sábado, 3 de outubro de 2015

Do Mar ao Museu: A Saga da jangada São Pedro

Os pescadores da jangada Sao Pedro

Em 1941 o Brasil estava em plena Ditadura do Estado Novo, onde o presidente da época, Getúlio Vargas estava controlando todas as formas de mídia e formas artísticas, criou o Departamento de Imprensa e Propaganda para informar os feitos governamentais e fiscalização das publicações sobre o governo, criação do programa A Voz do Brasil onde o povo podia ter acesso as informações parlamentares, repressão a movimentos sociais e também criação de uma nova moeda, o Cruzeiro.

Esse período de 1937 á 1945 foi marcado for um regime ditatorial, mas também teve mudanças significativas como a Consolidação das Leis Trabalhistas, que garantiam direitos aos trabalhadores como a instituição de um salário mínimo, o empresário deveria pagar o mínimo para o trabalhador como foi redigido em lei, foi denominada a jornada de trabalho de 8 horas diárias, houve o reconhecimento de sindicatos e associações de trabalhadores entre outros benefícios trabalhistas, que não se eram abordados antes dessa época conturbada de transição de um Brasil agricultor para um industrial.

O Ceará dessa época era formado também por comunidades que viviam de pesca para a sobrevivência. As leis colocadas por Getúlio ainda não haviam chegado na classe pescadora, assim eles se encontravam desamparados, contavam apenas com a ajuda da Federação Cearense dos Pescadores. Com essa demanda de necessidade surgiu em quatro pescadores do litoral de Fortaleza a vontade de mudar essa realidade, são eles: Manuel Pereira da Silva (Mané Preto), Manuel Olímpio Meira (Jacaré), Jerônimo André de Souza (Mestre Jerônimo) e Raimundo Correia Lima (Tatá).

O sonho
Nos final de 1930 o pescador cearense Manuel Olímpio Meira, o Jacaré, era muito popular na comunidade em que residia na colônia Z-1 e que era o presidente. Ele revelou a professora da escolinha da colônia um sonho que possuía, aprender a escrever e ir pessoalmente ao Rio de Janeiro falar com o presidente Getúlio Vargas sobre os problemas e as dificuldades de seus companheiros pescadores cearenses. A professora logo se dispôs a ajudá-lo na realização de seu sonho, propondo a Jacaré que ao final do turno das crianças ele iria a escola e a professora o ensinaria a ler e escrever.

No primeiro dia de aula Jacaré levou um amigo, Tatá que compartilhava de seu sonho. Jacaré desde o início teve um alto desempenho no aprendizado, não perdendo um dia sequer das aulas, onde dentro de um ano ele já conseguia ler e escrever.

Em 1941 o sonho de Jacaré já não era apenas compartilhado por Tatá, mas também por outros dois amigos pescadores o Mané Preto e Mestre Jerônimo, onde seus planos eram navegar até a cidade do Rio de Janeiro e conversar diretamente com o presidente do Estado Novo.

A sociedade quando tomou consciência do sonho do grupo de pescadores colaborou nessa busca, de pescadores e suas famílias á as autoridades locais deram incentivo aos jangadeiros cearenses. Assim eles fortaleceram seu sonho, planejando-o como iriam realizá-lo.

Os lobos do Mar
Os cearenses aventureiros foram chamados de lobos do mar, intrépidos aventureiros, gigantes bronzeados do sol, heróis bronzeados da praia e outras denominações, esses homens eram pescadores simples da colônia de pesca da praia de Iracema Z-1, exceto o pescador Jerônimo que obtinha filiação a colônia Z-2, no Mucuripe. Trabalhavam e moravam com suas famílias nessas colônias. Os quatro jangadeiros eram homens experientes na arte da pesca e vinham todos de descendência de pescadores.

Tatá era o mais velho do grupo, onde tinha 52 anos na época, pescava desde seus oito anos de idade de onde sempre retirou seu sustento. Era o que possuía melhores condições de vida que os seus companheiros, pois tinha uma jangada e residia em uma casa telhada e com dois quartos. Tinha duas filhas, Antônia de 24 anos e Raimunda de 22 anos.

Manuel Preto tinha 39 anos, onde desde os 6 anos já era iniciado na pesca, no qual ajudava jangadeiros a puxar algumas linhas e na hora da refeição. Tinha três filhos no tempo, Irismar com 17 anos, Dulcinéia com 3 anos e José com 13 anos que já auxiliava seu pai.

Jacaré tinha 38 anos, único que não era cearense de raiz, pescava desde menino. Onde desde a geração de seu bisavô sua família vivia da pesca, possuía oito filhos: Francisco, Maria, José, Raimunda, Maria José, Joaquim, Raimundo e Francisca. Nascendo mais dois filhos após o acontecimento, Maria de Lourdes, que falecerá ainda criança e Pedro.

Mestre Jerônimo tinha 35 anos, teve uma iniciação a arte da pesca diferente, com 18 anos. Por seu horror ao mar, que lhe causava náuseas. Seus parentes constantemente o ameaçavam amarrá-lo no mastro da jangada, ele passou a seguir os companheiros nas pescarias, enjoando diariamente cerca de um mês. Após se acostumar dizia que se pudesse moraria no mar, Na época do raid (evento) da jangada de São Pedro era conhecido como um notável mestre de jangadas. Possuía quatro filhos: Maria com 13 anos, Maria Francisca com 9 anos, José Maria com 9 anos e Maria do Carmo com apenas 5 anos.

Essa saga que os cearenses enfrentaram impressionaram a mídia local e nacional, a sociedade, da elite as comunidades e os seus ancestrais, pela fragilidade da embarcação usada, longa travessia, sem equipamentos técnicos para a localização no mar, como bússola e carta de navegação. Quando lhe era perguntado sobre sua forma de localização os jangadeiros riam e afirmavam sobre os seus conhecimentos das estrelas, onde a verdadeira forma de guia dos homens do mar. Como no depoimento de Tatá ao Diário da Noite (06/11/1941) ''A bússola só serve para atrapalhar a gente... Cada porto tem uma estrela para guiar os jangadeiros.''

A Jangada
Os intrépidos jangadeiros fizeram uso do seu instrumento fundamental em seu trabalho, uma jangada. Eles usaram uma jangada de madeira piúba, que foi importada do estado do Pará, sendo de alto custo de compra, transporte e confecção, custos os quais os pescadores não tinham condições de liquidar,
tornando os pescadores subordinados dos donos de jangadas.

A jangada usada era de madeira piúba que é geralmente a mais usada para essas embarcações, a jangada era feitas de seis paus e não possuía um prego sequer, ondes a estrutura era toda eram encaixadas. Sendo batizada no dia 8 de setembro de 1941, nomeada de jangada de São Pedro, sendo São Pedro o santo mais comum entre a comunidade pesqueira por causa de ser um pescador antes de ser discípulo de Jesus, chegando mais perto da realidade dos pescadores.

A jangada foi feita unicamente para o episódio, sendo financiada por auxílios recebidos de autoridades, comerciantes e membros da sociedade local.  Pensando cerca de 800 quilos medindo 36 palmos de comprimento de 8 de largura, não possuía nenhum prego em estrutura, foi consolidada como a representação de bravura e coragem dos jangadeiros cearenses.

Por tradição a jangada foi batizada, assim podendo haver uma relação entre a elite e a comunidade pesqueira da época, onde Dona Mariinha Holanda foi a escolhida para esse papel, sendo uma pessoa muito importante na defesa dos trabalhadores e na alta sociedade, onde ajudou no recolhimento de quantias para os quatro jangadeiros e suas famílias.

A saga da Jangada de São Pedro e os jangadeiros:
A partida da jangada e seus tripulantes se deu tardia pois houve problemas com a liberação da autorização da Comissão da Marinha Mercante. mesmo com o apoio do Interventor Menezes Pimentel que junto aos jangadeiros redigiu um telegrama com o pedido da autorização ao Ministro da Marinha, onde a autorização só veio chegar após a denúncia feita pelo jornal, Correio do Ceará, em 10/09/1941), relatando que a Federação dos Pescadores do Ceará estaria contra essa viagem, assim colocando barreiras para a sua realização. A Federação se pronunciou a favor dos pescadores e da viagem, elogiando a coragem e o propósito dos mesmos.

Finalmente tudo é acertado, com a autorização em mãos, Tatá, Mestre Jerônimo, Manuel Preto e Jacaré partem da Praia de Iracema no dia 14 de outubro de 1941. Desde o anúncio do sonho dos pescadores a partida da jangada, teve uma grande cobertura de notícias dos jornais, quando ainda era sonho apenas os jornais cearenses falavam sobre, mas quando passou a ser realizado jornais nacionais publicavam sobre a partida da jangada.

Os jangadeiros velejaram 61 dias, enfrentando o mar apenas com uma precária jangada de piúba. Os momentos da navegação é relatada no Diário de Bordo de Jacaré, descrevendo o vento, o tempo, os elementos da natureza e o estado de espirito dos tripulantes, que sentiam saudades de suas famílias e relatavam que estavam em paz na viagem por ter dois guardiões de suas famílias, Senhor Fernando Pinto e Dona Mariinha Holanda. O citado Fernando Pinto era o diretor do Jangada Club e auxiliou na obtenção da quantia para a realização do raid. O diário fazia menção também a outro jangadeiro Dragão do Mar, que era dito como um herói para os pescadores, onde Jacaré escreve esse trecho: ''Ia me esquecendo de dizer uma coisa. Se os ventos tivessem sido nossos amigos teríamos ido a Aracati, no Rio Jaguaribe, a terra do 'Dragão do Mar' jangadeiro e nosso simbolo''.

A parte mais complicada da saga foi entre Bahia e Vitória onde tiveram que enfrentar um forte temporal e ficando por um longo tempo cercados por bandos de enormes tubarões, de que fizeram um grande esforço para fugir, relatando que se cansaram muito e fizeram muito esforço remando por um longo período por não haver ventos.

A saga possuiu outro diário o Diário do Raid que contém depoimentos e impressões de autoridades e demais membros da sociedade de alguns lugares em que os pescadores estiveram. Além desses manuscritos também contém colados fragmentos selecionados de jornais.

Os quatro jangadeiros onde passaram foram bem recebidos, todos queriam saber como estava sendo a jornada, os jornais faziam muitas perguntas e publicavam tudo sobre isso, haviam pessoas esperando-os zapar em suas cidades, pessoas da alta sociedade os convidavam a passear na cidade e fazer-lhes companhia em suas refeições. Mas os jangadeiros por onde passavam percebiam que as dificuldades dos pescadores não se delimitava apenas ao Ceará, mas era de uma maior amplitude, assim eles tomaram mais força para ir em frente com o sonho, de relatar pessoalmente ao presidente esses problemas.

A chegada ao Rio de Janeiro
Na capital, a comissão de preparação dos festejos, que era composta pela Colônia de Cearenses que moravam no Rio e membros das federações estaduais de pesca, esperava ansiosa juntamente com a multidão moradora da cidade maravilhosa que esperavam os jangadeiros adentrarem no final da tarde a Baía de Guanabara, no dia 15 de novembro de 1941. A mídia cobria todos os passos dos
jangadeiros desde  chegada no cais e os discursos feitos pelo representante do Ministro do Trabalho, Luiz Augusto do Rego Monteiro, Ademar Beltrão, filiado a Federação dos Sindicatos trabalhistas, e até Jacaré, que era o porta-voz dos quatro jangadeiros, pois ele o que mais possuía o dom da fala, sempre era o que se comunicava com os jornais e com o consenso dos companheiros iria falar por todos com o presidente.

Chegando ao Palácio da Guanabara, os jangadeiros estavam acompanhados de representantes do governo e federações, foram ao encontro do presidente. Á multidão se amontoava para poder ver os heróis cearenses. Quando finalmente encontraram o presidente Getúlio Vargas, Jacaré como porta-voz do grupo lhe contou sobre as condições de miséria em que viviam, não possuindo uma casa digna e sem assistência social. Os trabalhadores diariamente ao saírem para pescar, enfrentavam um problema que era a divisão do pescado com os donos das embarcações, assim muitas vezes voltando sem nada para suas famílias, problema vigente por não estarem dentro das politicas sociais implementadas por Vargas, não possuíam aposentadoria, nem férias e décimo terceiro, Jacaré enfatizou que os obstáculos dos pescadores não se delimitam apenas ao litoral do Ceará mas por todo o Brasil em que os pescadores lhe pediram que o porta-voz falasse por eles nesse encontro.

O presidente enquanto ouvia o relato, tinha um sorriso leve em seu rosto, de forma a confortar os pescadores. Já Jacaré indo de forma direta e simples ao propósito do raid.

A esperada resposta do Presidente
O presidente Getúlio Vargas falou aos jangadeiros da legislação trabalhista brasileira, que iria estudar a situação relatada, adiantando a eles que com certeza a classe seria amparada. Recebeu o documento das mãos de Jacaré, pedindo -lhes que esperassem providências do Governo Federal.

O documento recebido de inicio expõe o sentimento daqueles que foram solicitar o amparo, e
explícita o caráter de homenagem ao Chefe da Nação. Também presenteando o presidente ou sua esposa com uma jangada de pesca cearense. Após essa mensagem de louvor ao presidente e ao ''Brasil Novo'', os trabalhadores enfatizam o sofrimento de sua classe. Pedindo de forma documentada para que o presidente olhasse por eles.

Após três dias depois do encontro, o presidente assina um Decreto-Lei onde inclui os jangadeiros no Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Marítimos. Ficando também instituído o salário base, onde também decreta que dentro das possibilidades, o Instituto deveria mandar instalar postos médicos para o atendimentos dos associados.

Para os pescadores essa atitude rápida do presidente foi como um presente do céu, onde eles falavam que Getúlio era como um pai para eles, atendendo o pedido de forma rápida e que a justiça quando solicitada era feita e justa.

O retorno
Voltaram para a Praia de Iracema de avião da Navegação Aérea Brasileira, percorrendo em menos de oito horas o trajeto. Consequentemente após o amparo do presidente foi formada uma rede de solidariedade as colônias de pescadores, todos queriam fazer parte do que estava acontecendo, dando sua parte.

Os jangadeiros voltaram como heróis, revolucionários, os benefícios eram vistos pela comunidade pesqueira, faziam festas, poemas e canções para agradecer o feito.

Mas nem tudo era um mar de rosas, desde o início do sonho, Jacaré já fazia acusações sobre a Federação de pescadores cearenses, em que os deixavam desamparados, relatando também a sociedade do Rio, após seu retorno o clima ficou mais conturbado, tanto Jacaré como os outros membros do grupo iam periodicamente aos jornais afirmar as denúncias realizadas. A federação se pronunciou explanou que as acusações feitas não tinham fundos e que a federação fazia o máximo para dar amparo a comunidade. Foi aberto um inquérito administrativo para a averiguação das acusações feitas, para reforçar a denúncia Jacaré e Manuel Preto visitaram trinta colônias pesqueiras, no qual queriam juntar elementos para demonstrar o estado de miséria que viviam os pescadores e famílias cearenses, enfatizando a abertura de uma inquérito verdadeiro para essas averiguações,

O filme e o trágico fim
Outro fato que ocorreu foi a vinda do cineasta Orson Welles para a realização de uma filme da saga da jangada de São Pedro, levando os quatro jangadeiros novamente ao Rio de Janeiro, onde na
gravação terminou de forma trágica levando a morte de Jacaré. O filme foi finalizado onde reconstitui o universo praieiro dos jangadeiros, a rotina de pesca, o trabalho feminino, a fragilidade da jangada, a vida complicada, as casas cobertas de palha de carnaúba. Os quatro jangadeiros, seu sonho de mudança, a ameaça no mar, a ida ao Rio de Janeiro, a morte no mar. Esse filme relata a manifestação de afirmação do trabalho feito por esses homens que enfrentam todos os dias o mar.

Após mais de 70 anos desse evento, que é lembrado com louvor, mudando a vida de muitos jangadeiros e dando esperança a outras classes sociais. Os quatro jangadeiros que realizaram esse feito não estão mais vivos, mas permanecem na vida e memória de muitos,

Essa saga foi parar no Museu do Ceará, sendo expressa no Diário do Raid, levado por Dona Mariinha Holanda. Possibilitando aos historiadores e frequentadores do museu estudarem e tomarem consciência de seus antepassados cearenses e seus feitos pela sociedade.  O povo cearense tem em sua história muitas lutas por reconhecimento, levantando e moldando a sociedade atual.

Os quatro intrépidos jangadeiros.

Livro relatando á situação brasileira e a saga dos jangadeiros.

Antiga Praia dos Peixes, onde se iniciou a saga dos cearenses.


Referências:
http://www.infoescola.com/brasil-republicano/estado-novo/
http://www.tst.jus.br/web/70-anos-clt/historia
http://www.suapesquisa.com/historiadobrasil/estado_novo.htm
Neves, Berenice Abreu de Castro. Do Mar ao Museu: A saga da jangada de São Pedro. Fortaleza: - Museu do Ceará / Secretária da Cultura e Desporto do Ceará, 2001.
Fotos:
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiPrrV-aEjxrUqwtbLeu079k6glYkMM8AqaPUPHLreymagKx7u2eiPrZYdC9sN710fzxfqOhlyfxbU4PhHU00MUDpeA5MGlFJXf51phjh6urQzuDA8JQ5etF0-dZWrBeWRl607a00PppnA/s1600/55.jpg
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http://copacabana.com/rua-jangadeiros/
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domingo, 20 de setembro de 2015

Bússola: o que é e como usar

A bússola é um equipamento essêncial quando o mergulhador não possui referências visuais

A bússola é o equipamento mais antigo usado não somente por mergulhadores, mas por navegadores e em terra também. Sua invenção data de 2000 a.C. sendo aperfeiçoada ao passar dos séculos. Mergulhadores tem a bússola como um instrumento que não pode faltar na hora do planejamento de seu mergulho, é sempre bom tê-la sendo em mergulhos recreativos à avançados, em locais conhecidos e não conhecidos pelo mergulhador.

Orientação Subaquática
Existem três formas de orientação sob a água: o natural, em que o mergulhador pode ir sem instrumento de direção algum só com sua experiência de localização, com a visualização de aspectos naturais como rochas e corais. A forma chamada de instrumental em que o mergulhador olha atentamente para a bússola, sem observar ao seu redor. E a forma prática em que o mergulhador juntas as duas formas anteriores para assim observar o lugar em que mergulham e seguir a bússola.


O que é
O aparelho consiste em uma caixinha de material transparente com um líquido, um óleo que tem como finalidade dar estabilidade á agulha, em seu interior, a cápsula, dentro dela existe uma peça metálica chamada de agulha que é equilibrada sobre um eixo que tem livre movimento. Essa agulha magnetizada aponta sempre para o pólo norte magnético da Terra. Isso ocorre devido a grande quantidade de ferro derretido no interior da Terra, funcionando como imã e atraindo a agulha magnetizada da bússola. Também possui uma linha vermelha ou preta, a linha de referência, que dá ao mergulhador a opção de seguir uma direção em sua trajetória. Nas bússolas para mergulhadores é normal que venha envolta da lente uma anel rotativo graduado, que também indica a graduação da circunferência, os azimutes.

Como usar
Uma forma de se usar é com o instrumento colocado no pulso como um relógio, se usado no braço direito você segura em seu braço esquerdo que deve ficar esticado, o cotovelo direito deve estar em um ângulo de 90º com o "eixo central" do mergulhador, deixando a bússola mais estável com os movimentos da água. Ainda em superfície da água aponte a linha de referência para o ponto em que deseja e marque a posição com o anel rotativo graduado. 

Quando submergir terá seu ponto de referência marcado em sua bússola, assim você deve colocar seus braços na mesma posição e observar se a linha de referência está alinhada com o anel rotativo graduado, se não estiver você vai observando atentamente o seu instrumento e mudando sua direção até que eles estejam alinhados e você estará na posição correta.

Norte Geográfico e Magnético: qual a diferença
A Terra é um grande imã, funcionando com magnetismo ordenando a bússola, onde ela sempre irá apontar para o pólo norte geográfico sul da Terra. Onde o magnetismo sempre atrai o lado oposto do seu imã, norte atrai sul e vice-versa. Existem dois tipos de pólos: geográfico e magnético.
Pólo Geográfico: São os pólos extremos da Terra, Norte e Sul, no qual possuem seu centro definido pelo eixo de movimentação da rotação terrestre. Os pólos geográficos não variam suas medidas, são sempre fixos e são pontos onde ocorre o encontro dos meridianos.
Pólo Magnético: São zonas terrestres que possuem maior intensidade no magnetismo,essas zonas podem variar com o passar do tempo, a presença de minerais diferenciados no solo pode interferir na indicação da bússola para o norte geográfico, também interferido nas zonas de magnetismo essa interferência é chamada de declinação magnética, que é a diferença em medidas de graus onde é identificado pelo norte magnético terreno e norte geográfico, a determinação é feita pelo eixo de rotação terrestre, existem tabelas que demonstram dessa declinação em cada local e período. A declinação do Ceará é 21º para a esquerda.  Assim podemos se situar com o termo "Norte Magnético", onde a bússola aponta para um pólo magnético.

Azimutes:
Para facilitar a orientação, existem ferramentas que auxiliam a determinação das direções e localização. Azimute é uma medida de direção horizontal, interpretadas em graus, que aponta para o norte da Terra. Há três formas de azimutes: o magnético, onde a direção é apontada para a bússola. O azimute geográfico, no qual tem medição em direção ao pólo norte e o azimute cartográfico tem medição com base da orientação das linhas verticais do mapa. As medidas de azimute variam de 0º a 360º, feitas em quadrantes, que é a quarta parte de uma circunferência. O mergulho usa mais o azimute magnético, pelo uso de localização e direção submersos possam confundir o ser humano, assim o uso da bússola se faz total necessária para traçar a rota de mergulho com segurança. 

Com o avançar o mergulhador vai adquirindo experiência e assim ele pode usufruir das paisagens aquáticas pois já está mais experiente em relação como a direção se comporta debaixo d'água, observando a bússola em intervalos de consulta. As formas de orientação auxiliam o mergulhador, em seu planejamento de mergulho e navegação para o ponto de mergulho, é muito importante a compreensão e o uso de forma correta dessas ferramentas em seus locais devidos, para que você não se depare com alguma situação de falta de orientação em Terra ou água. 

No Mar do Ceará oferencemos cursos que apresentam o equipamento e técnicas de orientação como o Open Water Diver (curso de mergulho básico) e o Advanced Open Water Diver (curso de mergulho avançado), entre em contato para mais informações!

Referências:

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

O que são Algas Urtigantes?

Por João Ravelly

Diversidade de Cnidários.
O filo Cnidaria corresponde ao grupo que engloba as conhecidas “Algas urticantes”, as hidras, as caravelas portuguesas, os corais, as anêmonas e as águas-vivas. São animais aquáticos com dez mil espécies marinhas e cerca de vinte espécies representantes de água doce; destes, quatrocentos e setenta marinhos e somente sete de água doce são encontrados no Brasil.

 Apresentam duas formas corporais típicas: Pólipo e Medusa. Os Pólipos são tubulares, possuem boca cercada por tentáculos, podendo ser solitários ou viver em colônias e são os organismos sésseis. Enquanto que as Medusas apresentam forma que se assemelha a um sino, com tentáculos, possuindo capacidade de locomoção ao impulsionar a água do meio para mover seu corpo lentamente, como vemos em águas-vivas. Grande parte dos cnidários possui muda entre medusa e pólipo durante seu desenvolvimento, sendo uma dessas formas dominante.


Descrição
Formas de Pólipo e Medusa.
Seu nome deriva do grego (Knide = irritante), são animais que apresentam uma estrutura chamada de ‘Cnidócito’ que corresponde a uma cápsula que armazena um filamento chamado de ‘Nematocisto’. No nematocisto encontra-se uma substancia que gera irritação quando em contato com a pele. O cnidócito é acionado rapidamente por contato, sendo caracterizado como uma estrutura de defesa do animal, podendo estar relacionado também com a captura de alimento quando apresenta substância adesiva ao invés de urticante.

Cnidócito acionado ao ser pressionado
e liberando substância urticante.
São animais relativamente simples, mas não podemos desvalorizá-los, pois apresentam um sistema nervoso difuso em todo seu corpo com estruturas sensoriais para percepção do meio, como Estatocistos, responsáveis por manutenção do equilíbrio, e Ocelos, estruturas fotossensíveis. Apresentam também sistema muscular com duas camadas de fibras musculares que são importantes para movimentação do indivíduo. Quanto à reprodução eles podem se reproduzir a partir da produção de gametas que podem ser liberados na coluna d’água ou por meio de brotamento, quando o indivíduo gera uma cópia de si em seu próprio corpo para depois liberar.

Esse filo apresenta uma grande diversidade de representantes, sendo subdividido em cinco outros grupos menores, a saber: Hydrozoa, que corresponde às hidras e caravelas; Scyphozoa, correspondendo as grandes medusas/águas-vivas; Antozoa, os corais e as anêmonas do mar; Staurozoa, as medusas que possuem pedúnculo, e Cubozoa, as águas-vivas normais.

Diversidade de Cnidários. Os dois da margem superior são comuns no litoral cearense.

Os cnidários são carnívoros e se alimentam de pequenos outros animais presentes na água, podendo ser peixes, pequenos mariscos; de forma que usam os tentáculos para captá-los e introduzi-los em sua cavidade gástrica para que ocorra a digestão.

Alguns animais utilizam pólipos sésseis de cnidários para defesa, colocando-os sobre si mesmo para evitar que predadores os ataquem, em troca os pólipos são deslocados de um lugar para outro. Outros, como o conhecido Peixe-Palhaço, se protegem entre os tentáculos das anêmonas, enquanto as protege do peixe-borboleta.

Acidentes e Primeiros Socorros
Anualmente ocorrem diversos acidentes envolvendo cnidários. Parte deles é por falta de informação. Muitas pessoas não sabem que os tentáculos de águas-vivas e caravelas podem ser maiores que o próprio animal, ou mesmo não sabem identificar um cnidário e acabam tocando em um animal colorido e se machucando gravemente.

Em caso de acidentes com cnidários recomenda-se lavar com água do mar e/ou realizar compressas com água do mar preferencialmente gelada; não utilizar água-doce, pois a mesma provoca o disparo dos nematocistos ainda aderidos ao corpo; retirar cuidadosamente com o auxílio de algum objeto os pedaços dos tentáculos se ainda estiverem aderidos ao corpo, nunca diretamente com a mão, evitando pressioná-los; aplicar vinagre, pois aliviará as dores e a inflamação, além de inativar a toxina residual dos nematocistos ainda não disparados, e nunca lave a área atingida com urina!

É importante entender que os cnidários apresentam grande papel para o ecossistema aquático, seja marinho ou de água doce, principalmente por suas relações com outros indivíduos; e que apenas se defendem ao contato, por isso é importante evitar tocar indiscriminadamente em qualquer coisa que vemos no mar, lembre-se: os animais mais perigosos tendem a ser bonitinhos e coloridinhos ou feiosos e com cores vibrantes.
Medusa com longos tentáculos.
Caravela-Portuguesa na água com tentáculos submersos. 
Caravela-Portuguesa encalhada na areia. (Atenção: mesmo que o animal esteja aparentando estar morto, não entre em contato pois sei cnidócitos ainda podem estar carregados)
Coral em desenvolvimento.
Diversidade de Cnidários: hidrozoa marinho.
Diversidade de Cnidários: Hydra fusca.
Diversidade de Cnidários: Hydra litorallis.
Octocorallia, tipo de cnidário, no porto do pecém.

Nota do Editor
São muitas vezes confundidos com algas visto que algumas espécies de vida séssil possuem forma semelhante às algas marinhas. Cnidários urtigantes séssis são observados em todo o litoral cearense sendo muito comuns em naufrágios. No entanto, quando a vítima não é alergica o efeito da peçonha é passageiro.

Fontes:
Livro - Zoologia dos Invertebrados Barnes, Robert D. - Ruppert, Edward E. - Fox, Richard S.;
*As imagens e vídeos foram retirados da internet e todos os direitos devem ser atribuídos à seus idealizadores.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Corais: como vivem e por que estão sofrendo branqueamento?

Mergulhador junto a corais e esponjas em Natal, RN.
Os Corais
São animais do filo dos Cnidários e do táxon Anthozoa. O nome desse filo veio da palavra knide que tem origem no latim e significa urtiga (o que remete a característica dos animais desse filo provocarem "queimaduras") e além de ser o filo dos corais, é o filo dos polipos, medusas, anêmonas, caravelas e de outros animais. O táxon dos Anthozoa ou "Animais-flor" é uma subdivisão dos Cnidários e é a classe dos corais, anêmonas, gorgônias entre outros tipos de animais.
Polychaeta sobre um conjunto de corais

Os corais são carnívoros oportunistas (capturam as presas quando elas nadam ou derivam em contato com eles) e podem se reproduzir de forma clonal, por brotamento ou fragmentação. Portanto, se um mergulhador que não controla a sua flutuabilidade ou não possui consciência ecológica, quebra os corais ao entrar em contato com eles, estará prejudicando a reprodução desse animal.

Um recife de coral não é formado apenas por corais, mas por um conjunto de seres vivos que vivem associados à outros animais e fazem com que o recife seja um ecossistema altamente complexo e rico em vida marinha. Os corais secretam um exoesqueleto de carbonato de cálcio (aragonita), o que faz com que o recife esteja sempre sobre uma "grande rocha".

Enquanto uma colônia de corais está viva, carbonato de cálcio novo é depositado abaixo dos tecidos vivos. Essa deposição aumenta o diâmetro e a espessura do exoesqueleto do coral, o que faz com que o tamanho do recife aumente.

A deposição de carbonato de cálcio e o crescimento do animal variam diária e sazonalmente com a temperatura e com a luz. Assim, muitos corais exibem faixas de crescimento sazonais como os anéis das árvores, que podem ser evidenciados em imagens de radiografia que determinam a idade e a taxa de crescimento do ser vivo. Muitos corais crescem somente 0,3 a 2,0 centímetros por ano. Os corais normalmente são encontrados em ambientes de águas rasas nos trópicos, ensolaradas e pobres em nutrientes.

Alguns desses animais realizam mutualismo (associação entre dois seres vivos que gera benefício aos dois) com algas fazendo com que os corais fiquem com a tonalidade desses organismos fotossintetizantes, as algas oferecem derivados da fotossíntese e oxigênio ao coral em troca de habitat protetor e nutrientes como fosfato (PO4), amônia (NH3) e gás carbônico (CO2).

Mergulhador e coral no Parque Estadual Marinho da Pedra da Risca do Meio.


O Branqueamento
Em condições adversas, esses animais expelem parte ou todas as algas que estão associadas. Com a perda das algas pigmentadas, o esqueleto calcário branco é, então, visível através do tecido transparente, e é dito que o coral sofreu branqueamento. Os estresses causadores do branqueamento podem ser sub ou sobre iluminação, excesso de exposição UV, flutuação de salinidade e mudanças de temperatura.

Em razão de muitos corais viverem em temperaturas da água perto do limite superior letal, uma elevação de temperatura de apenas 1°C pode ser suficiente para induzir o branqueamento. Episódios extensos de branqueamento de corais, registrados nos últimos 20 anos, podem ser ligados ao efeito estufa.

O branqueamento de um coral não é sempre completo e não resulta sempre na mortalidade do coral, especialmente se o período de tensão ambiental não for prolongado.

Apesar de belos, esses animais podem ferir o ser humano devido a presença de estruturas chamadas de coanócitos que provocam as "queimaduras" características do filo desse animal. Diante disso, nunca pegue em corais pois você pode se machucar ou machucar o animal.

Fotos:
Marcus Davis

Referências:
  • Zoologia dos Invertebrados de Ruppert, Edward E. 7° edição, 2005
  • Ecologia: De Indivíduos a Ecossistemas de Begon, Michael 4° edição 

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Dragão do Mar: Quem foi Chico da Matilde?


Estatua do Chico da Matilde no Centro Cultural Dragão do Mar

Nascido em 15 de abril de 1839, em Canoa Quebrada na Vila de Aracati, o famoso Dragão do Mar foi um homem que se tornou famoso no Estado no fim do século XIX, durante o início dos movimentos abolicionistas no Brasil. Seu nome era Francisco José do Nascimento mas como era filho de Matilde Maria da Conceição, era conhecido como o Chico da Matilde.

Ainda criança perdeu o pai, Manoel do Nascimento, que era um jangadeiro mas que com a alta da borracha no Estado do Amazonas foi para o norte do país a procura de melhoria de vida, mas infelizmente faleceu. Sua mãe, agora viúva, decide deixar Francisco aos cuidados de um senhor que era dono de uma embarcação que realizava transportes na costa nordestina e devido a isso, Chico começou desde cedo a trabalhar nesse meio, principalmente como menino de recados e assim foi convivendo com trabalhadores do mar e a vivenciando o tráfico negreiro desde a infância.

Em 1874 foi nomeado prático da Capitania dos Portos e convivia com escravos, jangadeiros, marinheiros e segundo alguns relatos, apesar de ter se alfabetizado somente aos 20 anos, devido ao seu contato direto com marinheiros de outras nacionalidades, falava inglês e um pouco de alemão.

Também tinha um vasto conhecimento sobre geografia física e navegação, pois como prático do porto, era responsável por auxiliar principalmente embarcações de grande porte a navegar pela costa e a entrar e sair dos portos. Além de entender de navegação, um prático de porto tem que ter conhecimento da geografia física daquele local, pois sua principal função é impedir que as embarcações de grande porte venham a ser danificadas por algum banco de areia, formação rochosa, naufrágio ou até por uma corrente marinha.


O Movimento Abolicionista
Chico da Matilde

Na década de quarenta nos anos de 1800, a base da economia brasileira estava na exploração da mão de obra escrava, naquela época o governo imperial era dominado pelos interesses dos latifundiários escravagistas, mesmo assim, alguns políticos já haviam começado a debater a abolição na assembleia geral. Porque existia um interesse por parte de países como a Inglaterra que tinham um forte comércio e visavam aumentar o seu mercado para arrecadar lucros. Com a abolição dos escravos, aumentaria o número de trabalhadores e consumidores e movimentaria o comércio.

Além das elites letradas da época que tinham um discurso que valorizava os direitos humanos e que visavam acabar com a escravidão brasileira que já vinha diminuindo no Nordeste devido à seca que tornava caro e dispendioso sustento de escravos. Ao decorrer do tempo o governo foi tomando medidas que caminhavam para a abolição, como a criação da Lei Eusébio de Queiroz que proibia o tráfico de africanos para o Brasil.

No Ceará
Com a proibição do tráfico da África para o Brasil se intensificou o tráfico dentro do próprio Brasil, sendo o Ceará um grande exportador de escravos. Nessa época, Chico da Matilde trabalhava como prático da Capitania dos Portos e era proprietário de algumas jangadas e devido a isso convivia com escravos e traficantes de escravos, pois o transporte de escravos era muitas vezes feito por jangadeiros que levavam os escravos até barcos maiores (que precisavam do prático do porto para navegarem com segurança próximo à costa) para serem levados até outras regiões do país.

Fortaleza era sede de várias sociedades abolicionistas nos meados do século XIX, que eram basicamente grupos da elite que arrecadavam fundos para comprar a alforria de escravos e que foram de fundamental importância no movimento abolicionista cearense.

O início da divulgação de pensamentos e atitudes abolicionistas por parte da população do município de Fortaleza foi desencadeada por um dos membros de uma dessas sociedades, da Sociedade Cearense Libertadora, que sugeriu em um discurso no Teatro São Luiz que os jangadeiros poderiam ajudar a impedir o tráfico de escravos.

A partir desse discurso foi proposta uma paralisação dos jangadeiros e que agora não fossem mais embarcados escravos no porto de Fortaleza. Um escravo recém alforriado chamado José Napoleão foi convocado para ser o líder dos jangadeiros no movimento, o representante abolicionista na praia, mas ele se recusa humildemente e indica o Chico da Matilde para essa função. 

Sociedade Cearense Libertadora

Chico da Matilde não assumiu efetivamente a liderança dos jangadeiros porque possuía o cargo de prático do porto na Capitania dos Portos, mas assistiu à paralisação e deixou suas duas jangadas a disposição do movimento. E só alguns meses depois que ele toma a frente da segunda greve dos trabalhadores do porto e participa efetivamente dos movimentos abolicionistas. Mas essa participação não agrada o Presidente da Província do Ceará e Chico da Matilde perde o seu cargo público na Capitania dos Portos.

Após essa série de acontecimentos, Chico da Matilde se agrega a uma dessas sociedades abolicionistas e passa a ser uma referência do marco da resistência popular. Unido aos demais integrantes da sociedade abolicionista, alforriam todos os escravos da Vila do Acarape que após esse movimento ganhou o nome de Redenção, que é conhecida por ser a primeira cidade no país que aboliu a escravidão.


Representação do Dragão do Mar entre as jangadas


A abolição dos escravos da Vila do Acarape foi seguida por uma série de movimentos abolicionistas que fez com que em 25 de março de 1884 fosse abolida a escravidão em toda a província do Ceará. Após essa data, a província do Ceará se tornou uma referência nacional em relação a abolição, e os integrantes dos movimentos abolicionistas cearenses foram convidados a se reunir no Rio de Janeiro para falar sobre a abolição da escravidão na província do Ceará, e foi nesse momento que o Chico da Matilde ficou conhecido como o Dragão do Mar e a província do Ceará ficou conhecida como Terra da Luz.

Fim de sua vida
Existem diferentes versões sobre o vida do Chico da Matilde após o sucesso movimento abolicionista cearense até a sua morte. Alguns estudiosos relatam que após esse momento de glória e intensa participação em movimentos revolucionários, Chico da Matilde perde muito de sua fama. Que apesar de seu envolvimento com a Sociedade Cearense Liberta e o título de um verdadeiro herói popular, perdeu o seu emprego e passou a seguir a vida como seu pai, vivendo com base na pesca.

Enquanto outros dizem que por ordem de Dom Pedro II ele foi reconduzido ao cargo de prático da Capitania dos Portos em 1889 e que pouco tempo depois, durante o regime republicano, recebeu a patente de Major-Ajudante de Ordem do Secretariado Geral do Comando Superior da Guarda Nacional do Estado do Ceará.

Chico da Matilde morreu aos 75 anos de idade, no dia 5 de março de 1914, naquele dia ele não foi lembrado como um dos líderes da abolição, pois Fortaleza estava passando por um momento de revolução política que era liderada por Padre Cicero e outros homens influentes que visavam a deposição do atual governador do Ceará, Franco Rabelo.

Apesar de não termos conhecimento exato de como Chico da Matilde viveu seus últimos anos de vida, sabemos que ele não recebeu a devida atenção após sua morte, mas mesmo assim, não podemos deixar de ressaltar que o Dragão do Mar foi e continua a ser um verdadeiro ícone na cidade de Fortaleza. O Centro Cultural Dragão do Mar tem esse nome em referência a esse homem que se tornou um representante do movimento abolicionista cearense, o Dragão do Mar também deu nome à rádio, farmácia, escola, rua e prédios públicos no Estado.

Nota
Apesar de falarem que o Dragão do Mar é um mito e o texto comprovar que ele não foi o mentor do movimento abolicionista cearense e que sozinho não teria movido a abolição. Acredito que esse herói popular não perde o seu mérito. Pois afinal, Chico da Matilde participou do movimento abolicionista cearense, foi o líder dos jangadeiros e foi o representante do Ceará em um encontro no município do Rio de Janeiro sobre o movimento abolicionista brasileiro.


Referências:
https://www.youtube.com/watch?v=Pju_WvYfhp8
https://www.youtube.com/watch?v=k-_otlBt4Ds
http://www.dragaodomar.org.br/concurso_text.php
http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/caderno-3/mito-do-heroi-jangadeiro-1.701370
http://anpuh.org/anais/wp-content/uploads/mp/pdf/ANPUH.S25.0389.pdf