unidade sob o comando do Capitão de Corveta Clive Gwinner, foi enviada para investigar o forte sinal emitido. O sloop britânico avistou o U-130 e oCalvi que imediatamente fizeram manobras de imersão. Cerca de uma quarto de hora depois, enquanto a tripulação do Calvi estava observando o U-130, que estava passando a aproximadamente 900 metros ao seu lado, não perceberam que o Lulworth navegava com a proa apontada em sua direção. O Comodante Longobardo ordenou novamente submergir, para profundidade de 90 (por outra fonte 75) metros (uma fonte indica às 22:30, como horário de localização do Calvi, mas não especificou o fusohorário). Quando assumiu a cota da manobra o Calvi, navegou em rota oposta, entre 1 e 2 nós. O Lulworth levou uma hora e meia novamente para localizá-lo, e na posição 30 07`N e 26 07`O, iniciou o lançamento de cargas de profundidade reguladas para 15 e 42 metros. O Comandante Longobardo, em seguida ao primeiro ataque (que não havia causado danos), decidiu navegarainda mais fundo, quando então foi atingindo pelo segundo ataque do sloop, com bombas reguladas para profundidades de 45 e 91 metros, sofrendo graves danos e teve avariado seu motor elétrico Calzoni. O Comandante ordenou submergir mais ainda, levando o Calvi para profundidade de 115/120 metros. Medida inútil; a terceira onda de cargas regulada para 105 metros, explodiu muito próximo, fazendo inclinar fortemente para bombordoo submarino, que imergiu para cerca de 200 metros. Com o compartimento de popa alagado (uma fonte já indicava este alagamento na segunda carga), e mesmo com uma tripulação novata em sua primeira missão, não houve pânico. E sim uma certa confusão; o capitão “del gênio navale Ernesto Maccota, ficou tranquilamente apoiado em uma bancada, anotando em seu diário o número de cargas e a profundidade que explodiam em torno do submergível.
A planta do submersível.

Após as avarias foi constatado que não haveria ar suficiente e que o compartimento 3 estava também alagado, comprometendo sua possibilidade de manobra e levando ao risco de afundamento, se permanecesse no fundo. O Comandante Longobardo ordenou emergir rapidamente o submergível, que subiu rapidamente inclinado para esquerda. Com sua metralhadora atingida por uma carga de profundidade e seu canhão também fora de combate, só restou o canhão de popa em funcionamento, com um só motor o Calvi tentava se afastar do Lulworth, avançando lentamente, atirando com o canhão que ainda restava.

Iluminado por um luminoso lançado pelo sloop e depois por um holofote, o Calvi passa a ser atacado. Há menos de 500 metros de distância o Lulworth atingiu a coberta onde estava o canhão de popa do Calvi com uma rajada de metralhadora, ferindo ou matando todos que lá se encontravam. O Calvi na tentativa de escapar lançou dois torpedos dos tubos de popa, obrigando a nave britânica a manobrar rapidamente para evitar ser atingida. Por duas vezes o sloop tentou a colisão, mais o Calvi manobrou e conseguiu escapar habilmente. Na terceira vez no entanto a embarcação britânica colidiu com o submarino destruindo seu hélice direito e arrastando o submergível. ( a colisão também provocou avarias na nave britânica, que ficou todo mês de agostoem reparo).

Dois marinheiros que estavam no canhão de popa, o subtenente Villa e o segundo chefe Marchion, ainda estavam vivos. Vendo sua embarcação imobilizada e em chamas, com armamento em péssimas condições, o comandante Longobardo ordenou a evacuação da tripulação para a coberta e depois abandonar o submergível para depois iniciar o afundamento. Nesse momento um tiro de canhão de 76 mm do Lulworth acertou a torreta do submarino matando ele, o suboficial de rota e também o subtenente Guido Bazzi, deixando a tripulação, conforme publicação do relatório britânico em agosto de 1942, “como uma família sem pai”. O segundo comandante, subtenente GennaroMaffetone, que estava combatendo com seus homens no canhão de popa, levou um tiro e caiu no mar.

Dentro do submergível o diretor de máquinas capitão del gênio navale Aristide Russo, assumiu o comando, abrindo a válvula dos tanques dágua. Os homens que ainda estavam dentro do barco saíram para coberta para evacuação e se lançarem ao mar. O Lulworth comunicou em italiano para ninguém se mover e permanecerem parados, se quisessem sobreviver, lançando uma pequena embarcação ao mar, comandada pelo tenente “divascelo” Frederick Wiliam North, que foi enviado para o submarino; após embarcado com arma na mão. Os ingleses encontraram na ponte de comando cadáveres e fogo na torreta, ordenando a tripulação sobrevivente que ficasse na coberta da popa. Dois membros da tripulação do Lulworth entraram dentro submarino encontrando a luz de emergência ligada. Tudo que encontraram foi uma carta náutica e algumas partes do diário de bordo, na cabine do comandante, quando foram chamados para coberta; o compartimento de popa alagando rapidamente.

Em uma outra versão os homens de North não entraram na embarcação, ficando com a tripulação comandada pelo capitão Russo. O capitão Maccota foi visto a última vez na torre de comando, que após ver a embarcação inglesa partindo, foi completa a manobra realizar o auto afundamento já iniciada, quando o segundo chefe torpedista se aproveitando da confusão, abriu um tubo lança torpedos, provocando novo fluxo de água determinou o fim do submarino. Russo, quando North entrou, iniciou uma luta corporal para impedir a captura do Calvi. A tensão entre os sobreviventes aumentou; muitos deles ainda estavam na coberta, sob o controle de membros da tripulação do Lulworth, enquanto os dois se encontravam lutando dentro do Calvi, e novamente veio a ordem para evacuação. Já no mar os tripulantes sobreviventes do Calvi, viram o submarino submergir na sua frente. Às 00:27 de 15 de julho, o submarino desapareceu no abismo, no ponto 30 35`N e 25 28`O, 480 milhas ao sul de São Miguel (Açores), juntamente com metade de sua tripulação, entre os quais o capitão Russo e North, naufragados juntos enquanto lutavam.

Pouco tempo depois ocorreu uma violenta explosão embaixo dágua, podendo ter sido causada por uma carga de profundidade que tivesse ficado no casco ainda sem explodir. Entretanto o Lulworth junto com o Bideford e Londonberryantes de iniciar o salvamento dos sobreviventes, foi torpedeado pelo U-130, em vã tentativa de ajudar o submarino italiano. Só depois de quatro horas o Bideford e o Londonberry tomaram rumo sul e foram resgatar os sobreviventes ( 03 oficiais, e 32 suboficais e marinheiros). A maioria tinha ficado no mar, 42 mortos do Calvi e o tenente North; em sua maioria vítimas da metralhadora do Lulworth durante o combate. O Londonberry, unidade de escolta, resgatou 02 oficiais. ( “segundo outra versão os sobreviventes foram resgatados pelo Lulworth, depois de ter contra atacado o U-130, o sloop britânico retornou para o local de afundamento do Calvi, para socorrer os sobreviventes, para depois transferi-los para o Londonberry. Os sobreviventes do Calvi foram levados para um campo de prisioneiros nos Estados Unidos e com o passar do tempo alguns foram transferidos para o Reino Unido e posteriormente libertados.


Texto
Augusto César Bastos

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Submarinos Alemães da II Guerra - As Armas que Viraram Museus

O U-2540 agora chamado "Wilhelm Bauer" ancorado em Bremerhafen, Alemanha.
Nos dias atuais a Alemanha em nada lembra a nação que levou o mundo a duas Guerras Mundiais. Um pais de fato civilizado e respeitoso para com os seus cidadãos mas que não se permite esquecer do passado. Hoje vários museus nos fazem lembrar dos anos difíceis que o mundo viveu durante a II Guerra. A mensagem é clara: vamos lembrar para que não se repita.

Naqueles tempos o mundo submerso era ainda mais misterioso do que hoje. Ser um submarinista era a profissão mais perigosa do mundo pois somente 1 em cada 4 submarinistas alemães retornou para casa após a Guerra. Os outros - cerca de 30 mil - "continuam em patrulha" como se diz no jargão náutico-militar em referencia aqueles que foram sepultados no leito marinho ou que tem seu destino desconhecido.

Hoje é possível conhecer de perto a tecnologia que assustou o mundo nos primeiros anos da década de 40. No norte da Alemanha existem dois submarinos que foram transformados em museus e estão abertos ao publico para que possamos conhecer até onde pode ir a engenhosidade humana quando habilmente motivada.

Apesar do meu fascínio por essas máquinas ter nascido pela fama dos submarinistas alemães a primeira embarcação deste tipo que visitei foi na verdade um submarino norte-americano. O USS Bowfin operou basicamente no Oceano Pacifico e afundou vários navios japoneses durante a Grande Guerra. Atualmente fora transformado em museu e está aberto a visitação no Complexo Histórico de Pearl Harbor em Oahu, Havaí. O sonho de conhecer as máquinas nazistas ficou ainda mais vivo após essa visita.

Museu Técnico do Submarino Wilhelm Bauer
U-2540
Sala de torpedos de vante
O primeiro submarino alemão que visitei foi inicialmente concebido no fim do conflito sob a sigla U-2540. Com um design inovador para a época foi o percursor dos submarinos modernos. Antes dele os submarinos eram basicamente navios que podiam "se esconder" abaixo da superfície. Essa nova tecnologia permita que essa embarcação pudesse permanecer semanas ou até meses submerso.

Complexo sistema de controle de lastro
Entrou em operação nos últimos meses de 1944 mas enquanto sua tripulação era treinada a guerra chegou ao fim antes que pudessem ter "sangue em suas mãos". Em maio de 1945, quando os nazistas assinaram sua rendição o U-2540 estava em operação no Mar do Norte e sua tripulação o afundou para que tal tecnologia não caísse nas mãos do inimigo.

Compartimento para emissão de mergulhador
Em 1957 foi retirado do fundo do mar em uma complexa operação de resgate e reformado para que servisse de embarcação de treinamento para nova Marinha de Guerra Alemã. O novo submarino entrou em operação em 1960 após longos anos de reparos e reformas sendo batizado "Wilhelm Bauer". Apesar do demorado esforço ficou relativamente poucos anos em serviço até ser descomissionado pela Marinha de Guerra em 1968. Ficou ainda alguns anos como submarino de testes com tripulação civíl até ser vendido com o objetivo de que fosse transformado em museu em 1982.

Hoje o Wihelm Bauer está ancorado em frente ao Museu Naval Alemão em Bremerhafen (que também foi um importante porto e palco de várias batalhas durante a Guerra) e pode ser visitado quase todo o seu interior. Dentro dele destacam-se o torpedo de 9m de comprimento logo na entrada, os espaços diminutos em que viviam seus 52 tripulantes, uma camara para emissão de um mergulhador, equipamentos de escape em emergências e a diminuta cozinha localizada ao lado da central de comando.


O mini-submarino Seehund (Cachorro do Mar) levava apenas dois tripulantes e dois torpedos.
O Seehund
Outro submarino a mostra no museu em Bremerhafen é o Seehund, um pequeno sub que comportava apenas dois tripulantes e dois torpedos destinado a missões especiais. Este sub está dentro do complexo e foi cortado lateralmente para que possamos visualizar seu interior. Se o espaço para tripulação era pequeno no Wilhelm Bauer, nesse é ainda menor.

O U-995 na praia de Laboe em Kiel, Alemanha
O U-995
Torreta com armamento anti-aereo
Outro submarino transformado em museu foi o U-995 tipo VII/C. Esta arma foi comissionada em 1943 e tem nove missões em seu currículo em que foram afundadas ou avariadas seis outras embarcaçoes. Operou basicamente no Oceano Ártico e a maioria de suas vitimas foram navios russos que faziam transporte de suprimentos para União Soviética.

Controle dos lemes de profundidade
Ao termino da Guerra estava ancorado para reparos e rendeu-se sem maiores dificuldades. Foi entregue para a Marinha de Guerra Norueguesa como indenização de guerra mas só entrou em operação em 1952 quando foi rebatizado "Kaura". Ficou em serviço ate 1965 quando foi permanentemente descomissionado. Em 1971 o Kaura foi vendido para o governo alemão pelo preço simbólico de 1 deustchmark (Marco Alemão, moeda que precedeu o atual Euro) com o compromisso de que fosse transformado em museu o que aconteceu no ano seguinte. Esta embarcação está completamente fora da água em uma praia do Mar Leste chamada Laboe, em Kiel, e pode ser visto externa e internamente. Diferente do U-2540 este submarino possui armamento pesado para repelir ataques aéreos. Por dentro algumas diferenças também são visíveis mas ambos tem incomum o diminuto espaço destinado a tripulação.

A pequena cozinha
Algumas curiosidades deste submarino: apesar de possuir dois banheiros ao partir em patrulha um deles era transformado em despensa e os seus 50 tripulantes dividiam apenas um toalete. Outro fato curioso é que trata-se de uma embarcação muito parecida com U-997, submarino suspeito de ter transportado Hitler em fuga para a Argentina por vários estudiosos. No litoral cearense existem dois submarinos alemães naufragados e nao localizados. O U-164 e o U-507, este ultimo afundou diversos navios no litoral brasileiro.

Ainda hoje a industria bélica se empenha na construção de máquinas engenhosas que objetivam a destruição, é a mesma industria que elege presidentes e promove a morte com a desculpa de manter a paz. Que sirva o aprendizado.


Veja como é por dentro do U-995!




Fontes
U-Boats - Mergulhando na Historia, de Nestor Magalhaes
Operação Ultra Mar Sul, de Juan Salinas e Carlos de Napoli
The U-Boat "Wilhelm Bauer" Technology Museum - Information Sumary

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Agosto de 1942: Memórias da Guerra Submarina na Costa de Sergipe

por Paula Christiny

Manchete de jornal noticia os ataques. Fonte: terra.com.br.

A Segunda Guerra Mundial, muito mais que um conflito europeu, foi um conflito “global”. O intuito desse texto é mostrar experiências vivenciadas por nordestinos durante esse conflito e também apontar pesquisas mostram que durante os combates não se destacou apenas a batalha naval em si, mas a forma como a população costeira respondeu aos atentados no mar. Sucessivos afundamentos de navios brasileiros foram registrados em águas internacionais ao longo da Segunda Guerra Mundial. Na costa brasileira o litoral de Sergipe foi palco de investidas nazistas entre os dias 15 e 16 de agosto de 1942.

A costa de sergipana foi lugar de lamentáveis acontecimentos da história trágico naval brasileira e internacional, tais episódios se transformaram em “tragédia sergipana”, Durante a Segunda Guerra Mundial, navios foram torpedeados ao longo do litoral de Sergipe e Bahia. A barbárie foi tanta, que comparando o número de mortos, se constata que morreram 1.051 pessoas decorrentes de ataques a navios mercantes brasileiros no período total da guerra (1939-1945). Entre todas as vítimas provenientes dos ataques aos navios mercantes brasileiros, 579 vidas foram ceifadas em águas costeiras sergipanas entre os anos de 1942 e 1943, representando mais da metade de todas as mortes brasileiras no mar. Tão grande foi peso da injuria que ela foi combustível para o rompimento diplomático com o Eixo. Isso foi encarado como uma declaração brasileira de guerra ao nazifascismo, seguiram-se a isso o reconhecimento do Estado de beligerância em todo território nacional (22 de agosto de 1942) e na Declaração Brasileira de Guerra à Alemanha e à Itália (31 de agosto de 1942).

A Repercussão dos Ataques
O que se quer mostrar é a memória coletiva do povo de Aracaju para perceber como os impactos causados pela Segunda Guerra Mundial influíram na vida das pessoas, como o ataque dos U-boots repercutiram no cotidiano da cidade no período belicoso. A história dos torpedeamentos dos navios mercantes gerou centenas de mortos, dezenas de sobreviventes traumatizados, população costeira amedrontada e um clima de insegurança generalizado, configurando assim, o estado de beligerância nas águas territoriais do Brasil, e mais tarde, a declaração varguista de guerra à Alemanha e à Itália.

Em decorrência dos ataques ocorreram na capital sergipana atos de hostilidade e intimidação contra imigrantes estrangeiros e descendentes; dificuldades de exportação e importação; escassez de uma série de produtos; crise no abastecimento dos combustíveis; o aumento do custo de vida, entre outras ações tomadas pelas autoridades públicas visando controlar a vida da população. Tudo isso em virtude do constante receio dos ataques ou até de submarinistas, depois que navios brasileiros começaram a ser afundados no Oceano Atlântico por submarinos alemães e italianos.

A campanha submarina do Eixo no Atlântico Sul, trazida pela Segunda Guerra, passou a ter um valor significativo para os brasileiros a partir de 1942 com as implicações causadas às investidas dos U-boots, que causaram enormes perdas navais brasileiras.

O U-507
O maior expoente dessa situação foi a presença do submarino alemão U-507, cuja ação na costa de Sergipe levou o Brasil à guerra devido a sua grande efetividade e foi relatada aqui no blog. O U-boot criou na população, a partir do dia 15 de agosto de1942, um medo coletivo da costa do Brasil, quando o U-507, capitaneado pelo alemão Harro Schacht torpedeou, em Sergipe, sequencialmente as seguintes embarcações: Baependi, Araraquara e Aníbal Benévolo. Os êxitos do U-507 que causaram a morte de centenas de brasileiros ganharam notoriedade na Alemanha nazista. Já na vida cotidiana da capital se Sergipe o U-boot esteve nas conversas de bar, nos jornais, nas rádios, em cada um dos lares da cidade.

O U-507, submarino alemão do Tipo IX tinha grande autonomia. Era composto por tripulação de 53 homens, podia levar até 12 torpedos, possuía seis lançadores de torpedos, sendo que dois eram na popa, tinha ainda: um canhão de 20mm, uma metralhadora antiaérea de 7,9mm e um canhão na proa de 105m. Fonte: http://cafehistoria.ning.com/

O conjunto dos navios soçobrados pelo submarino alemão U-507, entre o litoral de Sergipe e da Bahia, representou um dos momentos mais dramáticos vividos pelos brasileiro, a população ainda se imaginava neutra e distante do conflito global, mas com o torpedeamento, esse pensamento mudara, haviam sinais de que a guerra tinha chegado ao país. Os inimigos estavam infiltrados e precisavam ser combatidos por um lado, por outro, o Brasil também se tornava inimigo dos alemães e italianos.

Além da história política e militar, percebe-se que essa catástrofe ficou na memória da população por causa dos resultados das investida do submarino. Chegam até a costa os símbolos da batalha naval: sobreviventes desesperados, corpos deteriorados, mercadorias avariadas, destroços do barco, pertences dos passageiros e tripulantes. Era um desdobramento do conflito que feria amigos e parentes, o que era anteriormente distante se tornava uma realidade para a sociedade sergipana. Os submarinistas estrangeiros se movimentaram livres pela costa, afundando navios, como também, matando famílias inteiras ou deixando outras incompletas. Muitos moradores não tinham dificuldades em identificar um parente ou um conhecido que desapareceu vítima do submarino alemão U-507.

Os ataques do submarino alemão U-507, capitaneado pelo alemão Harro Schacht, foram registrados próximos à terra firme. Por causa disso os sergipanos tinham que lutar contra inimigos escondidos debaixo d’água, aos quais não tinham a menor ideia de como se defender, a qualquer momento prestes a atacar ou a desembarcar a "máquina infernal". Travaram-se batalhas contra o desconhecido, o estranho, o invisível. Essa revelação macabra, alimentada por informações provenientes de relatos jornalísticos das agências internacionais ou dos programas radiofônicos, assustou os aracajuanos. Manchetes da imprensa sergipana diziam: “a guerra já chegou entre nós”, “selvageria sem precedentes”; “metralhados nossos patrícios”; “o Aníbal Benévolo foi partido ao meio”; “Sergipe nunca em sua vida presenciou cenas tão tristes como nestes dias”. “De luto o Brasil. Reina a consternação em todo território sergipano”; “atentado vil e covarde contra nossa soberania”; “as incríveis barbaridades do nazismo”; “a nefanda ação do eixismo”; “não há mais que esperar, Brasil!”.
 Jornal do Brasil - Rio de Janeiro - 19.08.1942. 
Fonte: http://www.u-507.com.br/

As notícias não demoram a chegar ao cais do porto de Aracaju trazidas por pescadores. As informações dos sucessivos naufrágios causara profunda consternação entre os aracajuanos a ver o submarino como uma ameaça real às suas vidas. Os U-boots simbolizavam maior perigo às unidades da Marinha e aos pescadores oceânicos, mas não às cidades, povoados ou colônias de pescadores. Porém a constante chegada de informações causava medo coletivo que evidenciava que a população costeira não tinha um entendimento pleno sobre o alcance da navegação submarina.

O navio depois alvejado, em poucos minutos era engolido pelo mar. Mas para os sobreviventes e o restante da população, esse “tempo curto” se transformou em “longo trauma”. As memórias dos náufragos foram apropriadas pelos moradores da zona litorânea. O que ficou foi relatos dos feridos chegando macilentos e esfarrapados vítimas da tragédia que refletia nos olhos cheios de espanto e angústia.
Corpos chegaram ao litoral sergipano. Fonte: http://www.u-507.com.br/
Cadáveres que chegam às praias sergipanas, com olhos de quem morreu cheio de espanto. O cheiro de putrefação dos cadáveres que grudava nas roupas de quem tentava ajudar. O que se construiu naquelas mentalidades foram imagens terríveis nas praias alimentadas pelo medo do desconhecido, pelas histórias dramáticas dos náufragos e da gravidade das ocorrências bélicas. A costa sergipana ganhou a fama de ser “um lugar de submarinos”. Os marinheiros brasileiros passaram a temê-la com razão.

Os Inimigos Entre Nós
Em meio ao caos gerado pelo perigo representado pelo submarino, os sergipanos encontraram outros culpados em seu cotidiano: o quinta-coluna, os camisa-verde, o boateiro e o espião. Nessa batalha contra esses, o imaginário social criou o clima de desconfiança.

Acreditava-se que o quinta-coluna agia sorrateiro no interior da sociedade brasileira a favor do Eixo. Após o afundamento dos navios, o espírito de retaliação enfardou milhares de homens e mulheres do Brasil. Era evidente a ação de células de espionagem do Eixo no Brasil, mas o olhar de desconfiança social estava impregnado de inveja, de intolerância, de raiva, de cobiça, de preconceito, de oportunismo, de prazer, de retaliação e não apenas de dever patriótico, como afirmava o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda). Isso incentivou a perseguição a grupos suspeitos e discriminar os estrangeiros taxados de “eixistas”. A aversão dos aracajuanos se voltava principalmente sobre os estrangeiros, destacando-se principalmente os italianos e alemães. Cidadãos de origem estrangeira que foram presos em Sergipe acusados de pertencer a Quinta Coluna.

Um estrangeiro, ou suspeito de “quintacolunismo” corria sérios riscos de agressões, tanto físicas, quanto morais, podendo até mesmo temer por suas vida. Diversos estragos também foram feitos em residências de estrangeiros. As agressões partiam de grupos isolados ou conjuntos, feitas na maior parte das vezes por estudantes secundaristas do colégio Atheneu Sergipense.

Esse temor serviu para fortalecer a ditadura do Estado Novo. Nesses tempos difíceis de ditadura varguista, a tragédia naval foi apropriada pelo DIP a fim de promover o governo, ao explorar o fervor patriótico: “Sergipe contribuiu para o fortalecimento da unidade nacional” ou “o Brasil é um só”.

Os Ataques
A propaganda governista.
Diário de Notícias -  (22.08.42).
Fonte: http://www.u-507.com.br/
Em cada torpedeamento, a história não se repetiu, pois o evento bélico se revestiu de dimensões implícitas, envolveu diferentes tipos de barcos, apresentou circunstâncias espaciais singulares e contou com experiências individualizadas e coletivas. Entre os dias 15 e 16 de agosto de 1942, período em que foram afundados os navios Baependi, Araraquara e Aníbal Benévolo pelo submarino alemão U-507, foram perdidas 549 vidas. Em 1943, novamente, outros navios foram alvos da ação de U-boats nas águas de Sergipe, ocasionando mais 30 mortes. No dia 1º de março desse mesmo ano, na altura da foz do rio Real, foi torpedeado o navio de bandeira norte-americana Fitz-John Porter pelo submarino alemão U-518, havendo duas mortes. O Bagé foi o último mercante a ser torpedeado em Sergipe. No dia 29 de julho de 1943, o navio mercante foi afundado pelo submarino alemão U-185, perecendo 28 pessoas nesse ataque.

 O Araraquara, náufragos do Baependi viram a explosão e o seu afundamento.
Fonte: http://www.infonet.com.br/

 O Baependi - 270 mortos no seu  naufrágio.
Fonte: http://www.infonet.com.br/
O Ánibal Benévolo.
Fonte: http://www.infonet.com.br/
O que mais causou comoção aos aracajuanos foi o naufrágio do Aníbal Benévolo que seguia em viagem oceânica rumo à cidade de Aracaju. Todos sergipanos a bordo do vapor morreram no ataque nazista, criando um luto coletivo e duradouro, devido ao fato de nenhum conterrâneo ter sido localizado. Os naufrágios ocorridos na costa sergipana foram extremamente tocantes no Estado. Centenas de corpos chegaram às praias, junto com poucos sobreviventes. Os principais remanescentes desses naufrágios localizados até os dias atuais foram os restos mortais humanos que chegaram às praias sergipanas em 1942.

A população se aterrorizava com a suspeita de que os submarinistas alemães soubessem da rota naval até o porto da cidade. Embora a ameaça fosse invisível, alterou a rotina dos aracajuanos que se sentiam condição de vítimas da Guerra Submarina. Segundo a imprensa local, os inimigos do lado do Eixo poderiam estar em todos os pontos do mar brasileiro esperando o momento de atacar pela traição, de afundar navios, de matar brasileiros.

Enquanto as investidas dos U-boots não cessavam, os civis contribuíram com a campanha antissubmarina. A defesa da costa de Sergipe se tornou questão de Segurança Nacional. A Marinha do Brasil orientava para que se montasse um Sistema de Defesa Passivo, que influenciava diretamente na sociedade aracajuana. No âmbito militar montou-se uma vigilância costeira, postos de observação foram montados na região litorânea que foi reforçada com a chegada de tropas baianas e gaúchas, além dos marines americanos que realizaram a patrulha antissubmarina. No âmbito civil, pilotos civis auxiliavam buscas pelos náufragos. Os aracajuanos tinham ordens estritas de não cortarem os extensos manguezais que rodeavam o município de Aracaju para manter as barreiras naturais para dificultar o acesso à capital sergipana, caso tropas inimigas desembarcassem nas praias locais. Também instituiu-se o blecaute para que a cidade de Aracaju ficasse invisível as ameaças.

Na iminência de um desembarque inimigo, temor da invasão estava presente até nas autoridades locais, que exigiam em nome da defesa, disciplina e rigor no cumprimento das normas de segurança. Isso gerou episódios de extrema violência por parte da polícia. Veio também o racionamento do querosene, a norma não surtiu efeito porque a madeira era um dos gêneros de primeira necessidade nos lares mais humildes em Aracaju.

Porém, o ponto mais agressivo das restrições foi a proibição dos civis de se apropriarem dos salvados, pois havia uma “cultura dos malafogados”. A palavra malafogado, era tudo aquilo que não tinha afogado completamente, que voltava à tona, trazendo, porém, a marca do mal da grande tragédia marítima. O material recolhido pelos militares foi destinado para a Capitania dos Portos ou para o 28º Batalhão dos Caçadores.

Durante esse período Sergipe não contava com um sistema ferroviário eficiente e com as estradas de rodagem interestaduais inexistentes. Veio o súbito cancelamento das operações destinadas à movimentação de mercadorias de terra para bordo ou dos saveiros para os navios a vapor, ou das embarcações para terra. O comércio estagnou e a safra açucareira nos trapiches ribeirinhos foi junto com ele asfixiado pelo isolamento naval. As imposições causadas pela conjuntura e pelo quadro de penúria que a população vivia em virtude dela motivaram trabalhadores a se unir às manifestações políticas. Assim como os seus patrões, eles também utilizaram os jornais para protestar perante a sociedade aracajuana.

Por fim, pode se constatar que a guerra dos U-boots impôs preocupações militares, despertou conflitos sociais e diferentes sentimentos em Aracaju. Mais do que afundar navios, a passagem dos submarinistas pela costa criaram uma memória própria desse conflito mundial, pois a Guerra Submarina foi e será sempre um misto de bravura e profunda crueldade.

REFERÊNCIAS:
CRUZ, L. A. P. & ARAS, L. M. B. A Cidade dos Malafogados: O cotidiano de Aracaju durante a Guerra Submarina em Sergipe (1942-1945). Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH. São Paulo, 2011.
____________. A guerra submarina na costa sergipana (1942-1945). Navigator, V. 8 nº 15. Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, 2012.
____________. “A guerra já chegou entre nós!”: o cotidiano de Aracaju durante a guerra submarina (1942/1945). Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal da Bahia, 2012.

PORTO, Otávio Arruda, Arqueologia marítima / subaquática da 2 Guerra Mundial: sua aplicabilidade no Brasil. Dissertação (Mestrado em Arqueologia) – Universidade Federal da Sergipe, 2013.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

O que é a Arqueologia Subaquática das Guerras Mundiais?

por Paula Christiny
Arqueologia Subaquática . Foto: P3
Temas referentes a guerras têm um grande público, são vários sentimentos como dor, medo, fascinação que povoam a mente das pessoas a cerca de quando se fala acerca campanhas militares. Em virtude disso, videogames, sites, inúmeras publicações são feitas todos os anos com um novo aspecto de algum conflito. Muitas fazendo do mesmo um meio de entretenimento.

Tomando como exemplo a Segunda Guerra Mundial, constantemente vemos em bancas de jornal, livrarias ou na TV qualquer coisa referente a isso. Pode ser sobre o Nazismo, o Holocausto, a Bomba Atômica, a atuação dos EUA, a tecnologia armamentista, participação do Brasil no conflito e o que mais se possa imaginar. Mesmo diante de tantas publicações ainda existem muitos aspectos não elucidados acerca desse grande conflito. 

Curso de Arqueologia Subaquática
(Mar do Ceará /UFC/UFPI)
A partir da disso, arqueólogos estão dando sua contribuição para saber mais sobre Segunda Guerra Mundial. Quem pensa que Arqueologia só pesquisa tempos bastante remotos, está bastante enganado. Qualquer época pode ser estuda por essa ciência: que é definida como disciplina que estuda por meio de vestígios materiais, vários aspectos de vidas passadas. Ou seja, nada diz que só se estuda fosseis.

O fato é que muitas recentes descobertas arqueológicas e pesquisas históricas feitas em objetos não bem observados em outros estudos trazem novos conhecimentos importantíssimos sobre o tema. Em mar e terra arqueólogos estão trabalhando no sentido de trazer mais conhecimento sobre períodos belicosos. No campo da Arqueologia Subaquática são estudadas embarcações e outros artefatos bélicos afundados, que são riquíssimas fontes históricas e arqueológicas.

Feitas inicialmente por exploradores, Arqueologia das Guerras realizada nos mares era apenas a identificação e localização de restos de navios para descobrir as causas de naufrágios. Então surge como tema de pesquisa, a Arqueologia Subaquática das Guerras Mundiais que estuda testemunhos materiais de períodos belicosos, tentando abordar o lado social que nesses objetos, abordando aspectos culturais, sociais, econômicos, políticos, religiosos. Tal campo é profundamente frutífero devido gigantesco numero embarcações e aeronaves que foram sobraçadas nos tempos Guerras Mundiais. 

Nos anos finais da década de 80, e início anos 90 do século XX, o NHHC (Naval History and Heritage Command) da Marinha dos Estados Unidos desenvolveu as primeiras pesquisas em sítios de naufrágios formados por restos de navios da Marinha norte-americana e sítios de naufrágios e restos de aviões de seu país oriundos das Guerras Mundiais , sistematizando estudos arqueológicos subaquáticas sistemáticas nessa área .

Canhão de Popa do Navio do Pecém
torpedeado durante a II Guerra
Pode-se pensar que tais afundados ocorridos no período são protegidos por sua importância histórica, porém segundo a UNESCO apenas naufrágios com pelo menos um século são considerados patrimônio subaquático. Entretanto muitos naufrágios sem essa idade sofrem pela própria ação do tempo ou saques. Só para constar, aquele navio “pouco conhecido” chamado de Titanic, afundado em 1912, até dois anos atrás, antes completar 100 anos, segundo a UNESCO não poderia ser poderia receber o título de patrimônio subaquático. Fica a questão o naufrágio não teria importância histórica não mereciam ser protegidos e preservados?

Essa mesma indagação serve aos afundamentos do período da Segunda Guerra. Vamos ao caso do encouraçado alemão Bismarck, moderno navio de combate alemão, posto a pique pela esquadra inglesa do Atlântico em de maio de 1941. Ele fora um dos maiores exemplos das inovações bélicas da guerra e causador uma das maiores batalhas navais do século XX, sendo prioridade máxima da marinha inglesa afundar o Bismarck. Longe de completar um centenário o encouraçado não está nos moldes de patrimônio subaquático. Tal critério de seleção deixa naufrágios de grande significado vulneráveis aos caçadores de tesouros e a venda de espólios. Além disso, se faz necessária a mudança urgente da legislação o material de construção de alguns equipamentos bélicos como aviões são muito frágeis e durante a espera um século abaixo d’agua, pode sofrer a deterioração total.

Até pouco tempo atrás pouco se tinha sido feito para se saber mais sobre aspectos de naufrágios durante Segunda Guerra e outras do século XX. A Arqueologia das Guerras mundiais visa corrigir essa ausência e garantir a preservação desse patrimônio. Dessa forma, fazendo uma contribuição para que os sítios arqueológicos submersos referentes às Guerras sejam classificados como patrimônios culturais da humanidade.

USS Missouri, Navio-Museu em Pearl harbor
Nos Estados Unidos
Um exemplo de sucesso desse tipo de trabalho é o monumento criado em homenagem ao ataque de Pearl Harbor ocorrido na Segunda Guerra Mundial. No dia 7 de dezembro de 1941, a Marinha Imperial Japonesa fez um ataque surpresa contra os Estados Unidos, o alvo foi base de Pearl Harbor, localizada no Havaí, no Oceano Pacífico. Navios de guerra e outros alvos militares oram bombardeados por mais de 350 aviões japoneses, foram usados metralhadoras em alvos estratégicos e lançadas bombas perfurantes e torpedos contra encouraçados e destroieres. Foi um ataque muito bem sucedido, pois, as defesas estadunidenses não estavam preparadas para se defender.

Entrada do Centro Histórico
de Pearl Harbor. Foto: Marcus Davis.
Foram cerca de 2.400 americanos foram mortos no ataque e 1.250 ficaram feridos. Grandes danos sofreu a frota, ficaram danificando gravemente ou destruindo 12 navios de guerra, destruiu 188 aviões, que constituíam quase toda a frota de aeronaves em bases aéreas da área. Depois do ataque, o Japão aos Estados Unidos. No dia seguinte, Roosevelt assinou uma declaração formal de guerra contra o Japão. Dias depois, a Alemanha nazista e a Itália se uniram aos nipônicos e declararam guerra aos Estados Unidos. Esse episódio marcou profundamente os EUA e decretaram sua entrada a Segunda Guerra Mundial. Ele, ainda hoje, comove os estadunidenses que ainda lamentam e tratam o mesmo como uma enorme infâmia.

Visando homenagear as perdas em Pearl Harbor o sítio arqueológico e histórico de naufrágio formado pelos restos do encouraçado da Marinha dos Estados Unidos foi objeto de intensas pesquisas que culminaram na construção do USS Arizona Memorial. 

O USS Arizona era da classe Pennsylvania, construído em 1916, estava equipado com 12 canhões de 14 polegadas (356mm), deslocava 39.200 toneladas, atingindo 21 nós. Lutou na Primeira Guerra Mundial foi naufragado nos 15 minutos iniciais do ataque, ele foi atingido por diversas bombas de aeronaves que danificaram gravemente. Às 08h10min da manha, o bombardeiro japonês Nakajima B5N2 “Kate” lançaria uma bomba de 1.760 libras que penetraria em seu o encouraçado e depois explodiria causando uma grande explosão e um incêndio de dois dias e meio, tirando 1.177 vidas.



USS Arizona ainda sangra no fundo da baía de Pearl Harbor. Foto: Marcus Davis
No local onde o USS Arizona afundou foi construído um memorial em 1962 aproveitando a carcaça em honra a sua tripulação e até hoje o óleo do motor do navio sobe para a superfície. A estrutura do museu é em forma de ponte e atravessa o navio naufragado sem tocá-lo, sendo sustentada nas duas extremidades. Acessível somente por balsas, recebe mais de 1 milhão de visitantes anualmente. Em 1998 foi iniciado projeto de preservação do USS Arizona que busca a preservação dos restos do encouraçado, pesquisas se segue no naufrágio para se obter informações sobre o deterioração do. Tal projeto é uma alternativa de preservação para outros sítios arqueológicos de naufrágios, não se sabe ainda se a mais adequada. Mais do que a iniciativa de preservar, vale a de se pesquisar sobre esses afundamentos. Porém, o mesmo ainda se mostra cheio de desafios e questões, pois setenta anos depois do que ocorreu em Pearl Harbor, é possível ver o óleo que ainda vaza dos destroços do USS Arizona.

Mesmo com relevante papel no conflito, iniciativas na linha de pesquisa (Arqueologia Náutica, Marítima) que abrangem Arqueologia das Guerras Mundiais nos meios acadêmicos estão em estágios iniciais no Brasil. A mais relevante delas, feita pelo Ms. Otávio Arruda Porto traz resultados promissores. O autor apresenta uma significativa contribuição para a Arqueologia Subaquática Brasileira discutindo o estudo da Arqueologia das Guerras e a possibilidades da sua aplicabilidade no Brasil através do levantamento dos sítios de naufrágios da costa de Sergipe no período. Outros trabalhos estão ligados a Marinha do Brasil que produz e distribui texto nas áreas de história naval e tradições navais a maioria delas traz memória da participação da Esquadra Naval Brasileira em batalhas em águas territoriais brasileiras.


No Brasil

Um exemplo de pesquisas feitas sobre Arqueologia de Guerras no Brasil foi a expedição da família Schurmann e pesquisadores da Universidade do Vale do Itajaí que encontram, em julho de 2011, à profundidade de 135 m, submarino nazista U-513, afundado em 1943, na costa catarinense. Desaparecem com o U-boot 46 tripulantes, sobreviveram 7 entre eles o comandante Guggenberger. Era projeto da Família Schürmann, a partir da descoberta, explorar o seu interior. A Marinha brasileira, entretanto, em 2013, negou a licença para explorar o interior do submarino alegando que o mesmo era túmulo de guerra.

Navio inglês SS Baron Dechmond torpedeado a 30km do litoral do Ceará.
No Ceará 
Existem possibilidades amplas para esses estudos. Pode-se citar como exemplo o navio SS Eugene Thayer afundado pelo submarino italiano Pietro Calvi em tempos de guerra no litoral norte do Estado. Outro exemplo é o navio Baron Dechmont (Barão de Dechmont) torpedeado em 3 de Janeiro de 1943 pelo submarino alemão U-507 durante a II Guerra Mundial. Pretendo não me alongar muito no texto, então, quem quiser informações mais detalhadas elas estão aqui no site.

A Necessidade da Pesquisa
Salienta-se que essa pesquisa não se trata de apologia institucional e sim de eventos do cotidiano de homens e mulheres que estiveram presentes em momentos de crise. Artigos relacionados ao tema ficam restritos a publicações militares ou as especializadas em mergulho que fazem importantes trabalhos, porém têm menor circulação, restringindo o número de pessoas que tem acesso a esse tipo de informação. Muito do que se escreve sobre naufrágios vem de fontes oficiais quem em vários casos seguem o modelo da historiografia tradicional. Assim muito do que esses afundamentos podem nos dizer ficam omissos dentro dos relatos das histórias dos vencedores.

O que se buscou com esse artigo mostrar as possibilidades da aplicação da Arqueologia Subaquática das Guerras Mundiais. Por todo mundo existe uma grande diversidade de sítios arqueológicos de naufrágios de diferentes nações ainda sendo desprezados por sua juventude. Mesmo no Brasil, são quase que inexistentes tentativas de pesquisas nessa área.

Para saber mais:
Link dissertação Ótavio Arruda Porto:
http://bdtd.ufs.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=1377
Informações sobre o monumento de Pearl Harbor:
http://www.naturalhistorymag.com/htmlsite/master.html?http://www.naturalhistorymag.com/htmlsite/editors_pick/1991_11_pick.html

Site do U-513:
http://www.u-513.com/